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Ash, Sloan e White Reaper lançam suas versões de powerpop

 

 

 

Ash – Ad Astra
43′, 12 faixas
(Fierce Panda)

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

 

 

 

Sloan – Based On The Best Seller
38′, 12 faixas
(Yep Roc)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

 

 

White Reaper – Only Slightly Empty
30′, 10 faixas
(Blue Grape)

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

 

 

Entra ano, sai ano, o powerpop segue como uma opção viável e, aparentemente, à prova de envelhecimento. Talvez seja o espírito eternamente jovem que o estilo suscite, talvez seja a habilidade das bandas que se aventuram nesse caminho, vá saber. O fato é que a mistura de melodias cantaroláveis com refrãos ganchudos e arranjadas com guitarras pesadinhas na medida certa continua encantando músicos em todos os cantos do planeta. Ash, Sloan e White Reaper são bons exemplos disso, ainda que tenham surgido em décadas diferentes. Os irlandeses do Ash vê m dos anos 1990, bem como os canadenses do Sloan, ainda que os primeiros tenham desfrutado de mais visibilidade que os segundos. E fechando o trio, os americanos do White Reaper são os mais jovens do pacote, mas suas raízes sonoras apontam para essa mistura mágica, ainda que haja diferenças de abordagem entre eles. Se o Ash é mais afeito a misturar as tais melodias celestiais com guitarras punk e pegada pop típicas de sua década, o Sloan é mais clássico, aproveitando para colher nos anos 1960 as inspirações para sua própria mistureba. O White Sloan é mais afeito ao hard rock, especialmente Thin Lizzy e um fraco pelo início da carreira do Weezer. Em comum a belezura de “Ad Astra”, “Based On The Best Seller” e ” Only Slightly Empty”, três discos ótimos do início ao fim. Vejamos.

 

O Ash é uma das bandas queridas dos anos 1990 que vieram no comboio do britpop mas que estavam bem longe do padrão. Vindos da Irlanda do Norte, os sujeitos, liderados por Tim Wheeler, guitarrista, vocalista e cérebro, mandaram ver na sua versão pessoal de rock com tinturas punk, esporro adolescente e influências nerdificantes, num tempo em que isso não significava um modo glamourizado de vida. Tiveram momentos ótimos, seja na estreia, com o ótimo “1977” (1996), seja em discos posteriores, como o maravilhoso “Nu-Clear Sounds” (1998, que continha como single a ótima “A Life Less Ordinary”, que foi canção-tema de um filme bacanudo de Danny Boyle, com Cameron Diaz e Ewan McGregor) e “Free All Angels” (2001). Depois de um tempo em hiato, o Ash voltou em 2015 com o álbum “Kablammo”, que recuperava a sua sonoridade e, desde então, já lançou quatro álbuns, contando com esse adorável “Ad Astra”. A ideia é a mesma de sempre, ou seja, rock em alta velocidade – com alguns poucos momentos de amorzinho -, guitarras à frente de tudo, e melodias que poderiam ser cantadas no pé de ouvido da pessoa amada, caso estivéssemos com um violão. Tudo é perfeitinho e evoca os melhores momentos do passado, mas Wheeler e sua turma – os igualmente veteranos Mark Hamilton e Rick McMurray – acertam a mão especialmente em lindezinhas como “Which One Do You Want?” e “Give Back My World”, além de exercitarem o culto ao Weezer em “Keep Dreaming” e apresentarem uma interessante afeição por uma certa ambiência oitentista, caso de “Deadly Love” e amor pela marca registrada de esporro aerodinâmico em “Hallion”. No final do álbum, a faixa-título, envergando mais de cinco minutos, acaba num belíssimo solo a cargo de Graham Coxon, ele mesmo, guitarrista do Blur e do The Waeve.

