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Kiko Dinucci traz o “exugaze” em “Medusa”

 

 

 

 

Kiko Dinucci – Medusa
36′, 10 faixas
(Risco)

5 out of 5 stars (5 / 5)

 

 

 

 

Kiko Dinucci é um dos raros guitarristas brasileiros a parecer minimamente sintonizado com a música feita recentemente. Quando ouvimos alguns dos guitarristas mais saudados por aqui, vemos gente que é muito hábil no blues, no jazz fusion e no rock como ele costumava ser, sei lá, nos anos 1970/80. Daí, quando nos deparamos com alguém fluente nos climas e experimentos feitos por gente como Thurston Moore e Lee Ranaldo, no Sonic Youth, com os turbilhonamentos de JMascis, no Dinosaur Jr, ou com o que Kevin Shields fazia no My Bloody Valentine, a impressão é que estamos no futuro absoluto, ignorando talvez que esses caras pensaram em microfonias, ambiências, climas e tudo mais, há cerca de quarenta anos. Tudo bem, antes tarde do que muito tarde. A consequência disso: ouvindo o belíssimo “Medusa”, novo álbum que Dinucci acaba de lançar, reconhecemos nele uma das raras figuras a compreender as possibilidades estéticas da guitarra e da produção de um disco calcado em seu uso como ruído, ambiência, sonoridade, timbre e não como melodia/harmonia. O fato é que “Medusa” oferece várias possibilidades de mistura de tempestades mais ou menos intensa – dependendo da situação – a estruturas de samba e elementos similares, gerando algo que soaria parecido com Jards Macalé liderando o Sonic Youth. E o mais incrível – eles parecem feitos um para o outro. E o próprio Kiko encontrou o nome perfeito para o estilo: “exugaze”. Perfeito é pouco.

 

“Medusa” é cinzento, obscuro, soando direto dos undergrounds mais subterrâneos de uma São Paulo meio Blade Runner, com gente lamentando ausências, solidão, chegando aos limites mais sombrios da alma humana. Não custa lembrar que Kiko Dinucci já tem seu nome consolidado na música brasileira recente, seja no trabalho que fez no Metá Metá, seja pela participação/concepção/produção de álbuns importantíssimos, entre eles, “Besta Fera” (2018), de Jards Macalé e a dupla “A Mulher no Fim do Mundo” (2015) e “Deus é Mulher” (2018), responsáveis pela reinvenção e pelo processo que desencadeou a valorização que Elza Soares merecia sempre ter tido. Sua abordagem da sonoridade guitarreira é revolucionária para os nossos parâmetros e confere à música brasileira mais popular um sentido de urgência há muito perdido, talvez jamais possuído. A crueza com que Kiko empreende os arranjos e as concepções sonoras de suas gravações revela aspectos novos dentre o que parecia mais clássico e assimilado. De um jeito inesperado, lembra, não esteticamente, mas no sentido da atualização e reinvenção, o que os Los Hermanos fizeram com o samba carnavalesco e suas fusões com o rock alternativo de guitarras americano, além de outros elementos, como o ska e o hardcore. Kiko, no entanto, se descola de rótulos fáceis, pegando apenas emprestado o potencial de microfonias e ruído da guitarra, isolando essa ruideza, filtrando-a numa centrífuga de caos controlado e despejando o resultado sobre melodias inocentes, que perdem o sorriso imediatamente, ao primeiro contato.

 

Kiko não está sozinho nessa missão/cruz de atualizar elementos da canção romântica brasileira e a variante mais marginal e existencial do samba. Rodrigo Campos e Romulo Froes, paulistanos como ele, já fizeram álbuns e gravações nessa mesma direção, inclusive em parceria, como no belíssimo álbum “Elefante” (2024), e seguem nesse mesmo caminho. Froes, inclusive, participa de “Medusa” co-escrevendo a dolorida “Como Foi”, que mais parece uma cruza de Roberto Carlos, modelo 1974, com estática e sonoridades estranhas, que vão engolfando uma melodia angelical. Em pouco tempo, está tudo atirado na lama existencial da cidade grande da forma mais lírica e bela possível. Aliás, “Medusa” traz um time de artistas incumbidos de trazer o caos sonoro para as composições ampliando o efeito da guitarra de Dinucci. Lcuas, Lello Bezerra, Paulo Kishimoto, Cadu Tenório e Arthur de Faria são responsáveis pelo uso de samplers, fitas, loops, orquestrações e tudo mais ao alcance para conferir a ambiência adequada. Na mesma “Como Foi”, a melodia cessa lá pelos quatro minutos de duração, mas a canção ainda expõe ruídos e sons desconecos por mais quase dois minutos, como se esse caos vencesse o duelo com a “normalidade”, travado ao longo da canção.

 

“Medusa” é terrivelmente belo. Logo de cara, “Cão Perdido” já situa o ouvinte no ambiente em que está adentrando. A letra é tristíssima, o arranjo mistura uma levada simples de guitarra a mil sons e sonoridades que distorcem mas não destroem a canção, preservando o que ela tem de mais triste e solitário. As cordas e teclados fazem o resto, num turbilhão. “Água Viva” tem colaboração com Sophia Chablau e versos como “Não sei se te amo // Mas quero ser você urgentemente // Quando eu te fodo, viro gente”. Coisa séria. Aqui a produção deixa a guitarra como âncora do arranjo, deixando os ruídos como satélites do corpo maior. “Casca do Olho” já soa como uma montanha russa que só desce, “tira a casca do olho quanto dói uma verdade”. A estrutura aqui é de samba mais clássico, porém totalmente adulterada pela ambiência. “Loira Palmer” traz a vocalista do Vera Fischer Era Clubber, Crystal Duarte, numa coisa meio Fausto Fawcett encontra David Lynch, ou algo parecido. “Claudia, Frota e Eu” tem coautoria de Negro Leo e uma letra que parece bela, mas que tem versos como “eu vou te dar uma surra, Frota, filho da puta” e por aí vai. O tom é de Jorge Ben encontra o Inferno de Dante, ou algo assim. “Segundo Eterno” é o momento mais belo do disco, talvez da música brasileira em 2026. A participação de Juçara Marçal dá amplitude e versos inacreditáveis como “O meu olho retratou naquele instante o seu olhar // Etéreo, terno, parado, curioso // Calçada a gente correndo rumo à morte // Noutro olho o meu olhar // Estacionou no meu juízo”. E “Cascuda” traz a presença de Maria Beraldo, com vocais que adicionam uma pitada – bem pequena – de suavidade ao cáustico total. E mais um verso lancinante: “Nunca te tão de perto // Esses seus olhos tão tristes // Mas o meu corpo não estranha”.

 

“Medusa” ainda tem duas faixas menores: “Fantasmagoria IV”, que encerra o álbum e “Faca da Palavra”, ambas um tom a menos da majestade que o álbum exibe. Mesmo assim, elas acrescentam ambiência e coesão para a sucessão de porradas que estão aqui. Este é um disco que precisa ser ouvido e reverenciado, coisa terrivelmente bela.

Ouça primeiro: tudo.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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