Black Alien – Abaixo de Zero: Hello Hell

Gênero: Hip Hop
Duração: 29 min
Faixas: 9
Produção: Papatinho
Gravadora: Independente
4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

Gustavo Black Alien tem uma carreira musical que remonta a 1993. E este é apenas o seu terceiro álbum solo. Ele integrou o Planet Hemp nos anos 1990 e participou de gravações com o rapper Sabotage e de disco ao vivo dos Paralamas. Fora isso, dois álbuns-solo lançados: “Babylon By Gus” vol.1 e vol.2, um intervalo de mais de dez anos entre eles. Motivo: Black Alien sempre se viu às voltas com o uso de drogas, chegando a perder o controle em alguns momentos. Agora, limpo e ativo, ele retorna com seu novo trabalho, mostrando duas coisas: que se tornou um sujeito ainda mais cascudo e capaz de honrar o legado do Hip Hop como ele costumava ser antes do trap invadir as produções do estilo. E que, perto do que faz, sobram pouquíssimos artistas no jogo. O resultado se traduz nas nove faixas do ótimo “Abaixo de Zero: Hello Hell”.

O charme maior do álbum é justamente esta cara de anos 2000, sem, no entanto, soar datado ou ultrapassado. As rimas de Black Alien seguem irrepreensíveis, as escolhas musicais estão muito acima do normal – para os padrões de hoje – e ficaram a cargo da produção de Papatinho, um cara que tem noção exata do estilo hoje, que é capaz de dar estofo a gente como Anitta, e conferir elementos para dar forma aos textos de Gustavo. O que se ouve aqui é um caso de “feitos um para o outro”, tamanha a harmonia de algumas canções. E a influência musical que sempre fez a diferença em Black Alien – o reggae/ragga – ficou preservada de modo implícito nas molduras sonoras das faixas.

“Abaixo de Zero…” fala, sobretudo, de superação. A rotina de convívio com as drogas surge como fio condutor das canções, com uma sinceridade arrebatadora. Ao falar de si e de sua história sem qualquer cerimônia, Black Alien entra – talvez involuntariamente – no terreno da micropolítica. Logo o exército de frustrados e vitimados pela aleatoriedade da vida pós-moderna se identificam com as histórias do rapper. E logo surgem frases lapidares como “Onde o povo passa mal a Babilônia comemora a dor” ou “País da fake news, entre milhões de views e milhões de ninguém viu”, ambas presentes na melhor faixa do álbum – e talvez de 2019 – “Take Ten”, na qual Black Alien relata passado e presente e reflete sobre a passagem do tempo, seja na atualização do ofício de compor como de ser um dos poucos rappers com 46 anos em atividade.

Black Alien não precisa falar de politica, uma vez que sua vida está/esteve em jogo na maior parte do tempo transcorrido. Sendo assim, o tal caráter micropolítico do qual falamos acima, assume o controle das ações. E a maestria de Papatinho deve ser novamente lembrada por não deixar que as canções sejam enormes e se percam na rapidez dos nossos tempos. Por isso é preciso que haja um alto número de versos matadores e eles estão por toda parte: “Mete a venta e não produz: bye bye, Gus”, em “Aniversário de Sobriedade” é uma espécie de síntese do contexto. Outros momentos iluminados: o piano e as palmas que conferem humanidade a “Que Nem O Meu Cachorro”: “não é o que tu fala que diz quem tu és, come e cospe no prato, depois vem dizer “Jah bless” e outros inúmeros momentos de genialidade associada ao batismo implacável da vida na rua.

A temática das drogas e o modo como Black Alien a trata neste álbum, automaticamente derretem quase todos os artistas e cantores brasileiros de rap neste momento. A volta de Gustavo é um evento para ser celebrado e só nos resta torcer para que ele fique presente por um bom tempo. Este é um caso de separar o homem dos garotos. Implacável.

Ouça primeiro: “Take Ten”

Deus habita no silêncio
Que as vozes na minha cabeça
Quebram sem o menor senso
Quem tem boca fala o que quer
Eles tem arma e tem droga
Quem tem boca fala o que quer
Corta um sample da guitarra de Jimi
Grava um clipe, canta um rap cheio de marra no filme
Mar de nego perdido procurando Nemo
Sem rumo, sem remo, no nado mermo
Oh, can you feel me?!
Frita na cocaine, se envolve no crime
Fritando em Coltrane ouvindo A Love Supreme
O médico e o monstro, Dr. Jekyll Mr. Hyde
A babilon de frontside, just gimme
Morador, total de morador, onde o povo passa
Mal a babilônia comemora a dor
Eles nos devem a alma, foda-se o karma
Se eu começo a quebrar, quem é que vai pedir calma?
Pé na porta que racha do teto ao solo
Mas nada disso importa com meus netos no colo
Essa aqui é a pílula vermelha
Se não aguenta, se adianta
Alérgico não mexe com as abelhas

Mister Black Take Ten, don’t pass
Mister Brubeck Take Five Inna Di Jazz
Mister Black Take Ten, don’t pass
Mister Brubeck Take Five Inna Di Jazz
Mister Black Take Ten, don’t pass
Mister Brubeck Take Five Inna Di Jazz
Mister Black Take Ten, don’t pass
Mister Brubeck Take Five Inna Di Jazz

Hoje cedo no Muay Thai de manhã
Outros tempos, só Deus sabe onde ia tá de manhã
O cara vai ter pra adiantar de manhã
Praticava o caratê de rá-tá-tá de manhã
Meu fígado não concordou com meu estilo de vida
Meu cérebro acordou, tirou meu bloco da avenida
1993 primeiro rapper da cidade
2019 poucos rappers dessa idade
Quatro ponto meia, pente cheio, pé na areia
Saco cheio de cretino que cuida da vida alheia
Eles metem o nariz, botar a cara, eu duvido
Um bando de juiz que julga com telhas de vidro
Tempo ruim eu tô quebrando, mergulhando em águas rasas
Tempo bom eu tô quebrando a banca, enchendo várias casas
Quem me viu, mentiu, país das fake news
Entre milhões de views e milhões de ninguém viu

Mister Black Take Ten, don’t pass
Mister Brubeck Take Five Inna Di Jazz
Mister Black Take Ten, don’t pass
Mister Brubeck Take Five Inna Di Jazz
Mister Black Take Ten, don’t pass
Mister Brubeck Take Five Inna Di Jazz
Mister Black Take Ten, don’t pass
Mister Brubeck Take Five Inna Di Jazz

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

2 thoughts on “Black Alien – Abaixo de Zero: Hello Hell

  • 14 de outubro de 2019 em 12:10
    Permalink

    Puta disco absurdo! O cara manda demais! Sempre mandou né?

    0
    Resposta
    • 22 de outubro de 2019 em 12:04
      Permalink

      Sim. sim, sensacional.

      0
      Resposta

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