AC/DC – Power Up

 

 

Gênero: Rock

Duração: 41 min.
Faixas: 12
Produção: Brendan O’Brien
Gravadora: Sony

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

Se alguém chegasse no início de 2020 e cravasse que teríamos um novo disco do AC/DC, seria acusado de louco. Não havia nada que jogasse a favor da banda australiana de ascendência escocesa: Malcolm Young morto; o baterista Phil Rudd acusado de crimes; o vocalista Brian Johnson com problemas de perda de audição. Além disso, como cereja do bolo, veio a pandemia. Mas, contra tudo e todos, o grupo solta agora este “Power Up”, seu 17º álbum de inéditas na carreira e mantém-se como uma das maiores constantes da música popular roqueira planetária. Sim, porque o AC/DC é a única instância de conservadorismo que aplaudimos e enaltecemos: não há que se falar em álbum revolucionário dos caras, muito pelo contrário. Queremos que eles sigam fazendo a mesmíssima liga de hard rock, r&b e malandragem de bar por toda a eternidade ou enquanto durarem as forças dos caras. Aliás, é bom dizer: Angus Young, o mítico guitarrista da banda segue firme, ao lado de Cliff Williams (baixo) e Stevie Young (guitarra base). E, sim, Brian Johnson e Phill Rudd estão presentes, em forma e engrossando a argamassa sonora que compõe este ótimo álbum.

 

A produção está novamente a cargo de Brendan O’Brien, que já trabalhou com a banda nos dois álbuns anteriores, “Rock Or Bust” (2014) e “Black Ice” (2008) e isso é mais um fator que joga a favor da ideia de continuidade/estabilidade. O’Brien, que já pilotou estúdios para Bruce Springsteen e, especialmente, para o Pearl Jam, conseguiu forjar uma sonoridade roqueira e moderna, capaz de fazer as pessoas ouvirem as guitarras e a comunhão baixo/bateria sem a sensação de estarem presenciando a manifestação do passado no presente. Esta limpeza/esperteza sonora é essencial para o que faz o AC/DC neste novo milênio e isso funciona muito bem em “Power Up”. A ideia de que estamos ouvindo algo que é muito tradicional e imutável com ares contemporâneos é perfeita aqui. O’Brien, como se fosse um historiador sonoro, deixa este passado se manifestar no presente como um portador desta tradição empoeirada, estradeira e sacana que o som dos australianos sempre teve. E dá certo.

 

O disco foi gravado em Toronto, antes da pandemia. Brian Johnson declarou que, assim como “Back In Black” (1981) foi um trabalho em homenagem ao então vocalista Bon Scott, morto na época, este “Power Up” é um disco póstumo que relembra a presença de Malcolm Young, falecido em 2017 por conta de vários problemas de saúde. Ao lado do irmão mais novo, Angus, ele era o responsável pela arquitetura de guitarras da banda, construindo uma alquimia base/solo poucas vezes vista. Tudo parecia simples e banal, mas o resultado – testado e aprovado – pela banda em discos e shows, mostra que os dois tinham algo realmente especial. Isso ainda se mantém com a presença de Steve Young, um primo, mostrando que o AC/DC é uma instituição bastante familiar.

 

De nada adiantaria todos os pontos levantados aqui se não houvesse boas canções. E elas pipocam pelo disco adentro. “Rejection”, a segunda faixa, é uma porrada em câmera um pouco mais lenta, abrindo espaço para vários momentos dignos do melhor da carreira do grupo. “Through The Mists Of Time” e “Kick When You’re Down” mostram os dois lados desta moeda setentista, com andamentos diferentes, mas unidas pelo ótimo trabalho de guitarras. E, entre tantas boas passagens, “Demon Fire” surge como o ponto mais alto, canção com levada safada, dinâmica guitarreira e um trabalho de baixo/bateria muito sólido e que não deixa espaços. No meio do caminho, “Money Shot”, um rockão clássico da estirpe da banda, surge com diálogo efusivo de guitarras e um clima que lembra o clássico “Highway To Hell”

 

“Power Up” é digno de representar uma instituição como o AC/DC neste improvável 2020. Se precisamos de algo que nos dê a impressão de continuidade e relativa normalidade, um bom disco dos australianos é uma ótima pedida.

 

Ouça primeiro: “Demon Fire”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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