Minha descoberta tardia da genialidade do Radiohead
“Pablo Honey”, álbum de estreia do Radiohead, foi lançado no dia 22 de fevereiro de 1993. Naquela época, eu estava profundamente mergulhado no metal, punk, hardcore e grunge. Um mês antes, tinha comprado o “Bandwagonesque”, do Teenage Fanclub, e começava a expandir meus horizontes musicais. Mas, definitivamente, não suportava “Creep”, que estourou nas rádios de todo o planeta. Sequer conseguia ouvir os primeiros acordes. Tinha uma impaciência infinita para aquela introdução. Fui incapaz de dar qualquer chance para a música e, consequentemente, para o disco.
“The Bends”, o festejado segundo disco do Radiohead, veio ao mundo em 13 de março de 1995. E passou completamente batido por mim. Aquele foi um dos piores anos da minha vida, e passei seus 365 dias praticamente sem ouvir música. Sim, também não escutei o “Grand Prix”, do Teenage Fanclub, em 95. Aos 20 anos, no esplendor da vida, enfrentei uma depressão pesada, curada na marra por amor à minha mãe, que perdeu o pai no meio daquela minha tristeza sem fim.
Já com “OK Computer” foi diferente. Lançado no dia 28 de maio de 1997, o álbum encontrou um Hugo mais maduro e estabilizado, com a cabeça aberta para qualquer gênero musical. Mas, ainda assim, recebi o disco com desconfiança. Eu ainda tinha o péssimo hábito de ler a “Veja”, e lembro que a revista deu matéria de duas páginas para o álbum, coisa bem rara para veículos daquele porte. Mas
precisei ir para São Paulo para ser apresentado ao disco. Na época, um primo meu, o jornalista Marcelo Negromonte, trabalhava na “Ilustrada”, Caderno Cultural da “Folha de S. Paulo”.
Como viera de Brasília para trabalhar na capital paulista, Marcelo estava temporariamente hospedado na casa do meu pai. E, através dele, vi o “Ok Computer” e coloquei para tocar. Nunca vou me
esquecer da sensação de maravilhamento que tive ao ouvir pela primeira vez. Foi pura catarse. Como aqueles caras eram capazes de produzir uma obra daquele quilate? A sequência de abertura, com “Airbag”, “Paranoid Android” e “Subterranean Homesick Alien” me deixou fora do ar.
Fui capturado por um universo fantasmagórico e apocalíptico. O mesmo aconteceu com todas as outras faixas. Depois de escutar todo o álbum, coloquei “Paranoid Android” para tocar umas quatro vezes seguidas. E passei um mês inteiro ouvindo o disco. Gravei o álbum em uma fita K7 (era 1997) e levei comigo para Recife. A primeira coisa que fiz quando cheguei na capital pernambucana foi comprar o disco. E espalhar a fita entre amigos, gerando novos convertidos.
A partir daí, fui correr atrás do tempo perdido e da obra passada do Radiohead. Levei outro choque quando ouvi “The Bends”. Que disco perfeito! Que trabalho espetacular de guitarras! E a voz de
Thom Yorke? É algo inexplicável até hoje. Parece vir de outro mundo. É celestial. Como se fora, com o perdão da blasfêmia, a voz de Deus. Sublime. Enfim, cinco anos depois da repulsa, me reconciliei com “Creep”, que hoje acho uma obra-prima. No geral, considero “Pablo Honey” fraco, com apenas umas quatro músicas que se salvam. Mas que contém a inacreditável “Creep”.
Quando lançaram “Kid A”, em 2 de outubro de 2000, fui um dos primeiros a comprá-lo. E veio um novo tapa. Eles rejeitavam todo o passado para fazer algo totalmente novo e anticomercial. Outro
discaço. Finalmente, no dia 22 de março de 2009, pude realizar o sonho de ver o Radiohead ao vivo, na Chácara do Jockey, em evento que também contou com as apresentações de Los Hermanos e
Kraftwerk. Uma multidão de 60 mil pessoas compareceu para ver o show
A apresentação do Radiohead foi uma das coisas mais lindas que já vi em toda a minha vida. É tão perfeito que parece playback. Na terceira música, “Karma Police”, comecei a me debulhar em lágrimas de tão emocionado e realizado que eu estava. Meus amigos começaram a rir da minha cara. Duas músicas depois, 60 mil pessoas choravam diante de tamanha beleza visual e sonora.
Gosto da maneira inusitada como conheci o Radiohead. Com certeza não era maduro o suficiente para ouvir o “The Bends” quando foi lançado. E era “ignorante” demais para me sensibilizar com “Creep” na época em que surgiu. “Ok Computer” chegou no momento certo, quando já começava a projetar minha carreira de jornalista musical. E o Radiohead foi a trilha sonora de toda a pavimentação desse trajeto. Sou um sujeito sortudo.

Hugo Montarroyos é jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural. Fã declarado do Teenage Fanclub e leitor compulsivo, acredita no poder transformador da arte! É Corinthiano, porque ninguém na vida é perfeito.
