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Neko Case oferece um crepúsculo de cores e sombras

 

 

 

Neko Case – Neon Grey Midnight Green
47′, 12 faixas
(Anti)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

Depois de sete longos anos desde “Hell-On” – um hiato que, para muitos, pareceu uma eternidade na velocidade do pop atual –, Neko Case retorna ao disco. E o faz à sua maneira: com uma obra densa, quase operística, que mais se parece com um film noir rodado na vastidão da América do Norte. Em “Neon Grey Midnight Green”, seu nono álbum de estúdio, a cantora canadense de ascendência ucraniana, transforma o sofrimento, a perda e o tempo que passa em elementos de uma tapeçaria sonora que, por mais melancólica que seja, carrega uma beleza atraente e inegável. Não é um álbum fácil, mas é uma jornada essencial. O título, por si só, já é um convite a um universo de cores saturadas e ambíguas: “Neon Grey Midnight Green” . E é exatamente isso que o disco entrega. Se Neko sempre foi a rainha do alt-country noir – aquela mistura de country gótico, folk distorcido e narrativas de tirar o fôlego –, aqui ela expande seu império com uma amplitude cinematográfica inédita.

 

O maior (e mais bem-vindo) desenvolvimento formal do álbum é a presença marcante da PlainsSong Chamber Orchestra. Não se trata de um mero adorno. A orquestra de cordas, madeiras e metais injeta calidez e grandiosidade que suavizam, mas não domesticam, o som lúgubre que a gente tanto adora. É o luto e a resiliência expressos em arranjos suntuosos que remetem às trilhas de filmes de alto drama, ou aos momentos mais sofisticados de Joni Mitchell. Tudo isso, claro, serve de pedestal para aquilo que sempre foi o centro do universo de Neko Case: sua voz. Ela é simplesmente incomparável. Em “Neon Grey Midnight Green”, ela exibe todo o seu vasto leque de tons, saltando de sussurros graves e roucos a picos estrondosos que, como um raio, conseguem dar um chute no peito e, ao mesmo tempo, confortar o coração sangrando do ouvinte.

 

O álbum abre com a dupla de canções “Destination” e “Tomboy Gold”. A primeira, com seu piano cintilante e arranjos de cordas em crescendo, é quase uma balada “comum”, transformando a dor em uma declaração emocionante de afeto. É uma introdução que não tem refrãos óbvios. Se você procura pelo álbum de “canções de amor” de Neko Case, pode desistir. E ela faz questão de deixar isso claro. Em “Rusty Mountain”, um dos momentos mais cáusticos do disco, ela canta: “Love songs mostly sound the same / An exercise in futility, for me” (Canções de amor quase sempre soam iguais / Um exercício de futilidade, para mim). O álbum, na verdade, é uma negação elegante do romance fácil, optando por um realismo emocional muito mais complexo e, por isso mesmo, mais verdadeiro. As músicas aqui são sobre aceitação, luto, perdas – incluindo amigos músicos que se foram – e, principalmente, sobre a ideia de que “only music lives forever” (apenas a música vive para sempre).

 

A lírica segue a identidade da artista: imagens surrealistas, descrições vívidas e um vocabulário que poucos se atreveriam a usar. Há metáforas sobre minotauros e labirintos em “Baby, I’m Not (A Werewolf)” e observações sobre a teia de uma aranha em “Little Gears”. Mas o disco também sabe ser cativante. O primeiro single, “Wreck”, é enganosamente animadinho e chega a lembrar 10000 Maniacs. Violinos e harmonias em camadas a alçam a um pop imediato, mas logo se revela uma ode agridoce ao amor imperfeito, com versos como: “I’m a meter shattering around you and I’m sorry, but I’ve become a solar system since I found you” (Eu sou um medidor se estilhaçando ao seu redor, e me desculpe, mas eu me tornei um sistema solar desde que te encontrei). O centro emocional, no entanto, pode ser “Winchester Mansion of Sound”. Uma canção fantasmagórica sobre memória e mortalidade que começa em falsetes sombrios para, em um plot twist, explodir em um refrão que lembra uma canção de ninar.

 

Em suma, “Neon Grey Midnight Green” não é um disco para consumo rápido. É um trabalho que exige (e merece) múltiplas audições. É a reafirmação de uma artista que, aos 50 e poucos anos, se recusa a pisar no freio da complexidade, entregando um álbum ousado, pessoal e visceral que usa todas as cores do seu espectro – o cinza do luto, o verde da vida, o neon da arte – para nos lembrar que, sim, merecemos algo muito melhor do que uma simples canção de amor. Um belo trabalho dentro do que é o alt-country hoje, com Neko Case ótima e grandiosa forma.

 

Ouça primeiro: “Destination”, “Wreck”, “Winchester Mansion Of Sound”

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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