Ouvi o EP do Dinho Ouro Preto

 

 

Dia desses recebi um e-mail de uma assessoria de imprensa falando sobre o mais novo projeto de Dinho Ouro Preto, o Dorian Gray do rock nacional. Sabemos bem, ele é o vocalista do Capital Inicial, uma banda que, seja por mérito, seja por acaso, seja por destino, tornou-se uma espécie de unanimidade do rock nacional mainstream. Estive no Rock In Rio e pude ver o grupo de Brasília ao vivo – algo quase inevitável em edições do festival – e a apresentação reflete o que o Capital é em disco: música anódina, sem criatividade, favorecida por um tempo em que é preciso “ouvir sem ouvir”. Mesmo assim, havia gente com camisetas da banda e cantando as letras como se entoasse a “Marselhesa” em “Casablanca”.

 

Voltando ao e-mail, ele me avisava sobre novos projetos de Dinho Ouro Preto. Além de lançamento de EPs até o fim do ano com versões de “clássicos” do rock nacional (totalizando um disco completo de doze faixas), Dinho também vai lançar uma série de vídeos em seu canal no Youtube, mostrando bastidores de gravações e o seu cotidiano em geral. Ele diz que quer uma nova relação com fãs, quer mostrar sua vida, suas verdades. Ora, é louvável, né? Deve haver demanda para isso, gente realmente interessada neste nível de intimidade com a vida do Dinho, uma figura tão importante para o rock nacional.

 

Já há, portanto, um EP disponível nos serviços de streaming, com o título de “Roque em rôu, volume 1”, com três canções: “Rolam as Pedras”, de Kiko Zambianchi; “Tarde de Outubro”, do CPM22 e “Saideira”, do Skank. Segundo o texto promocional, o cantor também lançará versões de Raul Seixas, Rita Lee, Paralamas do Sucesso, entre outros. Outro sobrevivente dos anos 1980 fez movimento semelhante recentemente: Lobão. E Dinho já havia regravado várias canções do rock internacional num disco involuntariamente mitológico, chamado “Black Heart”, de 2012, no qual destroçou sem piedade clássicos de Joy Division a Leonard Cohen.

 

Em nome da informação, ouvi as três faixas iniciais e me perguntei a quem tal produto se destinaria. Porque as canções são “antigas” o bastante para que seus originais estejam datados, ainda que “Tarde de Outubro” e “Saideira” sejam conhecidas o bastante para que ainda estejam por aí. “Rolam as Pedras”, de Kiko Zambianchi, de 1984, é um daqueles hits da segunda divisão do rock oitentista, com letra introspectiva sobre crescer e se deparar com a dureza do mundo lá fora. De qualquer forma, nenhuma das três funciona com os vocais de Dinho. Aliás, fico me perguntando como ele pode ser um cantor. Seu registro é exagerado, sua voz oscila – ainda mais com a idade, ele está com 55 anos – e atinge tons graves involuntários, que conferem um tom mirabolante – e involuntário – ao que ele canta.

 

“Saideira”, por exemplo, que já é ruim no original do Skank, ganha um clima de festa da firma, só que ampliado para uma dimensão surreal, por conta dos vocais. Parece que algum integrante do elenco de “Monstros S/A” está ao microfone, defendendo a canção. Em “Tarde de Outubro”, canção “reflexiva” do CPM22, o efeito é semelhante e lamentável, uma vez que o andamento da canção foi desacelerado em favor de uma suposta intensidade vocal, que resvala para o terreno da vergonha alheia. A canção de Kiko é a que mais se adapta ao arranjo, que é banal e insípido, pontuado por um efeito de teclado/guitarra irritante, que fica na cabeça do ouvinte como um alarme de carro que dispara na rua, perto da meia-noite.

 

Por algum tempo teremos estas covers com o Dinho, gente. Elas certamente entrarão na programação de rádios rock, o cara será chamado para dar entrevistas e falar do seu “projeto” e continuará a excursionar pelo país com o Capital, atacando em várias frentes. Estejam preparados e vamos ver mais quantos infortúnios o país aguenta neste 2019 miserável.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

One thought on “Ouvi o EP do Dinho Ouro Preto

  • 4 de novembro de 2019 em 16:29
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    Vc é um ser estóico. Obrigada.

    0
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