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Madison Cunningham revisita o folk setentista com personalidade

 

 

 

Madison Cunningham – Ace

53′, 14 faixas

(Verve)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

A cantora e compositora americana Madison Cunningham é um daqueles achados que a gente se pega querendo contar para todo mundo. Vivemos num tempo em que muita gente canta bem, toca bem, mas poucos conseguem injetar uma alma de verdade e uma inteligência formal nas canções. Cunningham, felizmente, está no time dos poucos. Ela não está aqui para a nostalgia fácil ou para a fórmula pronta. Até pode parecer isso, uma vez que ela usa a tradição — o folk de Laurel Canyon, o rock mais anguloso dos anos 1990, o lirismo esperto de uma Joni Mitchell ou Sandy Denny — para construir algo que é dela, completamente novo. Falams há muito tempo que a arte, para ser relevante, precisa de um tanto de porrada na vida, sim, mas também de uma cabeça no lugar para transformar essa porrada em beleza complexa. E o terceiro álbum da moça, “Ace”, é exatamente isso.

 

O que salta aos ouvidos em “Ace” é a forma como Madison usa a guitarra. Ela não é só acompanhamento; é quase um segundo vocalista, com riffs e texturas que quebram a previsibilidade. É um toque de vanguarda disfarçado de pop, torna as canções simples na superfície, mas, basta um pouco de atenção para encontrarmos camadas e mais camadas de harmonia e ritmo. A faixa de abertura, “Shore”, já coloca o ouvinte em seu lugar de pequena perplexidade. É uma delicada balada folk com pianos e vocais harmoniosos que atingem notas altas e sussurros, coisa muito linda. Com esse cartão de visitas vamos adentrando os domínios do álbum e damos de cara com “Mummy”, outra beleza da mesma cepa, com delicadeza cortante e suavidade no arranjo que vai evoluindo em cordas e nuances de melodia que soam imprevisíveis, especialmente na intervenção de cordas. Depois dessas duas canções, já seria possível prever o que iremos ouvir, mas Madison ainda reserva algumas surpresas.

 

O miolo do disco, então, se revela. “Take Two” é uma dessas canções que captam a atenção imediata, tamanha a economia do riff de piano sobre o qual ela foi construída. Os versos vão avançando sobre reflexões da vida e como é importante tentar novamente após quedas e decepções, mas sem auto-ajuda ou papo de coaching. Parece um conselho de uma amiga querida. Em seguida, “Wake”, que traz a participação de Robin Pecknold, do Fleet Foxes, é mais um momento dourado suspenso no ar, tão suave como poderia ser. Violões dedilhados, vozes em harmonia perfeita e uma melodia elíptica que vai envolvendo o ouvinte pelo coração, na melhor tradição folk da virada dos anos 1960/70. “Break The Jaw” desafia a percepção normal do que poderia ser uma canção acústica dessa natureza, visto que bateria e cordas entram na parte rítmica e dão alma e peso extra ao que se ouve e tudo ganha novas cores. O refrão é matador, a voz de Madison vai alto e desce em questão de segundos e a letra tem um dos versos mais belos do ano: “Broken people don’t have to break people too”, ou seja “gente ferrada não precisa ferrar ninguém só por ferrar”.

 

“My Full Name” é outro momento dourado. “I love when you say my full name” é o verso de abertura de uma melodia ao piano que ressoa imagens simples e cotidianas, que vão rodopiando com a música, num efeito belo e adorável. A voz de Madison novamente está presente em todos os espectros e preenche espaços com doçura. Em “Golden Gate (On And On)”, ela constroi um arranjo com mais elementos – percussão, baixo e cello – com um efeito noturno interessante, que cai muito bem no panorama geralmente solar de “Ace”. Em “Beyond The Moon” ela prossegue nesse clima de madrugada e subentendimentos melódicos que funcionam bem e preparam o ouvinte para as duas canções que irão fechar o álbum: “Goodwill”, que é toda manhã acústica e preparação para um piquenique no parque com a pessoa amada após um inverno de neve infindável, que vai evoluindo em turbilhões de metais e cordas, mudando totalmente de aparência até seu final. E “Best Of Us”, que enaltece a capacidade de conseguir enxergar e perceber o que há de melhor em nós e na pessoa amada, ainda que o tempo e o presente insistam em turvar nossos olhos.

 

“Ace” é o trabalho de uma artista em total controle de seu jogo. Tudo funciona por aqui e algumas canções conseguem nos fazer desconectar da correria diária e entrar num outro mundo. Em tempos como o atual, isso não tem preço. Ouça, conheça, ame.

 

Ouça primeiro: “Goodwill”, “My Full Name”, “Break The Jaw”, “Wake”, “Take Two”, “Mummy”, “Shore”

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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