HELP – This is Serbia Calling

 

Em algum ponto entre o fim de 1995 e o início de 1996, eu entrei na velha e gloriosa Spider Discos, que ficava numa galeria em Ipanema. Conhecera a loja por conta de indicação do meu amigo-irmão-padrinho Leonardo Salomão. Desde a primeira vez que adentrei os restritos domínios da lojinha, nunca mais deixei de frequentá-la. Fazia isso aos sábados, quando tinha tempo. Às vezes fazia um roteiro, começando por Modern Sound e a filial das Lojas Americanas, em Copacabana. Dali, pegava um circular até Ipanema, descia na Prudente de Moraes e ia até a Spider, que ficava na paralela, Visconde de Pirajá, perto da esquina com a Farme de Amoedo. Depois, se houvesse disposição, pegava outro ônibus e ia até a Gávea, onde ficava uma boa filial da Gramophone, no Shopping da Gávea e a Tracks, ao lado do Garota da Gávea. Dessas, apenas a última resiste firmemente ao passar inexorável do tempo. Um dia prometo fazer um texto descrevendo este roteiro de compras de CD, mas a ideia aqui é falar de um disco que comprei na saudosa lojinha de Ipanema.

 

Voltando: em algum ponto desta virada de 1995 pra 1996, a Spider – que era sempre novidadeira e tinha raríssima simultaneidade em relação ao que vinha de fora – havia recebido um disco chamado “HELP – A Charity Project For The Children Of Bosnia”, chancelado por uma tal de War Child Foundation. Era uma compilação com artistas britânicos e as participações de Oasis, Paul McCartney, Paul Weller e um monte de gente legal me fizeram considerar a aquisição seriamente. Pedi para que o dono da Spider, Wolmar, colocasse o disco – era uma dessas lojas em que isso era possível – e todo mundo que estava presente ouvia. Logo veio “Fade Away” com os irmãos Gallagher, mais Johnny Depp. Depois ele pulou para uma cover adorável de “Raindrops Keep Fallin’ On My Head”, com Manic Street Preachers, daí veio uma inédita do Terrorvision – grupo sensacional que sumiu – chamada “Tom Petty Love Veruca Salt”. Àquela altura eu já queria comprar uns cinco exemplares disco, um pra mim e outro pros meus melhores amigos e namorada. Levei o álbum pra casa e afundei nele. Depois de algum tempo, ele cedeu a versão incendiária de “The Magnificent” para a abertura do programa que eu e Leonardo fazíamos na Rádio Kuarup FM, “Os Argonautas”. Depois de muito tempo, soube que a tal One World Orchestra, que assina a faixa, era, na verdade, o KLF, duo inglês de música eletrônica e ativismos político e que havia um sample da narração de um tal DJ Fleka, da rádio pirata sérvia B92.

 

 

O que nos leva à causa da existência de HELP, a Guerra na Bósnia. Foi o mais sangrento conflito em território europeu desde a … Segunda Guerra Mundial. Pense bem, isso não é pouco. Milhões morreram no território que compreendia a antiga Iugoslávia, formada então por Sérvia, Montenegro, Bósnia e Herzegovina, Croácia, Macedônia, Eslovênia e uma região autônoma com maioria étnica albanesa, o Kosovo. Com o fim do governo unificado, as diferenças étnicas afloraram, bem como as religiosas, uma vez que havia maiorias católicas na Croácia e muçulmanas na Sérvia. Além disso, a economia da Europa Oriental emergiu como uma presa fácil para o neoliberalismo vigente, o que fez com que estes países se tornassem imediatamente subservientes à lógica que vinha do Ocidente, com Alemanha e Estados Unidos à frente. Logo um conflito de larga escala tomou conta da região e a cidade de Sarajevo, capital da Bósnia, se tornou uma espécie de símbolo da guerra, bombardeada que foi por tropas sérvias e croatas, que reclamavam a influência sobre a região. Ações particularmente cruéis foram empreendidas no Kosovo, com massacres de grandes contingentes populacionais.

 

Qualquer pessoa sabe que, quando há um conflito em que questões étnicas, religiosas e econômicas surgem como causas, os Estados Unidos acenam com a possibilidade de intervenção, com a ideia de “levar a democracia” à região deflagrada. O problema é que, na Península Balcânica, onde o conflito teve lugar, não havia o componente econômico da equação, não, pelo menos, como nas regiões do Oriente Médio, onde conflitos semelhantes estouram todos os dias. Daí, enquanto os dois lados se matavam no campo de batalha, a OTAN demorou a agir e, quando o fez, arrasou a região. Tudo isso aconteceu diante dos olhos do mundo, devidamente distraídos pela MTV, pela Copa de 1994, pela emergente globalização.

 

O conflito não passou batido por alguns artistas e ativistas. Em 1993 foi fundada no Reino Unido a tal War Child, uma organização não-governamental com o objetivo de disponibilizar assistência para crianças em regiões conflagradas. Seus fundadores, os cineastas/documentaristas Bill Leeson e David Wilson, foram até Sarajevo algumas vezes levando comida, assistência médica e equipamentos em comboios de ajuda. A ação deles chamou a atenção da mídia e logo vários artistas começaram a se mobilizar de diferentes formas. O U2, junto com o produtor Brian Eno, montou o Passengers, uma espécie de projeto paralelo, que gravou um disco experimental, mas com um single matador: “Miss Sarejevo”, que entrou para as listas e canções mais executadas no mundo. O tenor italiano Luciano Pavarotti também gravou uma versão da música, com participação de The Edge, Bono e do próprio Eno. Logo veio a ideia para gravar um disco para arrecadar fundos para a fundação e este trabalho pioneiro foi “HELP”.

 

O disco tem vinte faixas, todas gravadas num espaço de 18 horas, num único dia, 04 de setembro de 1995. No dia seguinte, terça-feira, 05, ele foi totalmente mixado a tempo de estar nas lojas no sábado, dia 09 de setembro. O desempenho nas paradas foi ótimo, chegando ao primeiro lugar na lista de compilações. Se ele fosse aceito como um disco de um único artista, algo que foi negado pelos organizadores das paradas de sucesso inglesas, teria chegado ao primeiro posto. Se isso acontecesse, o lucro arrecadado seria muito maior que o impressionante 1,25 milhão de libras.

 

Pouca gente lembra desta ação dos artistas britânicos. Teve pouco alade na época, mesmo que gente graúda como Paul McCartney tenha topado participar. O supergrupo Mojo Filters foi fundado para a ocasião, composto por Macca, Paul Weller, Noel Gallagher, além de Steve Cradock, Steve White e Carlene Andersons – estes três últimos, integrantes da banda de apoio de Weller. Eles gravaram uma versão simpática de “Come Together”, sucesso de 1969 dos Beatles. A lista de canções ainda incluia uma inédita do Radiohead, “Lucky”, que entraria no próximo disco deles, “OK Computer”, além de uma versão de “Shipbuilding”, de Elvis Costello, refeita por Sinead O’Connor. É um disco de caridade com pique e repertório de compilação de sucessos mas que ficou restrito ao nicho “alternativo”, algo que não aconteceu com iniciativas anteriores, como o Band-Aid e o USA For Africa, que deram ensejo à realização do Live Aid, dez anos antes.

 

 

 

Ouça as faixas aqui

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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