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Vera Fischer Era Clubber é demais para o Brasil carola

 

 

 

 

Vera Fischer Era Clubber – Veras II
34′, 10 faixas
(Palatável Records)

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

 

 

Fausto Fawcett. Cansei de Ser Sexy. Rogério Skylab. Akira S e as Garotas que Erraram. Noporn. Latexxx. Vá lá, Letrux do início. Essas são algumas das influências do quarteto niteroiense Vera Fischer Era Clubber, sem dúvida, uma das grandes sensações da chamada música underground brasileira nos últimos anos. Ou algo assim. Com sonoridade calcada na crueza e na cruza entre beats dançantes e uma atitude próxima do rock mais alternativo vigente, as Veras estão prontas para a conquista. Será uma missão quase impossível, visto que sua música vai de encontro a convenções, caretices e complexos existenciais profundos da nossa sociedade, tão hipócrita, religiosa, retrógrada. A bem da verdade, o grupo não quer conquistar nada além do seu espaço. É bacana ter uma galera como esta, disposta a atacar tão frontalmente essas convenções. Há um bom tempo não se ouve algo tão agressivo e fundamentado em questões tão sérias quanto solidão, sentimento e, acima de tudo, desejo de viver do jeito que se é, sem dar a menor importância para o que o senso comum emburrecido pensa sobre isso. E, de quebra, as Veras estão a ponto de revelar uma estrela para a música brasileira contemporânea, a vocalista Crystal Duarte. Duvida? Então vamos dissecar “Veras II”, o segundo álbum dessa galera.

 

Quando ouvi as primeiras canções do grupo, há alguns meses, percebi imediatamente que não eram feitas para mim. Porém, o crítico precisa – deve – levar em conta que determinada arte não se destina a ele exclusivamente, mais que isso, faz parte do ofício perceber isso e decodificar as intenções do artista. Um olhar atento ao que as Veras produzem vai revelar algo muito louvável – a coragem de fazer o que fazem, do jeito que fazem. As letras e a performance do quarteto, formado por Peko (bateria), Malu (baixo), Vickluz (teclados), além de Crystal, são seu grande trunfo, lidando, inclusive, com a incompreensão acerca do que fazem e do que dizem. A poesia do grupo é herdeira direta de todo um grupo de artistas underground de diferentes matizes, como os mencionados na abertura do texto, nenhum deles acolhido unanimemente por crítica e público, mas amados e incensados por quem os admira. As Veras não parecem muito preocupadas em falar a língua universal vigente num país como o nosso e já começam esse segundo disco com a sintomática “Quero Que Se Foda”, que, ao dar a partida, repete essa frase três vezes. O grupo declarou que tal canção se adequa perfeitamente aos que não compreende o que dizem. Ou o que fazem.

 

O som das Veras, para quem não conhece, é “dançante”, mas este álbum traz momentos bem introspectivos, nos quais o grupo quase obriga as pessoas a prestarem atenção no que diz. E quem pensar que a verborragia desfilada por Crystal é puro nonsense, estará deixando de lado as mensagens transmitidas. Em “Amor de Anjo”, por exemplo, com participação do guitarrista Kiko Dinucci, a letra vai jogando “amor de anjo, amor de puta, sou um pedaço de carne cheio de esperança”. Não é qualquer versinho feito pra chocar, certo? E, no fim da canção, Crystal ainda arremata: “eu fico puta quando me confundem com um anjo”. O percurso sonoro do álbum passa por várias alusões explícitas e/ou implícitas a esse universo decorrente de uma visão não-convencional do amor e das relações. O single “Calcinha Gozada”, que traz a participação de Katy da Voz e as Abusadas, é uma das coisas mais fortes que ouço em muito tempo, não por falar “puta”, “caralho” ou algo assim, mas por atacar frontalmente quem “vai levar pra casa um pano de puta // um pano de porra // calcinha gozada”. Não deveria ser motivo de orgulho precisar coragem além da conta para falar de situações assim, mas, aqui, é. E muito.

 

Musicalmente, o disco fica atrás das letras. A verborragia noturna e marginal de Crystal precisava de bases eletrônicas e produção mais fortes e encorpadas. Mesmo assim, a atenção nas letras, pelo menos para mim, suplanta qualquer carência mais evidente. O grupo se esforça em sustentar essa versão electroclash brasileira, mas só consegue realmente chamar a atenção nesse setor em “Chic Chic”, que tem uma batida bem bacana, adornando o percurso selvagem da letra sobre gente que é blasé e, a partir daí, se acha sensacional. É tão forte quanto um rap da quebrada atacando qualquer playboyzinho. “Grito, Dano e Possessão” é outro momento bacana, com uma levada mais synthpop em alta velocidade, aconselhando as pessoas “a usarem as mãos”. E tem a impressionante “Buceta Gay”, cuja letra já sai repetindo o título por nove vezes, até acrescentar “e um pau extremamente feminino, solte seus demônios que eu te acompanho”. A batida aqui é bacana, mas precisava soar mais encorpada, um baixo mais mixado no talo. Enquanto pensamos nisso, Crystal segue fazendo considerações como “vem com tudo, prostituto” e por aí afora, colocando no mapa todo mundo. Como eu disse, é preciso coragem.

 

As Veras são enormes. Depois de algumas audições, tudo o que era estranho começa a ficar familiar e ainda mais interessante. Esse disco é a coisa mais revolucionária a entrar nos streamings em 2026. E o disparo não vem da periferia ou de alguma região remota: vem da cidade, que se olha no espelho e finalmente se enxerga. Porrada.

Ouça primeiro: “Chic, Chic”, “Buceta Gay”, “Grito, Dano e Possessão”.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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