Neil Young para iniciantes

 

O velho canadense está completando 75 anos hoje, dia 12 de novembro de 2020. Ele segue ativo, invocado, nervoso e boladão, compondo canções, lançando discos de inéditas e fuçando seu enorme arquivo, atitude que tem nos brindado com a chegada de registros ao vivo e de estúdio que se tornaram mitológicos com o passar do tempo. Vide “Hitchhiker” e “Homegrown”, álbuns do início dos anos 1970, destinados a vagar pela eternidade como projetos abortados por Neil e que vieram ao mundo com décadas de atraso – 2017 e 2020, respectivamente – para delírio dos fãs. Para celebrar a data, vamos falar da carreira do homem? A ideia aqui é dar um caminho das pedras suficientemente legal para novos e potenciais curtidores da música e da verve youngianas. Vamos apontar os discos essenciais e algumas canções emblemáticas para que o maior número de pessoas venha a amar o canadense mais querido da gente.

 

Antes de lançar seu primeiro disco solo em 1969, Neil Young fazia parte de um grupo chamado Buffalo Springfield entre 1966/68 que executava uma mistura bem feita de folk, rock psicodélico e letras que iam da doideira da época. Não dá pra pular esta fase inicial da carreira do sujeito, por isso, vamos recomendar a discografia completa do Buffalo, principalmente porque são apenas três álbuns curtinhos, que correm bem na onda de Byrds e similares. Mas, se você quiser ouvir apenas um disco, unzinho só, recomendo expressamente o “Buffalo Springfield Again”, de 1967, que abre os trabalhos com “Mr. Soul”, uma canção clássica do velho Neil.

 

 

O próprio disco solo inicial de Neil, homônimo, é uma obra subestimada. Muita gente diz que é derivativo e que está aquém das expectativas, porém é uma bela amostra do que ele poderia fazer – e faria – na carreira. Há aqui uma canção arrepiante, uma das minhas preferidas pessoais, que é “The Old Laughing Lady”, com uma letra impressionante e um arranjo minimalista, com pianos, cordas e que está, até hoje, como um de seus melhores momentos num estúdio.

 

 

Alguns meses depois, Neil veio com o ótimo e unânime “Everybody Knows This Is Nowhere”, segundo álbum que mostrou, de fato, o que ele podia fazer. Ao lado de sua banda de estimação, o Crazy Horse, ele encontrou a pegada roqueira que estava ausente de sua estreia e abriu seu horizonte de perspectivas musicais. Aqui estão clássicos como a faixa-título, “Cinnamon Girl”, “Cowgirl In The Sand” e “Down By The River”.

 

 

A partir daí, ele começa um processo de colaboração com o trio Crosby, Stills and Nash, acrescentando seu nome à sigla e participando do belíssimo segundo álbum deles, “Dejà Vu”, no qual colocou a incrivelmente linda “Helpless”. A colaboração provaria ser bissexta, com Neil participando de alguns discos futuros, especialmente o seminal duplo ao vivo “4 Way Street”, no qual canta a engajada “Ohio”, entre outras.

 

 

Enquanto colaborava e saracoteava fora de seus domínios, Young dava início a um dos períodos mais férteis de sua trajetória, entre 1970 e 1979. Absolutamente tudo que ele lançou aqui é essencial não só para sua carreira, mas para entender o rock americano pós-anos 1960, uma vez que Neil foi um dos maiores tradutores desta ressaca. Seus trabalhos mergulham nos cantos escuros do desamor, da tristeza, da decepção e, a partir daí, ele também cai dentro das drogas, num período barra pesada. Pra completar, ele ainda enfrentaria a morte de Danny Whitten, seu parceiro de Crazy Horse, que teve uma overdose em 1972.

 

 

Sendo assim, vamos dar uma passeada por estes primeiros anos da década de 1970.