 

A gente falou aqui do disco anterior do Sloan, “Steady”, lançado há cerca de três anos. A fórmula mágica segue inalterada neste ótimo “Based On The Best Seller”, para a nossa alegria. Se valendo da sorte de contar com os mesmos integrantes desde o início da carreira, há trinta e três longos anos, o Sloan segue como uma espécie de Teenage Fanclub canadense. Como sempre – e como a maioria das bandas de powerpop noventistas – a ideia é misturar as guitarras mamúticas e vocais harmonizados com melodias descendentes diretas de Beatles e bandas como Rasperries e Badfinger. Além disso, Andrew Scott, Chris Murphy, Jay Ferguson e Patrick Pentland cantam, compõem e têm esse entrosamento que beira a telepatia na hora da composição. Tudo é harmonioso e perfeitinho ao longo dessas doze faixas, mas a gente deixa derramar uma furtiva lágrima quando ouvir uma maravilha como “Dream Destroyer”, a segunda faixa, que tem um groove aerodinâmico, derivado de bandas como Slade e similares, devidamente potencializado por um refrão matador. Como se não bastasse, entra um solo luminoso no meio da canção, curto o bastante para deixar saudade, que captura o coração do crítico. Além dela, a lindeza beatle de “Open Your Umbrellas” tem pianinho conduzindo a melodia e bateria estilizada, que fazem o mais descrente ser deixar escapar um sorriso. E “Baxter”, a interseção perfeita entre os anos 1990 e 1970, como se o Cheap Trick encarnasse no próprio Teenage Fanclub. Mais um trabalho comovente.

 

Por último, o White Reaper. O vocalista e guitarrista Tony Esposito é um dos grandes sujeitos em atividade neste ramo. Capaz de misturar a pirotecnia do hard rock setentista com os preceitosdo powerpop no século 21. O White Reaper começou como uma banda de pop punk garageiro, mas lançou um álbum impressionante, chamado “You Deserve Love” em 2019 (que a gente resenhou aqui), no qual acenavam para Thin Lizzy, Big Star, Cheap Trick e até Van Halen, tudo ao mesmo tempo, sem perder a personalidade ou a lindeza de ótimas composições. Para falta de sorte dos sujeitos, foram despejados da Elektra/Warner após o disco seguinte a este, o igualmente bacana “Asking For A Ride” (2023), mal lançado no pós-pandemia e pessimamente divulgado. Resultado, os sujeitos voltaram algumas casas no tabuleiro e recarregaram as energias para voltar com outro álbum parrudo, este belo “Only Slightly Empty”, cheio de riffs de guitarra que parecem saídos de alguma trilha sonora de série que reverencia os anos 1980 e vocais dobrados, harmoniosos, cheios de lindeza. Os vocais de Esposito seguem em forma e a capacidade dos sujeitos em compor belezuras também não parece ter sido afetada pela mudança de gravadora. “Honestly” é uma crocância cheia de timbre estalado de baixo, sons eletrônicos de teclados e uma ambiência familiar que dá conforto a ouvintes tanto de hard rock como de alternativo recente. “Blink” é outra belezura, mais uma evocação ao Thin Lizzy, banda que parece de cabeceira dos sujeitos. Em “Pocket” um belo dedilhado de guitarra surge como fio condutor da melodia enquanto “Blue 42” também presta reverência ao Weezer, mas com peso maior de guitarras e os vocais de Esposito, muito mais fortes.

 

Estes três discos mostram a força de bandas que estão aí há tempos e/ou que enfrentam os problemas e perrengues da indústria do disco ao longo dos anos. São forjados na porrada, na estrada e na capacidade de regeneração e conservação do espírito doce e belo das melodias. Mesmo que sejam executadas muitas vezes na base do grito. Ouça e ame.

 

Ouça primeiro:

Ad Astra: “Hallion”, “Ad Astra”

Based On The Best Seller: “Dream Destroyer”, “Baxter”

Only Slightly Empty: “Pocket”, “Blink”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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