“Notas Sobre o Luto” – Quando a palavra encontra a dor

 

A poucos dias de uma consulta com o nefrologista, James Nwoye Adichie, o pai da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, não resistiu às complicações de uma doença nos rins, deixando sua família mergulhada no espanto causado pelo mais triste dos inesperados, um dos inúmeros sentimentos que ela escancara no seu recente livro, o corajoso Notas sobre o luto, lançado em 14 de maio pela Companhia das Letras.

No dia 9 não me alonguei muito em nossa conversa para ele poder descansar. Ele riu baixinho quando fiz minha imitação brincalhona de um parente. Ka chi fo, disse. Boa-noite. Suas últimas palavras para mim. No dia 10 de junho, ele se foi. Meu irmão Chuks me ligou para avisar, e eu desmoronei

 

 

A pandemia trouxe para nossa rotina o único desfecho que nos acompanha desde o nascimento: a morte é certa, não tem agenda e quando tira quem amamos de nós deforma tudo o que nos construiu como filhos, conjugues, seres humanos.

 

Quando recebeu o telefonema do irmão, Chimamanda assustou a filha de 4 anos com os gritos e murros no chão de mulher arrancada do mundo que conhecia desde a infância e do qual não pôde se despedir, presa nos Estados Unidos, onde mora, e impedida de chegar a Nigéria, de aeroportos fechados por causa do lockdown.

 

A impotência a fez querer tirar da casa dos pais as pessoas que traziam comida e conforto formal a sua mãe sem ter ideia de que do outro lado do mundo a filha dividia seus dias entre a saudade e a raiva.

 

Havia pessoas mais velhas que seu pai na sala onde agora habita a dor. Por que elas não estavam doentes?

 

Mestra das palavras, Chimamanda recolheu-se por dias ao silêncio. Não respondeu mensagens, não relevou sorrisos impróprios, piadas nervosas e fora de hora. Relembrou o pai, ainda que atropelada pela sua partida.

 

Ao invocar a dor da família e a própria, ela abre nossos olhos para a única certeza desse plano.

 

Como falar de uma pessoa amada no passado? Como lidar com a percepção da morte por uma criança de 4 anos? Como conter a revolta e a dor diante dos pêsames que não fazem nada por elas, a não ser acentuá-las?

 

“Estou escrevendo sobre o meu pai no passado, e não consigo acreditar que estou escrevendo sobre o meu pai no passado”

 

Chimamanda não tem respostas, somente o indizível que a fez sentir fisicamente o insustentável da saudade, dos abraços que não pode dar e do impedido adeus ao seu pai. Ao apoiar-se nas lembranças e no respeito aos valores ensinados por ele, ela não se cobrou uma superação além do humano depois de tamanha quebra.

 

Quando seu coração se acalmasse talvez um dos trechos com que fecha o livro a ajudaria a sobreviver.

 

“Não, eu não estou imaginando coisas. Sim, meu pai era um homem maravilhoso”

 

Menos de uma semana depois de terminar a leitura do livro uma pessoa muito querida por mim faleceu. Dizer que ele me ajudou a entender a partida precoce de alguém que fez da sua vida uma celebração à família e que me acolheu desde a minha infância talvez tenha sido prematuro.

 

Se transpomos os tabus que envolvem a morte entenderemos que as dores causadas pelos seus impactos são múltiplas e trocaremos os “eu sei como você se sente” pelo silêncio compreensivo, a escuta carinhosa, as lágrimas e os desabafos sinceros.

 

Notas sobre o luto me abraçou em nossa vulnerabilidade e cravou em meu peito a recusa em deixar que a vergonha me impeça de chorar quando a perda vier bater à porta dos meus dias.

 

Um livro único como James, Chimamanda, nossas alegrias e principalmente as nossas tristezas.

 

 

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Debora Consíglio

Beatlemaniaca, viciada em canetas Stabillo e post-it é professora pra viver e escreve pra não enlouquecer. Desde pequena movida a livros,filmes e música,devota fiel da palavras. Se antes tinha vergonha das próprias ideias hoje não se limita,se espalha, se expressa.

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