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Pélico lança belo álbum em parceria com Ronaldo Bastos

 

 

 

 

Pélico – A Universa Me Sorriu – Minhas Canções com Ronaldo Bastos
30′, 10 faixas
(YB Music)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

A música brasileira, vez ou outra, junta pessoas que a gente nem sabia que precisavam se encontrar. Desta vez, quis o destino que estivessem, de um lado, Pélico, o cantor e compositor paulistano que não tem medo de mergulhar de cabeça nas entranhas do pop, da MPB e do rock com sua voz visceral e letras confessionais. Do outro, ninguém menos que Ronaldo Bastos, uma lenda viva, autor de clássicos atemporais, um sujeito que sabe destrinchar a alma humana em imagens poéticas com uma sofisticação que poucos conseguem. O resultado dessa união improvável mas feliz, muito feliz, é “A Universa Me Sorriu – Minhas Canções Com Ronaldo Bastos”, um dos projetos mais relevantes deste ano até agora.

 

Não é todo dia que um letrista do naipe do Ronaldo Bastos — peça-chave do Clube da Esquina, autor das letras de standards nacionais atemporais como “Um Certo Alguém” (com Lulu Santos),”Nada Será Como Antes” (com Milton Nascimento) e “Todo Azul do Mar” (com 14 Bis) — resolve deixar a discrição de lado e compor um disco inteiro em parceria, e ainda mais “olho no olho” com o parceiro. Esse detalhe de bastidor já diz muito sobre a força e a sinceridade deste álbum. Pélico é conhecido por mergulhar no próprio umbigo — no bom sentido, claro — com canções centradas em desamores e afetos de forma direta e sem filtros. Aqui, no entanto, ele é convidado a respirar um novo ar, mergulhando no território criativo e imagético trazido por Bastos. O que vemos é uma lírica que se equilibra entre o lúdico e o íntimo, fugindo um pouco da introspecção pesada para abraçar um clima mais solar, mais de “sorte e benção” — um sentimento bem traduzido pelo título, que o cantor usa como uma homenagem à força criadora e materna.

 

A palavra “Universa”, no feminino, não está ali por acaso. É o conceito que Pélico usa para evocar essa energia, o sagrado e o feminino em canções como “Louva-a-Deus”, a própria faixa-título e a sensível “Sua Mãe Tinha Razão”. Nesta última, Bastos e Pélico, junto com Leo Pereda, criam um hit de sotaque brasileiro que ressalta a pegada mais otimista do projeto. Pélico, que em outros momentos canta sobre o temor de se abrir para o amor (“Luz da manhã”), aqui parece se expor mais, se entregar mais à relação, como se a palavra do mestre o tivesse libertado de uma amarra. A química é inegável e funciona muito bem ao longo das dez faixas. A linguagem quase cinematográfica de Bastos, que é sempre capaz de fazer o ouvinte viajar em suas metáforas visuais (“luz”, “sombra”, “estrelas”), encontra adequação perfeita no canto intenso e a sensibilidade melódica de Pélico. Não é só um casamento; é uma sintonia que pega a tradição da canção brasileira mais sofisticada — aquela que não tem medo de ser pop, mas jamais é rasteira — e a joga para o presente, dando novas perspectivas para um estilo que, sejamos francos, andava precisando de um alento.

 

A produção de Jesus Sanchez é esperta. Não tenta reinventar a roda nem encher de firulas desnecessárias. Pelo contrário, aposta numa sonoridade leve e direta, construída a partir do violão de nylon de João Erbetta e da percussão sutil de Guilherme Kastrup. É a cama perfeita para as dez canções, que somam cerca de 30 minutos, e que falam de amor e afeto sem cair no clichê meloso. Temos participações certeiras, como Marisa Orth em “É Melhor Assim”, que flerta descaradamente com aquele pop rock oitoentista que a gente adora, e Silvia Machete dividindo os vocais em “Sem Parar”. “Infinito Blue”, um dos singles do álbum, é a prova de que a dupla conseguiu criar aquela atmosfera onírica, mágica, misturando elementos visuais e espirituais. E não dá para deixar de citar a lindeza de “Marinar”.

 

O álbum talvez não seja daqueles que vão estourar em todas as rádios mainstream — afinal, estamos falando de uma música que exige um pouco mais de atenção e curadoria. Mas é justamente por isso que a gente precisa prestar atenção. Porque, como a gente sempre insiste aqui na Célula Pop, a música de verdade é produto do seu tempo, precisa de informação e de escolhas. E esse encontro, meus amigos, é uma bela curadoria para a música pop brasileira atual. É bom, é bem feito, e mostra que a fonte da inspiração, quando bem regada, nunca seca. Corre lá.

 

Ouça primeiro: “Marinar”, “Infinito Blue”,”Sem “Parar”, “É Melhor Assim”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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