“Torto Arado” e a verdadeira cor do Brasil

 

 

Comecei a seguir no Facebook o autor e geógrafo Itamar Vieira Júnior bem antes de ler seu livro “Torto Arado”. O enriquecimento que a gente sente com suas posições políticas firmes e coerentes valoriza cada página do seu romance,vencedor do prêmio Leya de literatura portuguesa em 2018.

 

Itamar criou a história de Bibiana e Belonisia, duas irmãs que vivem com a família na fazenda Água Negra, nos rincões da Chapada Diamantina. Vamos com elas desde o acidente da infância durante uma brincadeira com a faca da avó que decepa a língua de uma das meninas e a deixa muda, unindo as duas meninas de um jeito particular e forte até a vida adulta, com seus filhos, netos, retornos e despedidas.

 

A boa construção da escrita se mostra no início do livro já que o autor só revela a vítima do acidente quase na metade da narrativa, dividida entre as irmãs e uma das entidades espirituais do jare,a religião de matriz africana que existe nas cidades do Parque Nacional da Chapada, exercida por Zeca Chapéu Grande,pai das irmãs e mentor espiritual da comunidade de Água Negra, um lugar onde trabalham sem direito a dinheiro, por uma moradia de barro ( casas de tijolos são proibidas) e uma parte do que conseguem cultivar. “Torto Arado” tem a magia das grandes obras regionalistas: é uma história muito brasileira, de descendentes de escravos que não conhecem o próprio direito à liberdade e uma vida digna, engrenagens que são de uma sociedade escravista e patriarcal.

Ao dar voz para as duas protagonistas femininas Itamar ouviu as pessoas do sertão,suas raízes familiares, a dedicação das mulheres que ” parem ” a terra ( como diz a mãe de Bibiana e Belonisia ao enfrentar a nova dona da fazenda e sua tentativa de evangelização do seu povo), o ativismo na busca por condições melhores de vida, pelo qual tanta gente tem sido morta impunemente, a violência doméstica e os lares cuidados por mulheres.

 

É difícil sairmos os mesmos da leitura de “Torto Arado”.

 

A trajetória de Bibiana,Belonisia e sua família é a cor, a luta de um Brasil tantas vezes invisível que Itamar enxergou e estudou com a delicadeza e grandeza dos grandes autores. A nós, que fique o aprendizado,o respeito,o senso crítico e a empatia.

 

Nosso país nunca precisou tanto.

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Debora Consíglio

Beatlemaniaca, viciada em canetas Stabillo e post-it é professora pra viver e escreve pra não enlouquecer. Desde pequena movida a livros,filmes e música,devota fiel da palavras. Se antes tinha vergonha das próprias ideias hoje não se limita,se espalha, se expressa.

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