Bauhaus: gótico e muito mais

 

 

Uma historinha quase inacreditável: banda formada há seis semanas entra em estúdio para gravar uma demo e dali sai uma das músicas mais emblemáticas do pós-punk. Isso aconteceu no início de 1979, com quatro garotos – Daniel Ash (guitarra), Peter Murphy (vocais) e os irmãos Kevin Haskins (bateria) e David J (baixo) – de Northampton, cidade nas proximidades de Londres. A faixa foi lançada como um single alguns meses depois, com o nome de “Bela Lugosi’s Dead”.

 

A música chamou a atenção de gente como John Peel, que, apesar de seus quase 10 minutos, a divulgava em seu programa da Rádio BBC. A repercussão rendeu um contrato com a 4AD, que em 1980 lançaria outros singles e o primeiro álbum da Bauhaus. Assim vinha à luz (com o perdão da expressão) uma das bandas ícones do gótico (ou dark, como falávamos no Brasil dos anos 80).

 

Mas não foi algo como “quatro caras decidiram criar um novo gênero dentro do pós-punk”. Como quase sempre, as coisas foram menos planejadas. Temos que concordar que uma música sobre o mais ilustre dos intérpretes de Drácula, cantada com a voz lúgubre e embalada por uma sonoridade grave reunia atributos suficientes para a qualificação de “gótica”. A iconografia do single ia na mesma direção, com instantâneos de dois filmes noir dos anos 20. Igualmente, as influências de bandas contemporâneas, especialmente Joy Division e Siouxsie and the Banshees.

 

Ao mesmo tempo, a Bauhaus tinha referências que apontavam para outros lados. A começar pelo nome, inspirado na famosa escola de arquitetura alemã, de onde veio também o logo da banda. Compartilhando os mesmos anos 20 que pariram os exageros do expressionismo, a instituição fundada por Walter Gropius consagrou princípios como minimalismo e simplicidade – traços que também podemos reconhecer na sonoridade dos ingleses.

 

Nas inspirações musicais, estavam artistas como Velvet Underground, Iggy Pop, nomes do Krautrock, ao lado de David Bowie e outras referências do glamrock. Curiosamente, a música mais executada da Bauhaus é um cover de Bowie, “Ziggy Stardust”, de 1982. Entre os singles de 1980, encontramos versões de T. Rex (“Telegram Sam”) e de John Cale (“Rosegarden Funeral of Sores”). Na mesma época, o set list de shows da Bauhaus incluía citações a “Do You Wanna Touch Me?”, de Gary Glitter.

 

Além de… dub e reggae. Reggae entre as inspirações de uma banda gótica? Isso mesmo, como escancara uma das músicas gravadas na mesma sessão que registrou “Bela Lugosi’s Dead”, intitulada “Harry” (certamente, uma entre várias criações enfeitiçadas pela vocalista da Blondie). Muitas das linhas de baixo de David J nascem do reggae, assim como o uso de dubs nas gravações de algumas faixas. Vale notar que Haskins credita sua batida em “Bela Lugosi” à bossa nova…

 

A banda registrada em In The Flat Field confirma a ideia de que o pós-punk britânico beneficia-se de fontes plurais e explora caminhos muito diversos. Se o clima geral do álbum corrobora a associação de sua sonoridade com o “gótico”, se as letras são cheias de referências e maneirismos que correspondem ao rótulo, isso não significa homogeneidade e mesmice. Os talentos vocais de Murphy se destacam. A guitarra de Ash afirma sua personalidade. Haskins contribui com levadas criativas que, seguindo a cartilha pós-punk, dispensam muitas variações – embora uma batida perfeita só tenha sido atingida em “Terror Couple Kill Colonel”, lançada como single também em 1980. David J mostra que entre suas influências estavam também o funk e o disco.

 

O álbum abre com “Double Dare”, anunciada por um urro de guitarra e um bip eletrônico que, em variações, aparece como apoio da percussão em outras faixas. Entra o baixo em distorção máxima, preparando a virada de bateria que marcará toda a música. A voz de Murphy contribui para a brutalidade do que ouvimos, impactados. Segue-se a faixa que intitula o álbum, a nervosa “In the Flat Field”, com destaque para o diálogo frenético da guitarra esganiçada com o vocal urgente. Ela guarda semelhanças com “Dark Entries”, single que em várias versões posteriores do álbum é nele introduzida antes de “Double Dare”, cujo registro tem uma origem diferente das demais faixas, pois veio da primeira das Peel Sessions protagonizadas pela Bauhaus.

