Sergio – Veredito

 

 

A vida do diplomata da ONU Sergio Vieira de Mello é um tema muito querido ao diretor americano Greg Barker. Em 2009 ele rodou um documentário intitulado “Sergio” e agora, onze anos depois, outro longa de mesmo nome está em cartaz na Netflix, trazendo Wagner Moura e Ana de Armas nos papéis principais. Ainda que a história de Sergio seja interessante e nos aponte para uma tradição diplomática brasileira quase inacreditável se comparada com os responsáveis pelo ofício nos dias de hoje, o longa tem alguns problemas que comprometem sua estrutura.

 

O roteiro é inspirado no livro “Chasing the Flame: One Man’s Fight to Save the World”, da escritora inglesa Samantha Power, assim como também foi o filme de 2009. Ao contrário da descrição dos fatos com precisão histórica, Barker precisou centrar em alguns episódios, no caso, da questão do Timor Leste e da missão da ONU no Iraque pós-invasão americana de 2003, dando bastante atenção ao romance de Sergio com a argentina Carolina Larriera, interpretada por Ana de Armas. Numa narrativa em flashback, às vezes confusa, a trama mostra o atentado em Bagdá que tirou a vida do diplomata, enquanto tenta percorrer momentos de sua vida, mostrando-o com os filhos, com a mãe e nos primeiros encontros com Carolina.

 

O tom da história mostra Sergio como uma pessoa de mente independente, que tinha noção da diplomacia como uma eficaz ferramenta de diálogo e prevenção de conflitos armados. Sua atuação em relação aos Estados Unidos de W.Bush lhe custaria prestígio e viabilidade política, caso tivesse sobrevivido ao atentado. Neste ponto, a atuação do ótimo Bradley Whitford, como o enviado americano Paul Brenner ao Iraque, mostra como era complicado o diálogo numa terra literalmente arrasada e invadida sob um pretexto que nunca foi justificado. Há uma fala de Carolina em algum desses flashbacks, em que ela diz que Sergio não poderia ir ao Iraque para ajudar os americanos numa guerra que ele considerava ilegal.

 

A atuação de Wagner Moura é apenas razoável e tem problemas. Sua postura física não funciona o tempo todo, suas expressões faciais às vezes são exageradas e há certa canastrice no ar. Ana de Armas, por sua vez, empresta graça e leveza à sua Carolina, mas talvez em excesso, mas não chega a comprometer. As melhores atuações ficam por conta de Whitford – que aparece pouquíssimo e soterrado por toneladas de maquiagem – e o igualmente bom Brian F. O’Byrne, como o colega diplomata Gil Loescher, um personagem que funciona, segundo a explicação do roteiro, como um “apanhado coletivo de vários colegas que interagiram com Sergio em suas missões”. Fazer o quê, né?

 

“Sergio” é cinema simples e sem muitas exigências. Tem no desconhecimento histórico potencial da maioria do público o seu trunfo. Serve como entretenimento para quem não espera ver um filme que vai transformar sua vida. E só.

 

 

Sergio (Estados Unidos, Brasil)
Diretor: Greg Barker
Roteiro: Craig Borten e Samantha Power
Elenco: Wagner Moura, Ana de Armas, Bradley Whitford, Bryan F. O’Byrne.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

2 thoughts on “Sergio – Veredito

  • 2 de maio de 2020 em 02:20
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    Você citou o documentário, CEL – e ao menos para mim é bem curioso o mesmo diretor fazer um documentário e anos depois um longa de ficção sobre o mesmo tema/indivíduo – e o ‘Sérgio’ lá de 2009 é bem melhor que o filme. Será que a inexperiência dele fora do universo de documentários atrapalhou? Eu particularmente achei forçado o enfoque dado ao romance entre os dois protagonistas. Embora seja um elemento presente e relevante dos fatos que envolvem o indivíduo Sérgio, esse romance ficou meio deslocado na película. É aquela coisa.. o filme é sobre o amor dos dois ou sobre a trajetória do diplomata Sérgio? Um diretor/roteirista mais experiente talvez tivesse abordado a relação amorosa dos dois de forma mais sutil. Mas no geral acho o filme aceitável e com um caráter interessante de apresentar a história, mesmo superficial, de um brasileiro mega respeitado nos círculos mais altos da sociedade e da política mundial. Em tempos de desilusão e amargor total com o rumo das coisas no nosso quintal, não deixo de pensar que é um alento ver a representação de um eco de Brasil decente, com valores inspiradores na película.

    Abraço, CEL! Cuide-se bem por aí 🙂

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  • 2 de maio de 2020 em 01:48
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    Achei o documentário de 2009 do mesmo diretor (caso curioso, aliás, um diretor comandando um doc e depois um longa de ficção sob o mesmíssimo tema) bem melhor, em que se pese ser um documentário bem comunzão olhando tecnicamente. CEL, inclusive esse doc está na Netflix também, pode ser até uma sugestão pra galera que ver o filme, penso eu…

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