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Os 40 anos de “Life’s Reach Pageant”, do REM

 

 

“Life’s Rich Pageant” é meu disco preferido do REM em todos os tempos. Durante muitos anos, ele veio atrás de “Automatic For The People” (1992), outro baita momento da discografia da banda. Porém, enquanto “Automatic” é sublime e conceitual, “Life’s” soa incerto, caótico e, por fim, genial. O mundo de 1986 era totalmente diferente de 1992 e ambos são irreconhecíveis em relação ao nosso 2026. “Life’s” marca o momento exato em que a banda estava buscando atingir uma audiência maior, mas talvez nem soubesse disso. Na época, o grupo só queria um som melhor, mais bem produzido, com alguém que pudesse conduzir seus passos rumo a um outro lugar. Esse desejo, aliado a uma safra extremamente forte de canções, fez com que Michael Stipe, Bill Berry, Mike Mills e Peter Buck vislumbrassem um novo caminho. O disco é uma polaroide de uma banda saindo da primeira fase de sua carreira, sem deixar de sentir-se próxima do underground, sem imaginar que, em cinco anos, estaria no topo das paradas mundiais. Se o REM se tornou um grupo de alcance global, os primeiros passos dessa caminhada vieram aqui, com “Life’s Reach Pageant”.

 

O REM de 1986 era bem diferente do que ganhou o mundo em 1991, com “Losing My Religion” tocando em todos os cantos. Era uma banda totalmente imersa no ecossistema das college radios americanas, ou seja, as rádios que eram vinculadas às universidades e seu entorno, tocando artistas e bandas novos, num mecanismo de apresentação e valorização de artistas que foi muito eficiente no início dos anos 1980. O REM havia gravado três álbuns – “Murmur” (1983), “Reckoning” (1984) e “Fables Of Reconstruction” (1985), além de vários singles e lados-B obscuros. Era um queridinho desse público e, com o último álbum, havia gravado em Londres pela primeira vez. Algo, porém, começava a incomodar os quatro músicos – o som que produziam, ainda que fosse ótimo, carecia de nitidez, clareza, de algo mais. Além disso, os caras começavam a querer adicionar elementos novos às gravações, especialmente pianos, bandolins, aumentar o escopo sonoro. O REM era conhecido por ser aquele grupo cujas letras ninguém conseguia entender, tamanha a timidez do vocalista, Michael Stipe. Mesmo sendo um dos melhores showmen de sua geração, Stipe cantava pra dentro, murmurava, era, de fato, quase ininteligível.

 

A chegada de um novo produtor era essencial. Foi recrutado então Don Gehman, que trabalhara com gente como Stephen Stills no passado e assinara álbuns recentes com John Mellencamp, especialmente o ótimo “Scarecrow”, de 1985. Esse disco, ainda que não fosse um hit entre os músicos do REM, era um bom exemplo de como Gehman conseguira adaptar a sonoridade de Mellencamp à realidade mais próxima do que se entendia por AOR, o “rock adulto”, algo que fosse maior e mais amplo sem perder a força e a origem. Se os integrantes do grupo não gostavam de “Scarecrow”, Gehman também não entendia a lógica criativa do REM e este choque de mundos gerou atritos num primeiro momento. A bordo do estúdio de Gehman, o Benmont Hall, os quatro foram apresentados a uma metodologia de trabalho muito mais detalhada, que passava o tempo necessário na definição do arranjo, na sobreposição de camadas, ou seja, em um processo muito mais profissional. E a desconfiança dos integrantes do REM tornou-se a instância em que sua autenticidade encontrou abrigo. Mesmo com o desejo de soar maior e mais forte, a banda não abriu mão dos temas mais importantes de sua escrita à época, no caso, a política e o estado de coisas no mundo. Não raro, Gehman interrompia Stipe na gravação dos vocais, perguntando do que se tratava a letra e por que ele não cantava mais forte, mais aberto. Várias discussões foram necessárias para que o vocalista chegasse no ponto desejado. E do qual nunca mais saiu.

 

Se Don Gehman garantia o processo mais “arenístico” na gravação, Stipe e a banda vinham com algumas de suas melhores composições. Duas eram verdadeiras porradas ecológicas. “Cuyahoga”, por exemplo, era sobre um rio próximo a Cleveland, Ohio, que, de tão poluído, literalmente pegou fogo em 1969. Além dela, “Fall On Me”, nossa preferida pessoal na discografia da banda, é sobre a crescente poluição nas cidades, com o medo da chuva ácida cair sobre as pessoas. Ainda havia a engajadíssima – e linda – “Flowers Of Guatemala” – que atacava a intervenção americana no país, “Begin The Begin”, outra canção totalmente política. Tem lindezas como a feroz “Hyena”, em que é possível ouvir tecladinhos sutis, a ótima “I Believe”, que tem uma leva pós-punk countryficada e banjos na introdução e a suprema “What If We Give It Away”, que eu considero uma canção … levemente dançante da lavra da banda, com uma progressão brilhante de acordes e uma linha de baixo maravilhosa. O estouro do refrão é irmão-gêmeo de “The One I Love”, que viria no ano seguinte, em “Document”. Ainda temos o brilho surrealista de “Swan Swan H”, sobre cisnes e Guerra Civil Americana e a sensacional “Superman”, composta por Gerry Zeckler e Michael Boltler, que se tornou uma preferida dos fãs após aparecer na serie “Lois e Clark”, no início dos anos 2000.

 

Depois de “Life’s Reach Pageant”, o REM lançaria o último álbum pela gravadora independente IRS, “Document” e partiria para a Warner. Na época se discutiu este passo, alegando que o grupo perderia sua integridade por conta das demandas comerciais de um contrato tão grande. Quando dissemos que aquele mundo era totalmente diferente do atual, não estávamos brincando. O que dá pra cravar é que, com “Life’s”, o REM posicionou-se na cabeceira da pista, ligou os motores, checou os equipamentos e iniciou sua decolagem. É um disco perfeito, lindo, cheio de amor e crença em mudar o mundo.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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