Trinta Anos de “Sonic Temple”

 

Foi em 1989 que o grupo inglês The Cult confirmou uma tendência que se anunciara dois anos antes, quando lançou seu álbum “Electric”: um flerte firme e forte com o hard rock mais clássico dos anos 1970. “Sonic Temple” foi o álbum que se incumbiu de mostrar que o quarteto trocara de mão na malha rodoviária do rock. Deixava de lado as origens alternativas e que flertavam com a psicodelia sessentista de lado e entrava naquela onda hard do fim da década de 1980, que tinha no retorno do Aerosmith e no surgimento do Guns’n’Roses os maiores indícios de que viera para ficar.

 

O Cult, que começara como Southern Death Cult, no início dos anos 1980, tinha no vocalista Ian Astbury, no baterista Matt Sorum e no guitarrista Billy Duffy a sua linha de frente. Eram/são, caras muito competentes no que faziam à época. Quando a banda estourou – em 1985 – com o hit “She Sells Sanctuary”, do álbum “Love’, foi a performance vocal de Astbury que chamou a atenção. Era uma mistura improvável de Robert Plant com Jim Morrison que surgia diante dos olhos dos fãs de rock mais clássico, meio órfãos naquela década. E Duffy vinha com habilidade suficiente para criar riffs legais e bolar estruturas de guitarra base capazes de conferir distinção clássica já às composições iniciais da banda. Àquela altura, outra canção de “Love” havia estourado nas rádios: “Rain”, que mergulhava ainda mais fundo na psicodelia.

 

A surpresa dos fãs foi total quando o Cult voltou às paradas em 1987 com “Electric”, trazendo uma de suas maiores criações: “Love Removal Machine”, que parecia saída do repertório do AC/DC ou do Steppenwolf, se isso fosse possível. O riff que Duffy engendrara para a canção era tão grudento quanto chiclete americano sem açúcar e contribuiu decisivamente para a transição estética que a banda empreenderia simultaneamente. Não por acaso, uma cover de “Born To Be Wild” fechava o álbum, mostrando que, sim, muito havia mudado. Na verdade, “Wild Flower”, faixa de abertura do disco, já exibia essa arquitetura de riffs básicos em contraste com uma cozinha eficiente e direta, totalmente tributária do hard rock motoqueiro setentista.

 

Quando chegou a vez de “Sonic Temple”. dois anos depois, o Cult já tinha em mente que poderia ser uma espécie de Led Zeppelin Jr. Sairam de cena esses riffs básicos e curtos e vieram climas e camadas de guitarras, que geravam tensão e visavam reproduzir o auge zeppeliniano de 1971-75. Tudo seguia bem feito e legal, com uma leva especialmente inspirada de novas composições. “Sun King”, a faixa de abertura, já mostrava as credenciais vigentes da banda, com configuração montada para ganhar o coração dos fãs de imediato. Outras faixas como ‘Fire Woman”, “American Horse” e “Sweet Soul Sister” enfatizavam a diversidade de possibilidades que a banda podia abraçar, carimbando sua identidade dentro deste estilo mais pesado, mas não abrindo mão de uma certa moldura psicodélica onipresente. Talvez a canção que mais mostre estas nuances convivendo juntas seja a baladaça “Edie (Ciao Baby)”, com arranjo de cordas e refrão matador.

 

Além dessa opção pelo cânon do hard rock e pela caixinha do Led Zeppelin, o Cult abraçava também uma certa mitologia nativa-americana, com imagens de índios, totens, mostrando uma disposição para ser um misto de Dança Com Lobos e Robert Plant, se é que isso é possível. Foi algo similar – guardadas as proporções – ao que o U2 fez com “The Joshua Tree” e “Rattle And Hum”. O fato é que “Sonic Temple” – e seu sucessor, “Ceremony”, de 1991, são dois álbuns que abraçam este kit de identidade sonora e estética com afinco. Os fãs se esbaldaram e consideram o disco como um ponto altíssimo da carreira do grupo.

 

Não por acaso, comemorando os 30 anos de seu lançamento, The Cult estará na estrada tocando as canções mais importantes do disco e lançando versões anabolizadas, com destaque para uma caixona quíntupla, que vai mostrar todas as sessões de gravação, lados-B e tudo mais. Quem já estava ligado em música na época sabe que “Sonic Temple” é um trabalho muito querido dos fãs de rock mais clássico, talvez tão importante para eles como é “Apetite For Destruction”, do Guns’n’Roses. Não por acaso, Matt Sorum deixaria as baquetas do Cult e iria para o … Guns.

 

“Sonic Temple” é legal, mas, pessoalmente, prefiro “Electric”.

 

 

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

One thought on “Trinta Anos de “Sonic Temple”

  • 2 de setembro de 2019 em 23:06
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    Acho que é o primeiro texto que leio neste querido site sobre rock pesado. Que venham muitos.

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