Réquiem para a Secondspin

 

 

Há alguns anos algum amigo fã de discos falou: “você já conhece a Secondspin?” Diante da minha negativa, ele continuou: “é como um sebo online, americano, que vende a preços justíssimos, coisa de dois, três dólares por discos bacanas, sempre em bom estado. De vez em quando surgem algumas raridades, vale muito”. Diante dessa descrição, me animei a adentrar o site e me aventurar pelo estoque da Secondspin, este pequeno baluarte da compra de CDs online que, tristemente, encerrou suas atividades em abril deste ano. Escrevo tardiamente porque só fui notar ontem, quando tentei acessar o site para procurar algum disco da dupla mexicana Rodrigo y Gabriela, e o domínio “secondspin.com” já não estava mais disponível. Depois de catar alguma informação, me deparei com a notícia no perfil dos caras no Facebook, dizendo que, após 24 anos, encerravam suas atividades. Abaixo do pronunciamento, uma fila de postagens de agradecimentos. É triste, né?

 

Triste porque o sistema determinou que não é mais pra gente comprar CDs ou qualquer mídia física. Quando muito, dentro das regras de consumo vigentes, comprar um LP caríssimo ou uma edição especial quíntupla de seu disco preferido, que foi relançado pela terceira ou quarta vez. O CD de uma banda que você gosta ou que você tinha e não tem mais, este, meu caro/a, só pela sorte. Algum amigo se desfazendo, algum sebo remanescente esquecido num canto da cidade, algo assim. Pelo menos é a regra que nos foi aplicada aqui no Brasil. As lojas inexistem, as lojas online são pouquíssimas, privilégio de pouquíssimos. Se a pessoa não tem streaming ou familiaridade com a Internet – creia, há muita gente assim que costumava comprar discos – pode, simplesmente, perder o contato com seu artista preferido e achar que o mundo acabou. Pense e veja quantas pessoas você conhece que envelheceram a este ponto? Naturalizamos que o acesso às novidades e artistas/bandas interessantes passou a ser online. Com isso, infelizmente, estamos – ainda – alijando um monte de pessoas desta informação, colocando nas mãos da mídia hegemônica a curadoria para o sucesso.

Mas não é disso que quero falar. O fim da Secondspin.com é um novo fim de loja disco, a online. É como se uma crise silenciosa e condenada a ser supérflua, não poupasse nem mesmo a reinvenção. Mesmo funcionando online, atendendo a demandas em nível global, a SS não deu conta. Comprei muitas coisas nela ao longo de uns dez anos. Caixas de Johnny Cash, Bruce Springsteen, Hall And Oates, Weather Report, Marvin Gaye, The Temptations, além de álbuns raros, que já tive ou me faltavam. Edições de luxo de discos do Sonic Youth, alguns álbuns do Barry White que minha mãe tinha em LP, completei discografias de Van Halen, Rush, abiscoitei trilhas sonoras, sempre com preços justos, promoções que davam descontos consideráveis, isentavam de frete…É triste, gente.

 

Por mais familiaridade que a gente tenha com as redes e perceba que elas se tornaram, de fato, o caminho que oferece maior recompensa na procura de bandas e artistas que importam, como fazemos com a vontade de ter mídia física? Será que somos dinossauros existenciais? Acho que ainda não. Não dá pra negar o valor de libretos informativos, fotos, fichas técnicas, informações que nem sempre estão disponíveis em sites na Internet.

 

E vão secando os caminhos. De vez em quando acessava o site da Second Spin em busca de alguma coisa irresistível. Tinha minha lista de artistas queridos e sempre passava um pente fino. Há pouco encontrei alguns discos da dupla escocesa Boards Of Canada, que foram adquiridos com felicidade.

 

Por mais que sejamos sabedores do passar do tempo e do que ele traz/leva como consequência disso, não dá pra ignorarmos alguns estragos.

 

Obrigado, Second Spin.

 

Em tempo: acessando secondspin.com você será redirecionado para uma tal de FYE, que também vende mídia usada, mas num site confuso, cheio de travas e pouca noção. Acho que pegaram o domínio mas não têm a manha. Duplamente triste.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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