Built To Spill – Plays The Songs Of Daniel Johnston

 

 

Gênero – Rock alternativo

Duração: 34 min.
Faixas: 11
Produção: Doug Martsch
Gravadora: Ernest Jenning Record Co.

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

Daniel Johnston morreu em setembro do ano passado. Era uma espécie de anti-ídolo supercult. Sua carreira remontava ao distante ano de 1980, quando, aos 19 anos, lançou uma fita cassete com suas gravações caseiras e amadoras. Daniel era maníaco-depressivo e tinha várias complicações mentais em decorrência desta condição. Tal fato não o impediu de construir uma carreira impressionante no underground do rock alternativo americano ao longo dos anos 1980, sendo, finalmente, levado para gravar com mais condições por músicos que foram se tornando fãs de seu trabalho, entre eles, Yo La Tengo, Jad Fair e Butthole Surfers. O motivo para a admiração? Daniel era um artista que tinha na sinceridade o seu maior trunfo. Suas canções nunca foram muito complexas, suas letras falavam de amor, de carinho e observações peculiares do mundo ao redor. Em 2017, o trio Built To Spill, uma das mais respeitadas bandas do rock alternativo americano dos anos 1990, foi convocado para servir como sua banda de apoio em algumas apresentações. Deste encontro veio a ideia de fazer alguns registros da obra de Johnston, algo que, a princípio, circulou entre os amigos da banda, agora é lançado comercialmente, funcionando como um emocionante tributo à obra de Daniel.

 

Como as gravações originais de Johnston iam do amador ao gentil/ingênuo, o BTS conservou este clima nos arranjos que fez. Ao contrário do minimalismo dos registros oficiais, imprimiu um clima de relaxamento e leveza, baseado em guitarra, baixo e bateria, conservando a indubitável pegada alternativa noventista, mas deixando-a harmoniosa, com zero intervenção de elementos que pudessem tornar as canções distantes de atmosfera em que foram concebidas por Daniel. Talvez no caso específico dos brasileiros, o conhecimento da obra dele tenha acontecido a partir da inclusão de “Speending Motorcycle”, composta por Johnston em 1983, na compilação do Yo La Tengo, “Genius + Love”, de 2000, na qual a banda de New Jersey aparece duetando com ele ao … telefone.

 

O Built To Spill evita reler esta faixa aqui, mas abre o coração para onze momentos que se unificam tanto pela estranheza quanto pela doçura com que são executadas. As letras de Daniel sempre foram muito simples e seus temas às vezes iam buscar inspiração nas coisas mais simples de um cotidiano de alguém como ele, caso de “Impossible Love”, “Fish” ou “Queenie The Dog”. Em outros momentos, no entanto, ele conseguia alcançar uma dimensão toda própria, caso de “Fake Records Of Rock’n’Roll”, cuja letra fala “The people go shopping and they lay their money down/Fake records of rock and roll/Sounds just like, and the people don’t know/Fake records of rock and roll “, listando várias frases em que o rock estaria sendo conspurcado pelo mercado e povoado por ídolos fakes.

 

A banda confere um arranjo um pouco mais pesado, com guitarras mais presentes e capazes de emular alguma distorção levíssima, mas soa como uma linda concessão ao todo. Ainda há espaço para o escapismo naive de “Mountain Top”, para a decepção de “Life In Vain” e a constatação das dores do amor em diferentes níveis e condições, expressas em “Honey Sure I Miss You”.

 

Este disco é uma pequena pérola de doçura e respeito pela obra de um artista que fez sucesso de forma desconcertante, transformando sua adversidade em inegável demonstração de força e crueza. Ouça e se emocione.

 

Ouça primeiro: “Fake Records Of Rock’n’Roll”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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