Black Mirror – 5ª Temporada – Veredito

 

Vivemos num tempo em que três episódios de uma série são considerados “temporada”. Pois esta foi a cota de novidades que a prestigiada Black Mirror entregou neste ano de 2019 e nada mais. Ainda que as produções tenham capricho de filme, não dá pra se satisfazer com tão pouco. Sabemos que Black Mirror nunca foi uma série prolífica, suas “temporadas” são sempre curtas, mas, enfim, a saudade aperta de ano pra ano.

 

É verdade que a ideia de Charles Brooker, autor e roteirista de Black Mirror, tornou-se pop com o tempo. As sombrias histórias sobre a presença da tecnologia na vida das pessoas – hoje e num futuro próximo – são o pano de fundo para questionamentos que passam longe da ideia convencional de “tempo futuro”. São dilemas que já chegaram, que existem hoje e sempre colocam em xeque a índole, o caráter e a moral dos personagens. Claro, Brooker e sua galera estão contestando nosso kit identitário de hoje, ou, como diria Bauman, a nossa variedade de kits identitários, os quais usamos para vários momentos da nossa vida atribulada.

 

Mesmo que haja alguma diluição na ideia de Black Mirror, especialmente quando a série passou a ser produzida pela Neflix, não dá pra falar em queda de nível. O que houve é uma facilitação na abordagem dos temas, talvez uma tentativa de buscar mais espaço para falar dos dilemas cotidianos que já chegaram. E não dá pra reclamar desta diversidade, visto que o provável melhor episódio de todos os tempos da série é uma história de amor LGBTQ que atravessa a mortalidade, tema principal do adorável “San Junipero”, presente na terceira temporada.

 

Esta safra 2019 traz apenas “Striking Vipers”, “Smithereens” e “Rachel, Jack and Ashley Too”. Cada um honra a herança questionadora da série, se valendo de recursos interessantes para falar de temas como homossexualidade, fidelidade conjugal, amizade, perda, acaso, sucesso, opressão e redenção. Convenhamos, lidamos com isso todos os dias e vemos gente nos dizendo o tempo todo que caminho seguir. Este conjunto de três histórias tem pontos interessantes. Vou procurar não dar spoilers.

 

“Striking Vipers” tem grande parte de suas tomadas exteriores rodadas em São Paulo. O contraste entre o Centro da Cidade e o clima de avanço tecnológico é interessante e confere um tom inquietante à história que tem Anthony Mackie como protagonista. Aqui o assunto reside na volatilidade das relações humanas, simbolizado pelo jogo que dá nome ao episódio, cuja versão mais atual tem o recurso de realidade virtual. Nele, dois amigos jogam e descobrem uma nova dimensão em sua relação, materializada pelo uso dos personagens do jogo, um deles vivido pela adorável Pom Klementieff. Claro que a coisa ruma para um desfecho caótico e paro por aqui nos comentários.

 

Black Mirror nunca chegou próximo de temas como a religião, por exemplo, mas, talvez tenha dado um passo interessante com “Smithereens”, o segundo episódio. Aqui, um motorista de aplicativo faz ponto em frente ao prédio de um gigante da informática, responsável por um aplicativo de uso global, muito próximo das redes sociais que temos hoje. A ideia dele, que vive tentando fazer meditação em seu carro, é conseguir falar com o dono do tal aplicativo Smithereen, que assume uma posição muito próxima de uma divindade, a partir do revestimento que o roteiro confere. É um dos momentos de maior suspense da série e a trilha sonora de Ryuichi Sakamoto dá um tom especialíssimo à narrativa.

 

A última história é uma adorável homenagem aos filmes adolescentes dos anos 1980. Com Miley Cyrus no papel de uma estrela musical chamada Ashley O, que está lançando uma boneca, chamada Aslhey Too. A trama mostra a rotina da cantora em meio às cobranças impostas pelo showbusiness enquanto aborda a vida de duas irmãs adolescentes, Rachel e Jack. A primeira é fã ardorosa de Ashley O e pede uma boneca de presente. A partir daí, as histórias vão se entrelaçando até o desfecho totalmente de acordo com o cânon dos filmes oitentistas, com pitada de autobiografia, no caso, de Cyrus.

 

Alguns poderão dizer que Black Mirror perdeu a mão ou que a série já não entrega os momentos de suspense e surpresa das temporadas anteriores. Eu discordo: Black Mirror ainda é grande entretenimento e faz bonito em meio ao que existe por aí no setor. E mais: nenhuma série questiona tão bem os tiques e taques cotidianos que temos e escondemos em algum canto escuro da alma.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Um comentário em “Black Mirror – 5ª Temporada – Veredito

  • 11 de junho de 2019 em 19:00
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    Não poderia discordar mais. O nível despencou sim, pois a própria série estabeleceu um padrão de qualidade improvável, considerando sua longevidade e a regularidade das entregas. O que se viu nessa lamentável temporada foi um conjunto de obviedades, ~criticas~ rasteirissimas e roteiros monótonos, beirando o previsível. Saem de cena a sutileza, o sugestivo e o sombrio que tornavam a série ponto fora da curva no mar de irrelevâncias do catálogo Netflix, para dar lugar a momentos constrangedores como a parte final do terceiro episódio da temporada, com ares de sessão da tarde. Pífio.

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