Paralamas não economizam em live

 

 

Trinta e duas músicas em quase duas horas e meia de show. Estes foram os Paralamas do Sucesso em sua primeira live, transmitida neste sábado, 29, direto do Teatro Prudential, na Glória, Rio de Janeiro. Sem tocar desde o início da pandemia, o grupo matou a saudade dos fãs – e a sua própria, de subir junto num palco – e já anunciou um show para o dia 12 de setembro, num drive-in em São Paulo. Eles estrearam um novo espetáculo nesta live, o “Paralamas Clássicos”, no qual, como diz o nome, executam canções de todas as suas fases, cobrindo praticamente todos os discos lançados ao longo de 37 anos de carreira. Ver Bi, Barone, Herbert, mais João Fera, Monteiro Jr. e Bidu Cordeiro é como ver uma seleção brasileira de 1970, tocando por telepatia, dando espaços, jogando em profundidade, levantando a bola na área, com entrosamento que é natural e inevitável. Ainda que alguns erros tenham surgido, a banda dribla tudo com simpatia, sinceridade e autenticidade, traços que a marcam desde o início.

 

Como o show se propõe, a ideia aqui é enfileirar clássicos. Não sobra muito espaço para “deep cuts”, o negócio é agradar a todo mundo. Mesmo assim, esta live reservou momentos emocionantes em termos de resgate de clássicos que tem luz própria não pela execução/popularidade. Explicaremos mais abaixo. Eu, fã do grupo desde 1983, senti falta de algumas canções, mas, para o público em geral, o espetáculo é uma feliz sucessão de canções imorredouras. O repertório dos Paralamas resiste muito bem ao tempo. E quem é fã da banda sabe que os últimos trabalhos – honestíssimos -, lançados após “Longo Caminho”, de 2002, não foram pródigos na função de refrescar essa linhagem de canções douradas. Mesmo assim, há espaço para “Sinais do Sim”, faixa-título do mais recente disco do grupo, lançado em 2017. Ela é o único momento em que o termo “clássico” não se aplica. De resto, a proposta é totalmente levada a cabo.

 

A apresentação parecia seguir uma ordem cronológica, o que seria má ideia, e deu partida com versões mais pesadas de “Cinema Mudo” e “Patrulha Noturna”, que serviram para ambientação ao clima. Em seguida veio a rara “Fui Eu”, executada com afinco e o mesmo peso das anteriores. Depois “Ska” e “Lourinha Bombril”, tudo muito rápido, energético e vivo. Daí o primeiro intervalo e a presença de Dedé Teicher, do Multishow, que surgiu como apresentadora da live, declarando amor à banda e lembrando a todos dos patrocinadores e apoiadores do evento. Daí veio o único momento em que a magia deu uma caída porque, justo em “Vital e Sua Moto”, um dos maiores cavalos de batalha do repertório paralâmico, a banda quase cedeu espaço para que os câmeras filmassem uma moto BMW, posicionada ao lado dela no palco. Claro, a BMW era uma das patrocinadoras do evento, ainda que, fosse claro para todos que, a moto que o finado ex-baterista dos Paralamas, ainda em tempos amadores, jamais teria uma BMW. De qualquer maneira, esta lembrança neoliberal não chegou a arranhar a excelência do show.

 

Teve espaço para músicos amigos pedindo canções, especialmente Nando Reis, que pediu a minha canção favorita dos Paralamas, “Mensagem de Amor”. Ainda teve Rogério Flausino (“Caleidoscópio”) e Samuel Rosa (“Lanterna dos Afogados”). Em comum todos enfatizando a generosidade a importância dos Paralamas para a música nacional. De fato, ainda que não tenha sido um percurso fácil – pelo contrário – o grupo sobreviveu como uma máquina de shows e, aos poucos, ao longo dos anos, tornou-se especial ao vivo. Por isso a estranheza da apresentação no Rock In Rio 2019, certamente um dos piores que o trio e seus músicos já deu. Esta live serviu também para tirar completamente esta má impressão deixada no ar. E serviu para dar a certeza que, seja no pop, nas baladas e nas sensacionais fusões de reggae e ritmos nacionais, os Paralamas ainda são os campeões em atividade no país.

 

Momentos especiais: a presença de “Me Liga” e “Romance Ideal”, duas baladas clássicas dos tempos de “O Passo do Lui”; a beleza de canções noventistas como “Ela Disse Adeus” e “Aonde Quer Que Eu Vá”; o blocão reggae que teve “Melô do Marinheiro”/”Marujo Dub”, “Será Que Vai Chover”/”Assaltaram A Gramática”, “A Novidade”, “Você”/”Gostava Tanto de Você” e as pedradas absolutas na política/sociedade brasileiras, tristemente atuais, “O Beco”, “Selvagem?” e “Alagados”. O encerramento vem naturalmente com “Uma Brasileira”, “Óculos”, a surpreendente – e emocionante – execução de “O Passo do Lui”, a canção, “Romance Ideal”, “Tendo A Lua” e a clássica maior, “Meu Erro”. No bis a versão de “Que País É Esse”, devidamente reconduzida ao nosso repertório de canções progressistas, após sua péssima utilização nos últimos 4, 5 anos.

 

Os Paralamas ainda dominam a arte do espetáculo. Fazem suas canções falarem por si próprias, não desperdiçam momentos e oferecem, quando inspirados, um dos melhores shows possíveis no Brasil atual. Atualmente – e já há mais de 30 anos – não tem pra ninguém em cima do palco no país.

 

Setlist

Cinema mudo
Patrulha noturna
Fui eu
Ska
Lourinha bombril
Vital e sua moto
Ela disse adeus
Sinais do sim
Selvagem?
Calibre
Mensagem de amor
Caleidoscópio
Seguindo estrelas
La bella luna
Me liga
Aonde quer que eu vá
Lanterna dos afogados
Trac trac
Será que vai chover/Assaltaram a gramática
O beco
A novidade
Melô do marinheiro/Marujo dub
Você/Gostava tanto de você
Alagados
Uma brasileira
Óculos
O passo do Lui
Romance ideal
Tendo a lua
Meu erro

BIS

Que país é esse

 

Em tempo: se tivesse “Uns dias” neste setlist, ele seria praticamente perfeito.

Em tempo 2: estima-se em 300 mil pessoas o público da live.

 

+4

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

3 thoughts on “Paralamas não economizam em live

  • 31 de agosto de 2020 em 20:40
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    Primeira comentarista de música que classifica o show do rock in rio como péssimo. As análises que vi no youtube (canal de Regis Tadeu e o Alta Fidelidade) afirmam que foi o melhor show de um grupo nacional no mencionado festival.

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    • 1 de setembro de 2020 em 08:06
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      Pois é. O show não foi péssimo, foi muito aquém do que a banda é capaz de fazer num palco. Burocrático, sem tesão e ainda teve uma fala lamentável do Herbert sobre o Brasil. Já tive chances de ver vários shows da banda, em várias épocas e confirmo que a apresentação do RIR 2019 foi a mais fraca que testemunhei.

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  • 30 de agosto de 2020 em 14:22
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    Hum… “Me Liga”? Sei…
    Podiam ter tocado “Inútil”, é deles a melhor versão; ao vivo em 1985.
    Foi legal mas não aguentei até o final…
    Aquela mina comentando, apresentando e falando dela, como se tivesse alguma importância, deu no saco.

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