U2: 13 músicas (+ 1 bônus)

 

Amanhã o U2 relança seu belo disco de 2000, “All That You Can’t Leave Behind”. Faremos um texto bacana a respeito, muito porque ele foi vendido na época como um “álbum de retorno” do grupo irlandês às suas “origens rock” após uma década de siricotico e saracoteio nas searas coloridas e eletrizantes da música eletrônica. A verdade é que o U2 conseguiu ser fluente tanto nestas obras mais próximas da música sintética quanto nos trabalhos em que estava mais próximo ao rock, especialmente no início de sua carreira. Se pensarmos no ano 2000 como o marco em que a banda retoma um curso após um “desvio”, também podemos pensar no período subsequente como o menos inspirado de Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr.

 

Ainda que os últimos vinte anos do U2 não sejam exatamente os seus melhores em termos de álbuns e canções, a carreira da banda tem um número imenso de belas gravações a oferecer e, como de costume, não foi nada fácil escolher treze faixas em meio a tantos acertos. Deixamos de lado alguns cavalos de batalha clássicos, outras preferidas dos fãs e procuramos priorizar a intensidade/importância das músicas selecionadas. Claro, há muito de memória afetiva e investigação pessoal deste que vos escreve, que cobre desde os primeiríssimos anos de contato com a música dos sujeitos até esta véspera de lançamento de uma versão múltipla deste trabalho de 2000.

 

Vamos então ao resultado desta seleção, que, ora bolas, tem uma faixa bônus que não poderia ficar de fora.

 

 

13 – Bullet The Blue Sky – canção presente em “The Joshua Tree”, um disco que hoje me soa terrivelmente datado a ponto de não ouvi-lo mais. Muitas de suas faixas são clássicos da carreira do grupo, mas ficaram encapsuladas nesta segunda metade de década de 1980. “Bullet” é a exceção, uma narrativa forte, com instrumental seguro.

 

 

12 – Until The End Of The World – uma das várias canções inesquecíveis de “Achtung Baby”, o disco que trouxe a versão mais instigante do U2 até hoje. Eletrônico, roqueiro, irreverente e terrivelmente moderno, o álbum é um clássico. Este é só um dos momentos brilhantes, uma pessoa que age sem rede de segurança sob si, em meio ao mundo que muda muito rápido.

 

 

11 – Mysterious Ways – outro clássico de “Achtung Baby”, marcado pela batida eletrônica, pelas guitarras gorduchas de The Edge e pela narrativa que parece ter algo de oriental na estética. Era o U2 do novo mundo, mais moderno e irresistível do que qualquer outro já visto. Uma maravilha atemporal.

 

 

10 – All I Want Is You – uma das muitas baladas lindas e sofridas que o U2 já gravou, esta é faixa presente em “Rattle And Hum”, de 1988, álbum meio ao vivo, meio em estúdio, que o grupo lançou sob a influência da América mitológica. É linda, arrepiante e uma das mais belas gravações da carreira de Bono e sua turma.

 

 

 

9 – Two Heartbeats As One – lindeza dos primeiros tempos da banda, presente em “War”, o terceiro disco, de 1983. Uma pequena maravilha de guitarras e linhas de baixo, que mostravam o quanto o U2 estava bem posicionado na tal estética pós-punk. Um refrão matador, a solenidade, a vontade de explodir tudo em nome do amor. Perfeito.

 

 

8 – Lemon – a meu ver, este é o ápice do U2 moderníssimo. Uma batida dançante, loopings de teclados, voz em falsete e um arranjo de cordas que vai crescendo aos poucos, ocupando espaços e confundindo tudo. É o U2 liderado por McPhisto, não por Bono. Nunca mais eles foram tão modernos e instigantes.

 

 

7 – Try To Throw Her Arms Around The World – mais um pouco de “Achtung Baby”, uma não-balada, aparentemente fácil e simples, esta canção é um dos maiores acertos de todos os 40 anos de carreira do U2. O instrumental é hipnótico e a letra fala da impossibilidade de dar conta de tudo.

 

 

6 – The Fly – a obra-prima de “Achtung Baby”, uma coisa revolucionária, especialmente para quem havia aprendido a cantar as faixas de “Joshua Tree” nos estádios do mundo. Vários comichões de guitarras de The Edge, vocais estranhíssimos, refrão glorioso e uma certeza: o mundo, como o conhecíamos, acabou.

 

 

 

5 – Beautiful Day – a estrela máxima de “All That You Can’t Leave Behind”. Ainda que ela seja uma canção que abre o disco “de retorno”, há bastante ar no arranjo e no instrumental, além de uma belíssima melodia. O clipe, filmado no Aeroporo Charles DeGaulle, em Paris, é antológico.

 

 

4 – The Refugee – memórias do meu colégio, minha canção preferida de “War” e uma das gravações mais esquisitas do U2. Tem guitarras dissonantes, batida dançante, orientalismo en passant, percussão enlouquecida e mais uma letra política a cargo de Bono. Um “deep cut” como diriam os colecionadores blasé.

 

 

3 – Stay (Faraway So Close) – esta canção é totalmente irresistível e marca a melancolia inevitável de seu tempo. Mesmo que “Zooropa”, de 1993, seja um disco na esteira da anarquia eletrônica de “Achtung Baby”, ele traz lampejos de cinza aqui e ali. “Stay” é o maior exemplo, uma narrativa de amor desesperada diante da globalização como farsa. Alô, Milton Santos!

 

 

2 – 11 O’Clock Tick Tock – esta é minha canção preferida da primeira fase da carreira do grupo. Foi lançada como compacto em meio aos primeiros meses após o lançamento de “Boy”, primeiro álbum do U2. Foi sua versão ao vivo, presente em “Under a Blood Red Sky”, de 1983, que ganhou meu coração para sempre. Um clássico atemporal e indiscutível.

 

 

1 – Bad – minha preferida pessoal é esta lindeza dolorida, presente no ótimo “The Unforgetable Fire”, de 1984, o álbum que trouxe o U2 para a primeira divisão do rock mundial. Sua narrativa dolorida, sua letra de amor impossível, a impressionante presença da guitarra de The Edge, além da produção de Brian Eno, tornam “Bad” uma das coisas mais lindas deste mundo.

 

 

 

Bônus – Night And Day – a participação do U2 no tributo “Red, Hot And Blue”, lançado em 1990, homenageando Cole Porter e revertendo o lucro obtido com o álbum para a luta contra a AIDS. É a maior cover que a banda já registrou – dentre muitas – e o marco zero de sua versão eletrônica, que tomaria conta a partir de “Achtung Baby”, que viria no ano seguinte. Um marco que não envelheceu um dia sequer.

+2

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

2 thoughts on “U2: 13 músicas (+ 1 bônus)

  • 2 de novembro de 2020 em 03:03
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    Tem razão, é uma belezura, mas o “Joshua” envelheceu mal….

    0
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  • 1 de novembro de 2020 em 12:18
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    Para mim, é simplesmente impossível. Mas é imprescindível: Wire do Unforgettable…, que ouvi pela primeira vez num episódio de Miami Vice. Até hoje acho incrível!

    +1
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