Beck evoca melancolia e esperança em “Ride Lonesome”

Beck – Ride Lonesome
47′, 12 faixas
(Capitol)
(4,5 / 5)
Existe o Beck avant-garde, cheio de samplers, ideias mirabolantes e bolotas coloridas indo e vindo ao som de beats dançantes. E existe o Beck folkster, meio Nick Drake, meio Pink Floyd modelo 1971, com violões, climas soturnos, canções evocativas e sem medo de expor sua melancolia acústica diante de todos. “Ride Lonesome” é a mais recente manifestação desta persona artística introspectiva, que andava meio sublimada desde “Morning Phase”, o disco de 2014, que lhe rendeu Grammy e uma projeção meio inesperada. Se olharmos para estes doze anos de espaço temporal, Beck não lançou muita coisa: dois bons álbums de inéditas – “Colours” (2017) e “Hyperspace” (2019), mais dançantes, ainda que meio retrôs e uma versão complementar deste último, com remixes, releituras e tudo mais. Além deles, uma coletânea bacanuda de covers, no início deste ano, chamada “Everybody’s Gotta Learn Sometime”, contendo faixas já lançadas em trilhas sonoras, como a que dá título ao álbum, originalmente dos ingleses do The Corgis, que entrou em “Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças” ou “I Only Have Eyes For You”, dos Flamingos, que fez parte de “O Homem do Castelo Alto”. Sendo assim, Beck volta a este clima plácido e folk e, como é essencial em qualquer situação, apresenta um feixe de canções muto bem feitas, composições bacanas, porque, sem elas, nenhum disco se sustenta. Vejamos.
Parece um fato que, a cada doze anos, Beck volta-se para esse ambiente mais folk e introspectivo, como se fosse uma pausa que precisasse fazer em relação ao ofício de sua música, digamos, mais habitual, que tem a ver com a borbulhância dançante que citamos acima. A cada um desses ciclos, ele adentra um estúdio com seus camaradas – os guitarristas Smokey Hormel e Jason Falkner, o baterista Joey Waronker, o baxista Justin Meldal-Johnsen e o tecladista Roger Joseph Manning Jr – todos presentes em discos prévios, como “Mutations”, “Sea Change” e “Morning Phase”, para dar vazão a essa produção mais sossegada. Além deles, outro chapa, Nigel Godrich, produtor dos dois primeiros, está de volta, dessa vez, encarregado da mixagem e o próprio pai de Beck, David Campbell, fez os arranjos de cordas. E o clima, bem, o clima, além de “sossegado”, é mais de melancolia, uma vez que este álbum parece se dirigir ao seu divórcio da atriz Marissa Ribisi, após quinze anos de relacionamento, ocorrido em 2019, com versos como “You can’t put your arms around a memory” logo na faixa-título, alusão direta à canção que coloca esta frase em seu título, lançada por Johnny Thunders, em 1978. Numa interpretação mais ampla, Beck pode estar lamentando por uma perda de afeto e carinho em tempos atuais, confirmando que o disco trata mais desse tom de tristeza, ainda que haja momentos de esperança e beleza por todos os cantos das doze faixas.
É um erro, porém, achar que esse disco é uma mera repetição de alguma fórmula. Ainda que hajam semelhanças sonoras, Beck é um artista muito mais experiente do que, por exemplo, em 2002, quando lançou “Sea Change”. Ou mesmo do que quando lançou “Morning Phase”. O fato de usar as molduras sonoras do folk mais introspectivo apenas lhe dão o caminho que precisa para expressar questões que são inerentes ao ser humano, ou melhor, outras questões, que não as mais, digamos, habituais. Em “Bleed”, quinta faixa de “Ride Lonesome”, ele alterna versos aparentemente opostos: “I’ve been here before” e “I don’t know where I’m going”, atestando a fluidez total do tempo, a impossibilidade de prever as coisas e ver-se no meio de um turbilhão de situações. O fato é que tudo soa extremamente verdadeiro ao longo do álbum e corajoso, uma vez que trata-se de um sujeito a poucos anos de completar sua sexta década de vida, expressando perplexidade diante do tempo, das perdas da vida, da mão injusta na autoestrada sentimental, e fazendo tudo isso com arranjos belos, acústicos, contemplativos e colocando o coração à mostra. Lembrem-se: vulnerabilidade não é algo “bacana” de se assumir em qualquer época.
O fãto é que “Ride Lonesome” traz canções lindas, especialmente bem arranjadas e que evocam muito o trabalho de Robert Kirby, que era o arranjador de Nick Drake. Beck tempera essa influência britânica com guitarras em slide e tons psicodélicos em rotação lentíssima ao longo do álbum. Há, pelo menos, uma obra prima aqui: “Falling Through My Hands”, que tem um instrumental tão belo quanto triste, até com sons que poderiam ser de uma caixinha de música. Os vocais estão mixados com perfeição, tudo é absolutamente belo. Além dela, a faixa-título, que foi um dos primeiros singles do álbum, abrindo o percurso sonoro, serve como perfeito cartão de visitas para o ouvinte. “In The Night”, por sua vez, aposta em dedilhados de violão e intervenções de cello, lembrando outro sujeito genial: Elliott Smith. “Bleed”, que já citamos acima, é outra beleza triste e perplexa, com sonoridade que emoldura Beck cantando em falsete, mostrando o quanto ele é bom intérprete. Aqui o fantasma de Nick Drake também está presente. E “Disappearing Act” também serve como destaque, com densidade de vocais perfeitamente pensada, melodia bela e um tom de que está revelando verdades absolutas há muito ocultas de todos.
“Ride Lonesome” é uma beleza. Serve sob medida para quem pensa que o melhor da obra de Beck surge quando ele está triste e sofrendo. Se não fosse por trabalhos mais coloridos como “Odelay” ou mesmo “Colours”, a gente não teria como discordar disso. De qualquer forma, este é um dos mais belos discos de 2026 e de sua carreira.
Ouça primeiro: “Bleed”, “Disappearing Act”, “Falling Through My Hands”, “In The Night”, “Ride Lonesome”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