 

Neil tem verdadeiras pedras preciosas. “After The Gold Rush”, de 1970, talvez seja seu disco mais bonito de todos os tempos. Canções como “Tell Me Why” e “Only Love Can Break Your Heart” estão entre as mais belas composições de sua carreira.

 

 

“Harvest”, de 1972, vem logo após, com mais clássicos lindos e atemporais. Aqui estão “Heart Of Gold”, “Old Man” e a drogadíssima “The Needle And The Damage Done”, mostrando o quão louco estava o homem.

 

 

No ano seguinte é a vez de “Time Fades Away”, um registro ao vivo, que ainda espera um lançamento adequado, visto que saiu na época em LP e jamais ganhou edição em CD, ainda que esteja disponível nos serviços de streaming. David Crosby e Graham Nash partipam do álbum, que traz canções gravadas na turnê de divulgação de “Harvest”.

 

 

“On The Beach” é o disco de 1974, que enfatiza esta persona roqueira de Neil. O trovador elétrico, chapado, crítico e inconstante, mas capaz de focalizar tais características totalmente em suas composições. Aqui estão lindezas pesadas como “For The Turnstiles” e “See The Sky About To Rain”. Ele faz dobradinha com “Tonight’s The Night”, disco que foi gravado antes, mas só foi lançado em 1975. Ambos são obras que refletem a relação que Neil vivia com as drogas pesadas, sendo, sobretudo, trabalhos pesados e densos.

 

A presença do Crazy Horse em “Zuma”, lançado em 1975, canaliza as energias de Young para o rockão que ele já estava forjando nos subterrâneos, aqui e ali. No disco estão clássicas favoritas de shows, como “Don’t Cry No Tears”, “Cortez The Killer” e “Barstool Blues”.

 

 

Em 1976, Neil Young participou de um álbum colaborativo com Stephen Stills, chamado “Long May You Run”, cuja faixa-título foi o grande destaque, especialmente pela doçura do arranjo, embebido na misturinha country-folk que tanto fez a delícia dos fãs. Além dele, houve tempo para gravar outros dois registros. “Hitchiker”, “Homegrown” (cujas sessões iniciaram em 1974). E, em abril de 1977, “American Stars’n’Bars foi gravado e lançado pouco depois.

 

Este disco, ainda que seja meio subestimado pelos fãs, tem verdadeiras pérolas, especialmente “Like A Hurricane”, “Star Of Bethlehem” e “Hey Babe”, esta última, uma doçura de canção, que tem Emmylou Harris participando dos vocais de apoio. Deste ano também é a coletânea “Decade”, que saiu em vinil triplo e CD duplo, até hoje o mais bem dotado guia para os primeiros dez anos da carreira de Young. Aqui estão faixas que não constam em discos, especialmente “Sugar Mountain” e “Winterlong” e pepitas dos tempos de Buffalo Springfield, como “Mr Soul”.

 

“Comes A Time”, meu favorito pessoal da obra do homem, é o disco de 1978. Como o título já adianta, é um álbum de assimilação do tempo, de tentar sossegar um pouco. Aqui ele encarna sua persona folk e manda ver em clássicos atemporais como “Lotta Love” e a faixa-título, além da lindíssima “Look Out For My Love”.

 

Mas já era de se esperar que Neil fizesse tudo, menos sossegar. Meses depois ele lançava “Rust Neves Sleeps”, um disco que tinha metade de canções acústicas e a outras de obras elétricas, mostrando esta sua “bipolaridade musical” e colocando-se a serviço do rock’n’roll como estilo de vida e pensamento, especialmente em “Hey Hey My My” e em obras lindas e definitivas, como “Powderfinger” e “Welfare Mothers”. Da turnê de divulgação deste álbum veio o ao vivo “Live Rust”, lançado em 1980, assim como o mediano disco de inéditas “Hawks And Doves”, encerrando esta segunda década de carreira do homem e abrindo caminho para anos bastante, digamos, peculiares que viriam em seguida.

