Fábrica de Casamentos – O Casal Chocolate

 

Pessoal, como vocês sabem – ou não – já há um texto aqui no site sobre o programa Fábrica de Casamentos, exibido pelo SBT e retransmitido pelo canal por assinatura Discovery Home & Health. Nele, que escrevi há alguns meses, ponderei e demonstrei que a atração televisiva, ao contrário do que aparenta, não é sobre o casamento em si, nem sobre os noivos, mas sobre a habilidade do time de especialistas do programa em cumprirem as exigências dos nubentes. Pensei que havia esgotado o assunto, apontando as características da atração televisiva naquele texto. Que nada. Vi uma reprise do quinto episódio da terceira temporada do Fábrica, batizado simpaticamente de “Casal Chocolate”, no Discovery Home & Health e senti a necessidade de escrever mais, tamanha a sucessão de situações surreais que tal episódio contém. Vamos a elas.

 

O tal “casal chocolate” chamava-se Charles e Daniele. Ambos são empregados da … Cacau Show. Se conheceram na empresa e começaram a namorar. Daí o programa tomou conhecimento da história e resolveu ajudá-los a realizar o sonho do matrimônio, como sempre diz fazer. Só que, num formato praticamente inédito na TV nacional, o Fábrica de Casamentos realizou um misto de propaganda da empresa, de seus valores, de setores internos, mostrando instalações, empregados e, claro, seu dono, Alê Costa, que chama a si mesmo de “chocolatier”, uma espécie de “mestre chocolateiro”. Costa é figurinha fácil no Masterchef, sempre surgindo em alguma prova na qual o chocolate é o ingrediente principal. Como a Cacau Show é patrocinadora do programa da Bandeirantes, faz certo sentido que os produtos da empresa sejam utilizados quando é o caso. Afinal de contas, é um programa sobre comida, certo?

 

Pois o Fábrica de Casamentos não é. Deveria ser sobre … casamentos. Pois este episódio não foi. A cerimônia foi total coadjuvante se comparada com os méritos supostos da empresa de Alê Costa no trato de seus funcionários, na mentalidade “moderna” com que trata o assunto, se vangloriando de já ter “formado” mais de vinte casais, incluindo ele e sua esposa. E tome reunião motivacional, verborragia importada – por exemplo, o setor de confecção de chocolates é chamado de LAB – e a tentativa de mostrar a total dependência da vida dos noivos em relação à empresa, numa condição de inexistência da própria cerimônia se não fosse a Cacau Show.

 

Veja, não sou ingênuo a ponto de pensar que não existe marketing no mundo, mas ainda sou dessas pessoas que separam vida pública e vida privada. Se bem que os noivos, ao optarem por aparecer no programa, já estão abrindo mão desta diferenciação. O que espanta é o protagonismo absoluto da Cacau Show no episódio, que é quase um vídeo institucional de quase duas horas de duração, com um casal coadjuvante. A equipe do programa faz de tudo para que o chocolate esteja presente em tudo. No vestido da noiva, na maquiagem da noiva, no cardápio do bufê – que “achou por bem” incluir apenas pratos com chocolate, salgados e doces – e na decoração da festa e da própria cerimônia. No salão de festas, por exemplo, a produção construiu um “lounge” que imitava o existente na empresa, batizado de “estrufa”, numa alusão a um dos produtos mais vendidos da Cacau Show, as trufas. Na cerimônia de casamento, o corredor que leva ao “altar” foi decorado com guarda-chuvas, imitando uma ala da Cacau Show, adereçada da mesma forma, “para dar proteção”, numa simbologia típica das verborragias do coaching mais rasteiro.

 

E, claro, o bolo do casamento, sempre feito pela doceira Beca Milano, foi ornamentado com trufas criadas para a cerimônia, desenvolvidas no LAB da Cacau Show, pelo próprio Alê Costa, que discursou no altar e depois surgiu no bufê, vestido de chef confeiteiro, para explicar os ingredientes usados na confecção dos pratos. No fim das contas, a família, os noivos, os fatos de suas vidas, nada disso ficou na memória do espectador como as virtudes da Cacau Show como empresa legal e gente boa. Ah, minto: o noivo, Charles, pediu que fosse feito um terno igual ao que ele usaria na cerimônia para que seu cachorro ficasse vestido da mesma forma que ele. Sim, é isso mesmo.

 

Se eu fosse professor numa faculdade de Comunicação Social, exibiria o programa para meus alunos e pediria que fizessem um trabalho sobre a contaminação do espaõ privado pelo marketing, ou algo assim. Este episódio do Fábrica de Casamentos é um verdadeiro duplo twist invertido e carpado, uma verdadeira subversão em bloco de tudo o que deveria significar a união de duas pessoas. Sem falar que a retransmissão do programa na Discovery Home & Health não deveria conter propagandas porque, né, o canal é por assinatura, tendo o espectador – eu, no caso – já pago por ele.

 

Mas, diante de tantos absurdos absurdantes, isso é só mais um detalhe.

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

2 comentários em “Fábrica de Casamentos – O Casal Chocolate

  • 18 de setembro de 2019 em 13:26
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    assisti com minha mãe no dia… e o primeiro comentário foi: cadê DEUS nesse casamento, na cerimonia, mesmo que seja evangelica? eles não mencionaram nem 1 vez a força maior do universo.. eu ein! até parece que quem editou era ateu.

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    • 18 de setembro de 2019 em 14:40
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      Rapaz, foi uma surrealidade. Pra falar o mínimo.

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