O Terno – Atrás/Além

Gênero: Rock Psicodélico, Pop
Duração: 49 min
Faixas: 12
Produção: O Terno
Gravadora: Independente
4 out of 5 stars (4 / 5)

Tim Bernardes tornou-se, com o tempo, o “cérebro por trás do Terno”. Esse status “cerebral” é conferido quando um dos integrantes assume o controle criativo, seja de forma natural ou não, tornando a banda um veículo para suas impressões e visões de mundo, expressas nas canções. Tim sobressaiu-se espontaneamente. Compositor precoce – completou 27 anos há pouco – e talentoso, ele mudou de fase ao ser gravado por Gal Costa e convidado para compor e duetar com Jards Macalé, tudo no último ano. Sendo assim, é natural que este novo álbum do Terno reflita esta nova fase na vida de Tim. É bom lembrar que o jovem já havia acenado com uma nova fase na carreira, ao gravar, dois anos atrás, o álbum solo “Recomeçar”, espécie de caleidoscópio musical, cheio de riqueza na produção e nas melodias.

“Atrás/Além”, no entanto, não é como o disco solo de Tim. É um álbum inegavelmente do Terno, cheio de referências aos anos 1960/70, mas reflete uma característica que marcou “Recomeçar”: o mergulho nos arranjos de orquestra e metais. Ninguém nega a importância de expandir a musicalidade ou de se experimentar, mas o uso deste recurso por aqui, mais que oferecer novas possibilidades de canção e criação, parece excessivo e, algumas vezes, joga contra a fluência do próprio disco. Tudo bem que Tim e seus companheiros tenham pensado nestas 12 faixas como pequenas joias de estúdio, cheias de timbres, detalhes e traços característicos próprios e, a partir disso, imponham ao ouvinte que se dedique a ouví-las com atenção, mas, temo que este processo atrapalhe o resultado final.

Tudo é bonito ao longo do álbum. Mais que psicodelia e orquestra, “Atrás/Além” é um disco de belos arranjos. Tudo parece gravado em algum momento de 1971/72, nos estúdios da Phillips, com produção mirando o trabalho de bambas daqueles tempos, como Manuel Berenboin ou Jose Briamonte. Neste terreno, faixas como “Nada/Tudo”, “O Bilhete” e “Pra Sempre Será” se destacam por conterem detalhes de metais, sopros, andamento – traços que são notáveis a partir desta atenção dedicada da qual falamos – mostrando que tudo aqui foi muito pensado e deve ter dado muito trabalho. É diferente dos usos anteriores que o próprio Terno fez de arranjos com orquestras, sopros, metais e tudo mais, que soavam mais naturais e orgânicos – pra usar um termo da moda. Agora parece haver um desejo de demonstrar uma maturidade musical/existencial em cada passagem.

Curiosamente a canção que lembra mais a banda como ela costumava ser até 2016, traz a participação de Devendra Banhart e Shintaro Sakamoto, a ótima “Volta e Meia”, que tem romantismo e exuberância na medida certa, com violinos emulando fraseados orientais estilizados e sintetizadores que se mexem no subterrâneo da canção. Sakamoto recita versos em japonês, o que contribui para trazer um ar de pop sessentista exótico/retrô que cai muito bem por aqui. Porque a essência do Terno era – ou é – o mergulho neste pop psicodélico à la Mutantes, que nasceu dentro e fora do Brasil, mas que aglutinava influências de samba, bossa nova e um caminhão de ritmos e estilos, que fez a delícia de arranjadores e produtores pelo mundo afora, lá pela virada dos anos 1960/70. Outra canção sensacional que surge por aqui é “Bielzinho/Bielzinho”, uma homenagem ao baterista da banda, Biel Basile, que tem jeito de Tropicália/Jorge Ben, outra que acena para a belezura do Terno enquanto banda arejada.

Resumindo a ópera: quando se permite ciscar no terreiro das canções solares e arejadas, o Terno se sai com o melhor de sua carreira até aqui. Quando está esculpindo joias no porão da ourivesaria pop de estúdio, Tim e seus companheiros soam como dedicados – às vezes burocráticos – aprendizes de algo que ainda lhes escapa em essência. Ninguém duvida, no entanto, que estes sujeitos são ponto fora da curva no cenário nacional e chegam ao primeiríssimo time da música brasileira com este disco. Pensando bem, não é pouco.

Ouça primeiro: “Volta e Meia”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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