Midsommar – O Mal Não Espera a Noite

 

 

Não é exagero dizer que “Midsommar”, acrescido por aqui da lamentável frase “O Mal Não Espera a Noite”,  é um dos grandes filmes do ano. Escrito e dirigido pelo sueco Ari Aster – de “Hereditário” – o longa é um exemplar moderno e arrebatador do que se chama hoje em dia de “terror antropológico”. Quando li este termo pela primeira vez, enxerguei nele um certo tom preconceituoso, uma vez que manifestações culturais de um povo em algum lugar, seriam enxergadas como … terror. Se a gente se apegar a esta premissa, toda e qualquer cultura no planeta tem manifestações que são aterrorizantes, desde os astecas sacrificando jovens para o deus sol como, sei lá, apresentador milionário de programa televisivo sendo eleito presidente do pais mais poderoso do mundo. O fato é que a humanidade é culturalmente diversa e há muito o que ver e aprender.

 

Claro, “Midsommar” não é um documentário, mas dá uma especial atenção às celebrações da chegada do verão no Hemisfério Norte, usada aqui como pano de fundo para uma viagem de amigos à Suécia. Dani, vivida pela excelente atriz inglesa Florence Pugh, tem uma relação problemática com seus pais e com sua irmã, que é bipolar. Depois que estas questões são confrontadas de maneira definitiva, ela e seu namorado Christian (Jack Reynor), mais outros colegas de faculdade, acabarão por chegar numa remota comunidade, com a qual Pelle (Vilhelm Blomgren), um dos amigos, tem vínculos. Pois bem.

 

O grande trunfo do filme é dar ao espectador a certeza absoluta de que uma sucessão de eventos terríveis irá acontecer em muito breve, mas, ao mesmo tempo,  também deixar pairando no ar uma dúvida: aquelas pessoas, vivendo no idílico verão sueco, numa vila isolada, levando adiante seus costumes pagãos, são más? Mesmo quando a tela começa a ficar sanguinolenta, o que permanece é esta dúvida, que suscita a tal questão sobre manifestações culturais, ainda que, claro, tal discussão não caiba na proposta do longa. À medida que os eventos vão acontecendo, fica ainda mais evidente que tudo não está acontecendo por conta do acaso, que há uma agenda sendo cumprida, tanto pelos habitantes da vila, que celebram a chegada do verão, quanto pela comunidade, como um todo, levando adiante suas tradições.

 

“Midsommar” tem alguns subtextos interessantes. Em primeiro lugar, o senso de pertencimento e a necessidade de encontrar uma família, algo que, como já diziam Lilo & Stitch, não depende de consanguinidade, mas de vínculos e laços que fazem com que não deixemos quem amamos para trás. Também há a questão intrínseca da religiosidade, algo que também é explorado em outro ótimo filme, “A Bruxa”. Aqui, enquanto vemos que a chegada do verão é o sinônimo de ocasião para agradecer aos deuses e dar a eles oferendas que mantenham o ciclo da vida em movimento, também pensamos que as religiões e cultos pagãos enxergam, em sua essência, o ser humano como algo que faz parte da Natureza, logo, sujeito ao seu curso e linha do tempo. Ao cumprir isso, religiosamente falando, teríamos assegurado tanto a vida eterna quanto nosso papel na comunidade. É tão questionável quanto um telepastor pedir que você compre um carnê de mensalidades para garantir sua absolvição perante Jesus.

 

“Midsommar” é um filme a céu aberto, revolucionário em vários momentos e que causa um misto de sensações no espectador. Deve ser visto como uma produção que não é de terror, mas que traz a violência e a obliteração como elementos essenciais de seu pacote de informações. Vejam porque é, além de tudo, sensacional.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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