 

“A God in an Alcove” e “Stigmata Martyr” aproximam-se não apenas pela temática religiosa (melhor dizendo, sacrílega) das letras, mas também pela centralidade da linha de baixo. Linhas circulares, mântricas, que remetem ao reggae, ao funk e ao disco. A guitarra faz o contraponto, tomando a dianteira quando a música brevemente explode (“A God…”) ou faiscando em um arrepiante acompanhamento (“Stigmata”). Os vocais continuam a impressionar, especialmente na segunda faixa, no trecho em que Murphy parece exorcizar a si mesmo.

 

A tribal “St. Vitus Dance” sugere em seu título mais religião, mas a letra parece descrever um clubber com seu cinto estroboscópico. “Spy in the Cab” usa linguagem rebuscada para falar de um taxímetro panóptico. Sonoramente, conduzida basicamente pela guitarra e o vocal, sua melancolia remete a “Crowds”, música que é o lado b do single “Telegram Sam”. “Small Talk Stinks” tem uma levada rock’n’roll, enquanto “Nerves”, que com seus 7 minutos encerra o álbum, junta um riff black sabbathiano a uma melodia que é quase uma valsa.

 

A julgar por sua baixa execução em concertos, as duas últimas faixas mencionadas são os pontos fracos de um álbum que, em geral, não foi bem recebido pela crítica musical da época. Muitos comentários centraram nas inspirações da banda e no excesso de pretensão. “Dive” poderia lhes dar razão, por sua semelhança com músicas da Joy Division de 1979. O jogo entre saxofone e guitarra antecipa algo que será aperfeiçoado em “Dancing”, faixa do segundo álbum, Mask, este sim muito mais aclamado e estará certamente a merecer celebrações em 2021 por seus quarenta anos. Mas In the Flat Field tem muitos méritos e acertos, pavimentando o caminho de uma banda notável.

 

A música da Bauhaus não pode ser desassociada da performance da banda em seus shows. A discrição dos irmãos Haskins contrastava com a extroversão de Murphy e Ash. O guitarrista usava maquiagem, dialogando com a androgenia do glamrock. Já Murphy era teatralmente provocador, contorcendo seu corpo e confrontando o público. A iluminação tinha papel fundamental, criando jogos de sombras que ajudaram a compor a imagem da banda.

 

A capa do álbum tem muito a ver com a formação de três dos quatro integrantes da banda, que estudaram arte. Reproduz uma fotografia de 1949, de autoria de Duane Michals, que retrata um nu masculino, em uma composição escultural. Talvez a nudez possa ser associada com o despojamento da estética da Bauhaus, a escola, em contraponto com a teatralidade carregada da Bauhaus, a banda. A enorme moldura em preto anuncia, por sua vez, os temas e a sonoridade predominantes nas canções.

 

In the Flat Field teve produção da própria banda, o que acentua sua autonomia. Foi o primeiro LP da 4AD, gravadora que lançaria Cocteau Twins e Pixies. Embora tenha apanhado da crítica, chegou a liderar na lista britânica dos independentes. No Brasil, o álbum sairia apenas em 2001, pela Sum Records. Mas a maioria de suas faixas já era conhecida por sua inclusão em uma coletânea, felizmente disponível já nos anos 80.

 

Bauhaus em 1980 desponta como a banda que oferece referências sólidas para inspirar o gótico – lembrando que o próprio termo se consolida apenas dois ou três anos depois, associado a bandas muito mais “típicas”, como The Sisters of Mercy e Alien Sex Fiend. É verdade, o que há de noturno em suas letras e sua sonoridade confirma a relação da Bauhaus com o gótico. Mas In the Flat Field nos traz um banda que é também minimalista, brutal, nervosa, às vezes dançante, sempre intensa. Sua criatividade trouxe mais cores à paleta do pós-punk.

 

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Emerson G

Emerson G curte ler e escrever sobre música, especialmente rock. Sua formação é em antropologia embalada por “bons sons”, para citar o reverendo Fábio Massari. Outra citação que assina embaixo: “sem música, a vida seria um erro” (F. Nietzsche).

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