Stone Temple Pilots – Perdida

 

 

 

Gênero: Rock alternativo
Duração: 45 minutos
Faixas: 10
Produção: Dean DeLeo, Robert DeLeo
Gravadora: Rhino

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

A última coisa que poderíamos esperar deste 2020 é um disco relevante do Stone Temple Pilots, uma boa banda, mas não exatamente conhecida por sua ousadia/originalidade. Pois “Perdida” é uma lindeza, um movimento iluminado em meio à carreira do grupo, que já dura 28 anos, cuja maior parte teve Scott Weiland à frente dos vocais. Aliás, o STP sempre foi a banda de Dean DeLeo e de Scott, que eram o par criativo da galera, responsáveis por vocais e influências arejadas, bem como por um excelente trabalho de guitarras e violões. Desde o início – com o sucesso “Plush” – passando por álbuns como “Tiny Music” (1996) e chegando ao último trabalho com Weiland, o disco homônimo de 2010 – um dos melhores do grupo em todos os tempos – o STP precisou se reinventar após a morte de Scott em 2015.

 

Eles lançaram um álbum em 2018, após contarem com Chester Bennington nos vocais, com o ex-X Factor Jeff Gutt, que ninguém ouviu. Agora, com “Perdida”, mantendo Gutt, os irmãos DeLeo e o baterista Eric Kretz encontram um lugar confortável num trabalho que é quase todo acústico e contemplativo. O título já entrega que o disco é semi-conceitual, tendo a própria perda e a consequente adaptação como tema, levando a ideia até lugares em que arranjos com violões, violinos, teclados, pianos, sopros, flautas, ou seja, toda uma riqueza instrumental vem dar forma às composições de Dean DeLeo, que está em ótima forma na guitarra. Gutt tem o registro de voz muito parecido com certos momentos de Weiland e os rumos que as composições tomam são híbridos de folk e blues, misturados com um hard rock desplugado dos anos 1970, perto do que faziam bandas como Eagles e similares. Chega a ser surpreendente.

 

Em toda a sua trajetória, o STP tem momentos em que se mostrou um ótimo emulador, mas o fez sempre com dignidade, escapando da pecha de uma banda de “covers originais”. A habilidade de DeLeo fica marcante ao longo das dez faixas de “Perdida”. A abertura com “Fare Thee Well”, uma balada que pende para o country – de um jeito que Bon Jovi, por exemplo, jamais conseguirá gravar – já mostra as credenciais do disco. Ela lembra demais uma faixa lindíssima do álbum de 2010, “Maver”, mas sem a exuberância guitarrística. A faixa-título tem floreios flamencos ao violão, de um jeito elegantíssimo, discreto e que lembra bastante algo do acústico dos Eagles, o “Hell Freezes Over”.

 

“Years” é uma das mais belas canções do álbum, um baladão psicodélico com bela intervenção de flautas e cheio de timbres lindos ao piano, coisa de FM americana na noite, em meio a uma viagem rumo a alguma cidade do interior em busca de perdão e redenção. E a faixa de encerramento, “Sunburst”, mostra uma banda extremamente madura e dona de seu jogo, capaz de misturar o espírito do rock alternativo dos anos 1990, seu nascedouro, com influências setentistas sem constrangimento, se saindo com um baladão psicodélico de fazer inveja a contemporâneos como Pearl Jam, por exemplo, chegando perto do que fariam bandas cascudas como Moody Blues ou os já citados Eagles.

 

“Perdida” é surpreendente sem recorrer a truques e invencionismos. É confessional sem ser piegas, rico instrumentalmente sem soar datado. É uma lindeza de trabalho.

Ouça primeiro: “Years”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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