 

Neil Young lançaria uma sucessão de discos estranhos nos anos 1980. Só alguns deles merecem registro mais detalhado. Ele começa a década com “Re-Ac-Tor”, de 1981, que é um álbum em que ele e o Crazy Horse flertam com o … hard rock. As canções têm arranjos confusos, timbres de guitarras que tangenciam até o heavy metal da época e algumas composições são realmente ruins, caso de “Opera Star” e “Surfer Joe And Moe The Slaze”, o que nos leva ao trabalho seguinte, “Trans”, lançado em 1982 e que é um disco de … música eletrônica. Não totalmente, é verdade. Algumas faixas têm uma pegada pop-rock como “Little Thing Called Love”, mas, logo em seguida, chega “Computer Age”, que parece uma mistura de Kraftwerk com America, com direito a Young cantando com efeitos em sua voz, algo que era muito moderno na época. A estranha mistura vai adiante com algumas canções muito fracas – “We R In Control” e “Transformer Man”, por exemplo – mas causando uma sensação estranha de guilty pleasure na versão tecnopop de “Mr Soul”. “Trans” é peça de colecionador para fãs enlouquecidos, mas não passa de um disco em que Neil perdeu o foco e errou a mão.

 

Dando sequência a este período multipolar, vêm “Everybody’s Rockin'”, um disco de rock clássico cinquentista; “Old Ways”, um álbum de country raiz; “Landing On Water”, um disco de … new wave; “Life”, uma tentativa pálida de reeditar a pegada dos trabalhos com o Crazy Horse nos anos 1970 e o blueseiro “This Note’s For You”, fechando um ciclo que vai de 1983 a 1988, em que Neil só causou estranheza e exigiu demais de seus fãs. Talvez a grande exceção seja sua participação em “American Dream”, disco que Crosby, Stills And Nash soltaram em 1988 e que tem a faixa-título com presença marcante de Neil. E só.

 

 

Foi em 1989 que ele recuperou a forma e adentrou os anos 1990 com antecedência. Chegou a bordo de “Freedom”, um trabalho vigoroso, que lhe rendeu um dos maiores hits da carreira, “Rockin’ In The Free World”, que teve duas versões, uma elétrica e outra acústica. Além dele, “Don’t Cry”, “Eldorado” e uma cover sensacional de “On Broadway” mostravam que Young vinha determinado a fazer discos relevantes novamente.

 

 

Tal fato se confirmou com “Ragged Glory”, que foi lançado um ano depois e que aproximou Neil da turma que fazia rock alternativo americano na época, especialmente o Sonic Youth e o Pearl Jam. O tributo “The Bridge”, lançado em 1989, que continha participações de gente legal como Pixies, Dinosaur Jr, o próprio Sonic, entre outros, também serviu para fazer a conexão da barulheira do Crazy Horse com a barulheira da época. O resultado veio com o surgimento de “Arc/Weld”, um disco ao vivo que vinha com um CD bônus, no qual Neil e sua turma preenchiam o espaço de 35 minutos apenas com microfonias e efeitos de guitarra. Na modesta opinião deste que vos escreve, “Weld” é o melhor disco ao vivo de Neil Young, e olha que não são poucos.

 

Neil seguiu em ótima fase, lançando o belo “Harvest Moon” em 1992, cuja faixa-título também lhe rendeu muita rotação nas rádios e na MTV. Falando na emissora americana, em 1993 ele registrou sua presença no “Unplugged”, programa em que grandes artistas surgiam para tocar seus sucessos em versões acústicas. Após outro trabalho interessante, “Sleeps With Angels”, de 1994, Neil só voltaria ao estúdio dois anos depois, para lançar “Mirrorball”, álbum que trazia o Pearl Jam como sua banda de apoio, em lugar do tradicional Crazy Horse. Apesar da expectativa pelo lançamento do disco, o resultado ficou aquém do que poderia render, mas trouxe espaço para outro registro ao vivo, “Year Of The Horse”, de 1997, ano que Neil também colhia os resultados por um disco mediano – “Broken Arrow” – e sua participação na trilha sonora do filme “Dead Man”.

