O maravilhoso novo álbum do Echo & The Bunnymen

Echo & The Bunnymen – Apples For Isaac
37′, 11 faixas
(BMG)
(4,5 / 5)
“Brussels is haunted by you and me // Brussels is haunted by destiny”. Este é o Echo & The Bunnymen lançando mais um álbum, intitulado “Apples For Isaac”. Temos muita sorte, não só porque se trata de uma banda sensacional do pós-punk, tão boa quanto o incensadíssimo The Cure, mas porque Ian McCulloch e Will Seargent, os sócios-fundadores remanescentes, seguem mandando muito bem. Na verdade, Ian parece muito mais presente, produziu o álbum, compôs as canções, tocou a maioria dos instrumentos e imprimiu uma sonoridade que, dentro do possível – para uma banda como o Echo – surge alegre e … solar. Uso de cautela para falar isso porque, a saber, o Echo é um dos baluares da melancolia máxima oitentista, de dias chuvosos, cinzentos, nublados, em que os McCulloch e Seargent – mais o finado baterista Pete de Freitas e o baixista Les Pattinson – conceberam álbuns como “Crocodiles”, “Ocean Rain” e o meu preferido de sua lavra, o homônimo, de 1987. Mas o Echo não é sobre nostalgia – a banda reagrupou-se em 1997 e retomou sua trajetória com um ótimo trabalho, “Evergreen”, que foi saudado pelos britpoppers da época, Oasis e The Verve à frente, como influência e belezura. Agora, “Apples For Isaac” desempata a partida: é o sétimo trabalho de inéditas lançado após essa retomada – contra seis anteriores a ela – o primeiro do grupo desde 2014. Há muito o que dizer e ouvir por aqui.
Este disco anterior, “Meteorites” (2014), também era excelente. Lembro de escrever sobre ele para o Monkeybuzz e me espantar com a urgência que algumas faixas exibiam, o que fazia o álbum soar como um trabalho de estreantes. Pois bem, essa mesma gana está presente em “Apples”. E ele ainda tem um aspecto sensacional, ainda que meio triste – Clem Burke, baterista do Blondie, falecido em 2025, participou de dez das onze faixas, sendo este seu último trabalho. O álbum, dedicado a ele, exala uma vitalidade impressionante e tem tudo para trazer os Bunnymen de volta a uma ordem do dia da qual eles devem fazer parte. É importante notar que o grupo sempre foi low profile. Era um gigante em seu tempo, mas além do buxixo mencionado acima, por conta da retomada da carreira, o Echo ganhou relativa projeção por conta da trilha do filme “Donnie Darko”, na qual a clássica “The Killing Moon” chamou a atenção do público do início do milênio. De lá para cá, o grupo produziu, fez shows, turnês, mas não parece ter renovado muito o seu público, a exemplo de seus dois maiores pares dos anos 1980 – The Cure e U2. Mas “Apples” chega para tentar virar o jogo.
A sonoridade dos Bunnymen continua situada na encruzilhada formada por The Doors e Velvet Underground, com acréscimos de algumas excentricidades cultivadas ao longo do tempo. Por exemplo, várias faixas aqui têm arranjos de cordas bem bonitos, que dão profundidade ao clima que a banda quer evocar. E tem a simpática adição de saxofone na ótima “Labs Rats Run”, que parece decalcada de alguma faixa sessentista obscura, talvez gravada por Kinks ou Zombies, mas sai pela tangente com a letra surreal, porém crítica e com a certeza de que todo mundo se divertiu durante a gravação. “Asimov”, outra canção bacana, entrega um pouco do conceito do álbum, composto por dilema e divisão entre fé, ciência e existência. Ao louvar “dois Isaacs”, Newton e Asimov, o Echo se equilibra entre o experimento da gravitação universal, feito por Newton em 1687, que pautou a ciência moderna, a Física e, por tabela, a Astronomia e a obra literária de um dos maiores escritores de ficção científica de todos os tempos, Isaac Asimov, que escreveu “Fundação”, baseada no Império Romano.
“Apples For Isaac” é um belo disco. Várias canções aqui confirmam a boa forma de McCulloch, mostrando que sua voz resiste à passagem do tempo. Aos 67 anos, ex-fumante inveterado, ele consegue manter seu timbre cavernoso na medida certa e isso funciona muito bem em várias faixas. Em “Hijacked”, por exemplo, ele fala da dualidade mencionada acima, o que fazer e a perplexidade diante da rapidez, da confusão e da multiplicidade de “verdades” que surgem de todos os lados. É engraçado – no melhor sentido – ver o Echo com uma canção chamada “I’ll Be Your Sunshine”, uma declaração de amor singela, que se amplifica exponencialmente por conta da história e identidade da banda. Mas o grande, enorme e sensacional momento aqui é “Brussels Is Haunted”, que saiu já como single e que traz uma estrutura melódica tão bela que a coloca no panteão das melhores criações da banda. E os versos em elipse vão discorrendo sobre os conflitos humanos, entre eles, os conflitos formais e coletivos, como as guerras mundiais, a posição da Europa, a alternância entre cinismo, imperialismo e desumanidade, trazendo a discussão para o plano individual com o verso que inicia esse texto – “Bruxelas está assombrada por você e eu // Bruxelas está assombrada pelo destino”. Não custa dizer, a sete da OTAN fica na capital belga.
“Apples For Isaac” é um representante pra lá de digno de figurar numa discografia com tantos pontos altos quanto a do Echo. E seguimos na torcida pela adoção do grupo por um público mais jovem, que os coloque no lugar que merecem. Enquanto isso não acontece, seguimos fazendo a nossa parte. Ouçam.
Ouça primeiro: “Brussels Is Haunted”, “I’ll Be Your Sunshine”, “Hijacked”, “Asimov”, “Labs Rats Run”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
