Céu – APKÁ!

 

Gênero: MPB, Pop alternativo
Duração: 42 min
Faixas: 11
Produção: Hervé Salters e Pupilo
Gravadora: Slap

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

Céu chega ao quinto disco de inéditas com este “APKÁ!”. Se há algo que podemos dizer sobre fazer um resumo de sua carreira, este álbum meio que cumpre esta função. Digo “meio que” porque a ideia da cantora e compositora paulistana não é fazer isso com o álbum, mas percorrer as mesmas trilhas que vêm construindo sua trajetória. A música de Céu não é simples de ser definida, mas podemos dizer que “moderna” é um adjetivo que a caracteriza bem. As influências são várias, de reggae ao samba, passando pelo pop brasileiro de outros tempos, tudo processado numa centrífuga que tem a própria Céu como ponto principal, dando orientações de gosto e fluidez. Ela é quase um Brasil que deu certo, conectado com o mundo, irrepreensivelmente herdeiro de uma tradição musical que parece esquecida por aqui, mais facilmente lembrada lá fora.

 

Eu disse: falar e definir a obra de Céu não é tarefa fácil, justo porque sua proposta central é essa, trazer uma modernidade esclarecida, plural e internacionalmente brasileira para este nosso mundo pós-2016, cada vez menor, embrutecido e tosco. Fica quase paradoxal considerar que o mesmo país que produz as figuras que habitam os noticiários comporta músicos que tenham bom senso e noção de arte como a cantora e sua banda. Aliás, falando nela, é o mesmo pessoal que a acompanha desde “Tropix”, o disco anterior, de 2016. Com Pupilo na bateria, Herve Salters no teclado (ambos produzem o álbum), Lucas Martins no baixo e Pedro Sá nas guitarras, a musicalidade de Céu encontra seu melhor pouso.

 

A tal modernidade surge, por exemplo, na batida quase trap de “Coreto”, que surge com clipe e com pinta de hit. Aqui Céu usa sua voz com certa fragilidade e doçura quase infantil, num movimento que ela sabe fazer muito bem, contrastando com a batida dançante e o clima da canção, que deságua num refrão que parece saído de alguma composição de Caetano Veloso no início dos anos 1980. A abertura, com “Off (Sad Siri)” é outro momento marcante em “APKÁ!”, com uma ambiência eletrônica minimalista que exorta solidão como modo natural da vida desde século. “Forçar o Verão”, terceira canção, é um hit dourado para a estação mais quente do ano e já poderia estar tocando em rádios, caso ainda tivéssemos emissoras comprometidas com este tipo de coisa de tocar música boa para o público.

 

“Corpocontinente” é uma faixa intrigante, algo como se uma canção romântica da década de 1970 fosse refeita e repensada. Tem psicodelia no arranjo, um clima noturno que causa estranhamento – “um dialeto estranho fora do nosso continente” -, diz a letra. A Céu fã de reggae surge em “Pardo”, com conexão afrobaiana sutil, e em “Nada Irreal”, fazendo um carinho aveludado nas sonoridades solares da Jamaica, enquanto violões e guitarras introduzem o clima de quintal no domingo de manhã que permeia “Make Sure Your Head Is Above”, com a moça desfilando letra em inglês dolente e adorável. “Fênix do Amor” é outra faixa com timbres modernos de teclados interagindo com uma bateria mais reta, causando bom contraste. A Céu doce/inocente ressurge em “Rotação”, enquanto “Ocitocina (Charged)” fala sobre meio ambiente e da gente mesmo, na cidade, na vida, mas talvez abuse do carinho do ouvindo, dizendo que estava “totalmente carregada, charged” no refrão. Fechando a trilha musical, “Eye Contact”, com participação de Tropkillaz, empreendendo mais da linguagem eletrônica, dançante e brasileira para o novo tempo.

 

Céu é cantora de inegável talento mas, em meio ao cenário desértico de bom sendo e realizações afetuosas do país em seu tempo atual, seu disco soa como um artefato vindo de uma realidade paralela e muito, muito melhor. Uma lindeza.

 

Ouça primeiro: “Forçar o Verão”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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