 

O novo milênio trouxe um Neil Young ativo, prolífico, mas com uma certa incapacidade de criar músicas e discos tão relevantes. Ele ainda tem um bom começo de anos 2000, lançando bons trabalhos, como “Silver & Gold”, que traz a bela canção revivalista “Buffalo Springfield Again”. Neste mesmo ano, ele solta “Road Rock, vol.1”, mais um trabalho ao vivo, que tem a sincronia com sua apresentação no Rock In Rio III, no início do ano. Neil segue adiante, lançando discos interessantes, mas mornos, como “Are You Passionate?”, de 2002 e “Greendale”, de 2003, este último, uma espécie de estória cantada nos moldes de uma peça de teatro.

 

 

Em 2006 chega o último trabalho que Neil lançou capaz de fazer frente aos melhores álbuns de sua carreira, “Prairie Wind”. É um trabalho muito voltado para o folk e não tem muitas pretensões. Tem belas canções como “This Old Guitar”, que faz menção ao fraseado de violão de “Harvest Moon”, “No Wonder” e “The Painter”. Em seguida ele iniciaria uma sequência de trabalhos medianos, iniciada por “Living With War”, que, apesar da ótima intenção de meter o malho no governo W. Bush, resvala em péssimas canções. O nível sobe com “Chrome Dreams II” (2007), “Fork In The Road” e “Le Noise” (2010), este último com produção de Daniel Lanois, mas a melhor coisa dos anos 00 de Neil Young é o início dos lançamentos de sua Archive Series, trazendo discos raros e/ou inéditos. Vieram duas maravilhas ao vivo, “At The Filmore East 1970”, “At Massey Hall 1971” e “Dreaming Man 92”.

 

 

Em 2012, Neil Young lançou um dos piores discos de sua existência, o vergonhoso “Americana”, que é um compêndio de faixas mal ajambradas. A má fase continuou com o frouxíssimo “Psychedelic Pill”, que ele lançou no fim do ano e prosseguiu com “A Letter Home”, de 2014, um punhado de covers pessimamente gravadas num equipamento primitivo, no estúdio de Jack White, que só funcionou para fãs incondicionais. O efeito é como se Neil estivesse cantando desafinadamente ao telefone. Ele ainda soltou outro disco mediano, “Storytone”, com absolutamente nenhuma canção relevante.

 

Uma outra fase viria a partir de 2015, com a presença da banda Promise Of The Real no acompanhamento do novo disco, “The Monsanto Years”. Previsto para ser um ataque frontal à multinacional americana líder na fabricação de agrotóxicos, o álbum é um ataque ao neoliberalismo como um todo, algo que é sempre legal. Este foi o melhor trabalho de Neil em dez anos. Qualquer otimismo com este novo alento foi-se embora com a chegada de “Earth”, um disco duplo ao vivo, com orquestra, com a Promise Of The Real, tudo pessimamente resolvido e gravado, uma pequena tragédia. Após “Peacetrail”, também de 2016, recuperar um pouco o estrago, vieram os relançamento de “Hitchiker” e outro álbum com o Promise Of The Real, “The Visitor”, ambos de 2017.

 

 

Entre relançamentos de discos ao vivo, um novo – e mediano – disco com o Crazy Horse (“Colorado”, de 2019) e a chegada maravilhosa de “Homegrown”, após 35 anos de espera, Neil Young tem usado seu limite no cheque especial para compensar a falta de inspiração.

 

Como é um cara absolutamente sensacional, a gente segue esperando pacientemente por algum disco que chega no brilho que sua carreira já teve. Mas, se ele der uma caprichadinha a mais nesse padrão dos anos 2000, a gente já ficará bem satisfeito.

 

Feliz 75, Véio.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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