Ryan Adams – Wednesdays

 

Gênero: Rock alternativo

Duração: 42 min.
Faixas: 11
Produção: Ryan Adams
Gravadora: Pax Am.

3.5 out of 5 stars (3,5 / 5)

 

 

 

 

 

A capacidade de surpreender fãs com discos inesperados já se tornou um movimento, digamos, esperado. Desta vez é Ryan Adams que vem com um novíssimo trabalho, “Wednesdays”, lançado sem qualquer aviso prévio, nos serviços de streaming, com a produção do próprio e a chancela de seu selo, Pax Americana. É o décimo-sétimo álbum que Adams lança e vem com um cenário conturbado como pano de fundo: o cantor e compositor foi acusado por má conduta sexual e comportamento abusivo por sua ex-esposa, Mandy Moore, pela cantora Phoebe Bridgers, entre outras mulheres. Além disso, também enfrentou problemas por ter conduzido uma conversa sexualmente explícita com uma fã menor de idade. Tudo isso, claro, contribui para que ouçamos o álbum com percepções diferentes e peculiares. Ryan isolou-se, desculpou-se, disse que procuraria ajuda profissional e que “faria significantes mudanças em sua vida”. Por mais que tal declaração seja muito insuficiente em relação aos danos potenciais que ele tenha causado às mulheres, a situação não evoluiu para a esfera judicial.

 

A ideia que Ryan tinha era lançar “Wednesdays” como a segunda parte de uma trilogia, que começaria com “Big Colours”, em 2019. Este nem chegou a ser veiculado, o que colocou “Wednesdays”, pelo menos por enquanto, como um álbum solitário e que enfrenta este background pouco amistoso. Quem conhece o trabalho de Ryan Adams sabe que ele é capaz de pequenas mutações sonoras e que isso é um de seus trunfos. Ele pode ser um alt-country boy meio fora de lugar, um cronista do cotidiano da América empobrecida, um fã da vivência monástica em estúdio ou um mini-Neil Young fora de tempo e de espaço. Em “Wednesdays” ele assume esta última postura e se banha nas águas do folk rock do início dos anos 1970, pegando emprestado os invólucros sonoros típicos: pianos, gaitas, violões acústicos, ritmos lentos, vocais torturados, tudo isso sobre alicerces de baixo, bateria e guitarra. E as canções, bem, elas são o reflexo desta rebordosa que Ryan deve estar vivendo.

 

A primeira canção – “I’m Sorry And I Love You” – é o início mais bandeiroso possível, soando como uma confissão de culpa que, por mais que seja bela e lindamente arranjada, parece destinada a ser confundida com a situação vigente. Pena, pois trata-se de uma bela balada neilyoungiana, safra “Harvest”. O tal “pedido de desculpas”, que também pode ser confundido com a proverbial “tomada de ciência da gravidade da situação” é amplificado por “Who Is Going To Love Me If Not You?”, que investe no mesmo parâmetro estético da faixa anterior, aprofundando a sensação de dor e arrependimento, dessa vez num arranjo voz/violão com efeitos de slide guitar aqui e ali. Este clima soturno permanece ao longo das onze faixas, conferindo a tonalidade cinzenta que o disco acaba demandando. As letras falam de memórias, redenção e tempo para refletir, dar um passo atrás e seguir em frente. Figuras como “dormir no sofá”, “sentir saudades”, lembranças, arrependimentos, tudo está presente.

 

Faixas como “Walk In The Dark” e “Poison & Pain” dialogam com esses espectros de perda, mas também atestam a continuidade das coisas, ainda que de uma maneira dolorida e amputada. A faixa-título é outro momento em que Ryan Adams escrutina esses momentos e lembra de paisagens da infância – igrejas cheias de gente, pessoas se encontrando após a missa – em busca de algum abrigo contra a tristeza. “Birmingham” é o momento mais leve do álbum, em que uma melodia em tom maior é conduzida por pianos, guitarras, baixo e bateria, numa levada enxuta e levemente gospel. É a grande exceção de “Wednesdays”, ainda que o clima tenda a melhorar um pouco no fim do álbum, especialmente a partir de “So, Anyway”, que tem verve dylanesca de voz, violão e gaita. “Mamma” também vai neste caminho, mas exibe uma melodia realmente bela e sentimental. “Lost In Time” e “Dreaming Youy Backwards” são outros exemplos de exorcismo de dor e arrependimento, encerrando o álbum. Esta última é outro momento alto do disco, com melodia, arranjo e execução maravilhosos.

 

“Wednesdays” é seco, triste, cinza e parece sincero. É um compêndio de canções que dialogam com a realidade e mostram um Ryan Adams maduro, não só na composição e execução de suas criações mas, torcemos todos, na vida. Isso, claro, não apaga qualquer dano que tenha causado.

 

Ouça primeiro: “Birmingham” e Dreaming Youy Backwards”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *