Tom Jobim, inventor de Brasis

 

 

“Eu tive que inventar o Brasil” – disse Tom Jobim numa entrevista ao Roda Viva, em 20 de dezembro de 1993. Pouco menos de um ano depois, Tom estaria morto, vitimado por um ataque cardíaco. O fato é que ele foi, realmente um inventor do Brasil, este país que precisou ser criado a partir da ex-colônia, que, proclamada sua independência, não trocou de mãos e precisava existir por conta própria. A “invenção do Brasil” a que Tom se referiu na entrevista significa a necessidade de dizer o que é o Brasil. É o país? É o sonho? É a realidade? É Ipanema? É Bossa Nova? Tom não clama pra si o posto de único inventor, ele insere seu mestre Villa-Lobos, Vinicius de Moraes, Guimarães Rosa e outros brasileiros responsáveis por “noções de Brasil” em tempos distintos da nossa história. Como, por exemplo, o momento em que Tom decidiu deixar a Bossa Nova para trás e partir para outros rumos…dentro do Brasil. E isso aconteceu entre 1967 e 1970, com resultados palpáveis em 1972/73.

 

Foi um período muito produtivo na carreira de Antônio Carlos Jobim. Gravou com Frank Sinatra e lançou “Wave”, em 1967. Um ano depois, compôs “Sabiá”, com letra de Chico Buarque, vencendo o III Festival Internacional da Canção. Em 1970, lançou dois discos, “Tide” e “Stone Flower”, no qual já é possível perceber que sua obra mudaria de rumo, deixando para trás este período “americano”, iniciado com a apropriação da Bossa Nova pelo jazz ianque, voltando para o Brasil profundo – ou uma invenção de Brasil profundo – quando ele lança “Águas de Março”, em 1972 e, posteriormente, “Matita Perê”, em 1973. Tom dizia que “Nova York era seu escritório, no entanto, sua casa permanecia no Rio de Janeiro”. Faz sentido, especialmente por suas obras artísticas deste período de quatro anos que mencionamos acima. Gravar com Sinatra não era para todo mundo, pelo contrário. Era a coroação de um compositor que chegara aos Estados Unidos como integrante de uma turma de brasileiros exóticos e que jamais voltara para casa, ao contrário de quase todos os outros. Tom ficou por lá, cavou seu lugar, deixou de ser o “Tom da Bossa Nova” para, aos poucos, se tornar “O Gershwin brasileiro”, algo que, como já dissemos, não era para qualquer um.

 

“Francis Albert Sinatra e Antônio Carlos Jobim”, o disco, é um dos mais belos exemplares da indústria musical em todo o seu esplendor. Tudo é perfeito no álbum e olha que ele ainda poderia ser melhor. Mas só Sinatra seria capaz de se espalhar em obras tão alheias à sua própria carreira e ainda se apropriar delas, caso específico de “Dindi”, que passou a lhe pertencer depois que sua versão foi registrada. Isso sem falar na versão de “Garota de Ipanema”, cuja letra em inglês é estranha, mas que ainda faz bonito por aí. Tom havia sido contratado pelo selo A&M, tendo gravado na mesma época o impressionante “Wave”, cuja faixa-título surge em versão instrumental, bela, linda, perfeita, ainda que a letra posteriormente colocada a torne insuperável, precisamente na versão de João Gilberto em “Amoroso”. O fato é que “Wave” talvez seja o disco em que Tom mais se entrega ao jazz americano, num coquetel em que a música brasileira surge como um ingrediente quase secundário. Isso, claro, não arranha o brilho intenso do álbum, que é praticamente irretocável, porém, vendo a carreira de Tom com o benefício do tempo transcorrido, dá pra pensar que “Wave” era uma espécie de canto de cisne de Tom nos Estados Unidos. Ele já dava sinais da preocupação ecológica, da exacerbação burguesa na preocupação com a ecologia, com a mudança de rumo em sua trajetória.

 

O grande Lorenzo Mammi detecta que este adeus se dá em “Sabiá”. A canção que recebeu letra de Chico Buarque, era, na verdade, um aceno a um Brasil que não mais havia. Se pensarmos bem, em 1968, já se passara dez anos do início da Bossa Nova. O ritmo surge como uma expressão musical/cultural do governo JK, que, por sua vez, refletia a época de ouro do capitalismo americano, do american way of life. A prosperidade material e a relativa – e enganosa – bonança financeira do eixo Rio-SP, fazia de um lugar como Ipanema a materialização do paraíso perdido-idealizado de todo um país. Era o Brasil com 70 milhões de pessoas, menos de um terço da população atual, logo, um outro mundo. Em 1968, porém, com militares em vias de baixar o AI-5, a coisa era bem diferente. Não havia espaço para devaneios, para sonhos. Era a despedida de uma ideia de Brasil para ter que inventar outra. E assim foi. Não por acaso, “Sabiá” é uma canção que se despede resignadamente de algo, de um sentimento, de uma … ideia. Mesmo que haja o otimismo, a esperança (“vou voltar, sei ainda vou voltar”) tão sentimento logo é silenciado pela conclusão adjacente (“vou deitar à sombra de uma palmeira que já não há, vou ver a flor que já não dá”).

 

O grande momento desse período de Tom Jobim é, a meu ver, o ano de 1970. Em poucos meses ele lançou dois álbuns que estão entre seus mais brilhantes. E como eles são diferentes! “Tide”, que tem uma das capas mais belas de todos os tempos, com uma fantasmagórica foto do Cristo Redentor à noite, envolto por névoa e iluminado por um tom de azul real. O efeito é impressionante e inesquecível, mas este é outro álbum eminentemente jazzístico. Não chega a ser um irmão de “Tide”, mas tem logo na abertura, com a versão definitiva de “Garota de Ipanema”, instrumental, moderníssima, arrojada e cheia de cordas, um momento inegavelmente jazz, ou melhor, um inegável jazz de Jobim. Logo em seguida, “Carinhoso”, de Pixinguinha, uma valsinha, uma lindeza mais leve que o ar. E o disco avança nesta tradução de um Brasil sob um ponto de vista ainda excessivamente americano. É com “Stone Flower”, talvez sua obra-prima de todos os tempos, que esta noção se dissipa e nunca mais volta.

 

Assim como “Tide”, “Stone Flower” foi arranjado por Eumir Deodato, que tinha menos de 30 anos na época. Era um prodígio, lidando com a musicalidade de Tom, que já tinha mais de 40. E tudo deu muito certo, porque Eumir conferiu a modernidade necessária a ambos os discos, mas modernidades distintas. “Stone Flower” surgiu como um álbum inegavelmente brasileiro e exuberante, a expressão máxima de um país moderno e, assim como o próprio Tom, em transição. A musicalidade aqui já é muito mais complexa e cheia de significados ocultos, que dariam em obras ainda mais intensas, como “Matita Perê” e “Urubu”, os dois álbuns máximos dessa “fase verdejante” da obra de Tom. “Stone Flower” é o processo sendo vivido por ele, é uma ponte aérea Nova York-Rio, mas sem qualquer ilusão. “Do quadrado da janela já não se vê o Corcovado, mas Sérgio Dourado”, apenas para citar a paródia que o próprio Tom faria de “Carta Ao Tom 74”, de Vinícius e Toquinho.

 

Há momentos intensos em “Stone Flower”. “Teresa My Love”, feita para a então esposa de Tom, é um por do sol visto do Arpoador numa bolha temporal suspensa e eterna. “Children’s Games” é uma valsinha, que, mais tarde seria “Chovendo Na Roseira”. “Brasil”, em dois takes, é o hino nacional idílico dessa ideia de Brasil que Tom – e Ary Barroso – teimavam em ter. E tem outra lindezas muito brasileiras: “Choro”, “Amparo”, “Andorinha” e a própria “Sabiá”, num arranjo que só não emociona seres inanimados. Não por acaso, a produção e gravação do álbum ficaram a cargo de Rudy Van Gelder, talvez maior engenheiro de som de todos os tempos. E a Creed Taylor, o homem que recebeu a Bossa Nova de braços abertos no início dos anos 1960 e que, dez anos depois, ainda conseguia ver em Tom Jobim o grande cérebro daquilo tudo. E que o captou neste momento transitório tão precioso.

 

Tom ressurgiria em 1972 com a gravação de sua canção mais impressionante em termos líricos: “Águas de Março”. Ela seria lançada num compacto encartado no jornal O Pasquim e ganharia sua versão definitiva pela voz de João Gilberto, em disco que seria lançado no ano seguinte. E, dali em diante, Tom fez sua entrada para o Brasil – outra ideia – profundo, defendendo, na medida do possível, o que ele achava mais intrinsecamente brasileiro: fauna, flora, povo.

 

Neste caminho para o interior, Tom deixou estes álbuns como pegadas sólidas no nosso terrário. Percorrê-lo é se encontrar com belezas que permanecem inéditas para muitos que só enxergam o maestro como o “pai da Bossa Nova”. Nestes discos, Tom estava anos-luz além dela. E de nós. Um mestre em seus momentos mais ousados e dourados.

 

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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