Chega de Red Hot Chili Peppers

 

Ainda acho valor neste tipo de texto, sabem? Porque ainda acredito que é possível alguém ler um artigo, uma resenha num veículo de comunicação e, a partir deste ato, ter sua curiosidade despertada e, num efeito cascata do bem, conhecer novas bandas, artistas e músicas. Porque, sério, gente, não dá mais pra aguentar gente dizendo que Red Hot Chili Peppers é uma banda sensacional e que mereça estar presente em todos os Rock In Rios possíveis. Agora, pensando bem, se pensarmos também que Capital Inicial, Ivete Sangalo, Jota Quest e quejandos também são frequentadores assíduos, tal arroubo de opinião acaba, digamos, alvo de um considerável jato d’água.

 

Porque isso passa por uma visão romântica de que um festival de música deve ser apenas artísticos. E, oras, não é. Talvez apenas o primeiro Rock In Rio, no distante planeta Terra de 1985, tenha sido assim. E olha que a aposta na nascente cena roqueira carioca da época foi arriscada, levando-se em conta que algumas bandas ali ainda não estavam estabelecidas ou só tinham repertório de um ou dois discos para apresentar. Fora o bairrismo de chamar apenas artistas jovens cariocas – e olha que eu mesmo sou carioca, exilado em Niterói. Mas essa não é a conversa: com o tempo, Rock In Rio – e a maioria dos poucos eventos do tipo no Brasil – dá um “all in” no lucro e na mídia. E nada mais. Cada um no seu tamanho, cada qual no seu nicho, é isso que acontece. Estamos em 2019, lembram? Mesmo assim, há alguma teimosia em questionar escolhas tão óbvias.

 

Pergunto eu: por quê de novo o Red Hot? Os caras vieram seis vezes ao evento. SEIS. Sintam o drama o texto que os apresenta na página do festival:

“Pela sexta vez, Red Hot Chili Peppers estará no Rock in Rio, no dia 3 de outubro. Com seu som cheio de atitude e ampla diversidade musical, a banda americana, que tem presença de palco e energia inigualáveis, promete ser mais uma vez surpreendente. A mistura de punk, funk e letras intensas fez com que o grupo alcançasse o sucesso absoluto atual. Clássicos como “Under the Bridge” e “Californication” marcaram gerações, e certamente farão desta noite do festival uma data surpreendente na nova Cidade do Rock.”

 

Letras intensas? Energia inigualável? Logo o RHCP, conhecido, famoso e notório por perder todo o gás em shows? “Marcaram gerações?”. “Californication” é de 1999, tem 20 anos. Quantas gerações vieram de lá pra cá? Enfim, existe uma boa vontade enorme com a banda, por um passado que teve seus momentos, mas que está, há muito, perdido. Eu confesso que até gostei da apresentação da banda no último Rock In Rio, especialmente porque ela teve a coragem de apresentar algumas canções do seu ótimo disco mais recente, “The Getaway”, quando, depois de um tempo imenso, apresentaram alguma inovação sonora, incorporando alguns tiques e taques eletrônicos e linhas melódicas mais interessantes que o surrado funk’n’rock diluído numa piscina olímpica.

 

Não que a produção mais recente do grupo seja ruim, ela é apenas insípida e sem graça. O próprio “Californication”, de 20 anos atrás, era uma guinada estética no som do grupo, visando um abraço mais apertado e generoso na faceta mais pop da banda. Deixaram de lado as matrizes de “Give It Away” ou da cover de “Higher Ground” e abraçaram o modelo “Under The Bridge”, perdendo no caminho a beleza de canções mais fortes como “Breaking The Girl”. E foram em frente. Antes, porém, tentaram algo diferente no subestimadíssimo álbum “One Hot Minute”, no qual gravaram minha preferida de toda a carreira dos sujeitos, “Aeroplane”, em favor de um capitalinicalismo sem sentido, que os perpetuou na mente gelatinosa do ouvinte médio, abrindo mão de fazer algo que importa, sendo lembrada apenas pelo que toca nas rádios rock.

 

Por essas e outras, gente como o Sérgio Moro deve curtir o Red Hot e achar que eles fazem um rock indubitável, acima de qualquer suspeita, acima de críticas e ao qual se deve pedir a bença. Não. O quarteto não tem culpa disso, óbvio. Fazem o que podem fazer, o que dá. Se tocaram mais canções do último disco, já será acima do mediano. Se escaparem do cansaço habitual, já será interessante. De resto, por favor, da próxima vez, se é pra chamar alguma banda com audiência cativa, cheia de hits e capaz de dar um bom show, tentem o Green Day, só pra variar. As trajetórias são similares, ainda que o trio de Billie Joe Armstrong seja mais jovem.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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