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Robert Plant segue na arqueologia do blues e do folk

 

 

 

Robert Plant – Saving Grace

42′, 11 faixas

(Nonesuch)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

Robert Plant é uma pessoa que não descansa. Ele acaba de lançar o primeiro disco de estúdio com a banda Saving Grace. Plant, aos 77 anos, acerta a mão de novo, provando que é um estilista único, como ele mesmo disse em entrevista recente ao jornal inglês The Guardian. O álbum, também batizado de “Saving Grace”, não traz hinos de estádio ou guitarras colossais, muito pelo contrário. Este disco é uma roda de amigos tocando no quintal, numa cumplicidade que não comporta vaidade ou algo que vá além da camaradagem e do desejo de investigar e homenagear formas remotas de folk e blues, os estilos que Plant sempre amou. Não à toa, o processo durou seis anos, de 2019 a 2025, e teve lugar em estúdios descontraídos, nos recantos de Cotswolds e Welsh Borders. A banda, que leva o mesmo nome do disco, é um achado. Suzi Dian, com quem Plant divide os vocais, é a parceira ideal. Ela não tenta imitar nem fazer contraponto a ele; ela simplesmente tece uma muralha sonora harmônica com ele. Some a isso a precisão (e discrição)

 

“Saving Grace” é todo de releituras, mas o ineditismo não é só cronológico. Você pode até conhecer o nome do autor, mas a forma como Plant e a banda tratam essas canções é o que importa. E eles o fazem com uma doçura impressionante. Pegam Blind Willie Johnson, um gigante do blues gospel, e transformam “Soul of a Man” numa experiência quase mística. A versão para “Everybody’s Song”, da banda Low, é a prova de que a melancolia pode ser bonita e introspectiva, abrindo o leque para artistas mais contemporâneos. E a faixa de abertura, “Chevrolet”, de Memphis Minnie (e outros), que foi o single de lançamento, é uma introdução perfeita: cheia de alma, de simplicidade, e com aquele toque de frescor que só Plant consegue dar a algo tão ancestral.

 

O percurso musical é um pequeno guia de preciosidades, passando por Moby Grape (“It’s a Beautiful Day Today,” de Bob Mosley), Martha Scanlan (“Higher Rock”) e Sarah Siskind (“Too Far from You”). Eles pescam o que há de melhor nessas histórias e as ressignificam com arranjos que são azeitados e, ao mesmo tempo, despretensiosos. Algum remanescente de um eventual aceno ao rock de arena pode ser percebido em “Carry Fire” (2017) ou, vá lá, em “Raise the Roof” (2021), com a cantora americana Alison Krauss, que também foi um trabalho de fôlego, mas de outra natureza. Aqui, a pegada é outra, mais íntima, quase de sussurro em alguns momentos, mas que reverbera por muito tempo depois que o som se foi.

 

Plant é um verdadeiro anti-herói do rock decano, que renega o convite para a mesmice. Não está fazendo um disco para dar dinheiro, para vender ingresso. Ele faz porque sabe que a música é uma estrada sem fim, e ele gosta de descobrir os atalhos mais bonitos e inexplorados. Não custa dizer, mas que você ainda está esperando que ele faça algo como “Whole Lotta Love,” não vai encontrar por aqui. Mas se busca a maestria de um dos maiores vocalistas de todos os tempos, que se permite rir, se permite a doçura e se cerca de pessoas que interpretam coisas que nunca expressaram antes, este é o seu disco. É um trabalho que convida a ouvir sem pressa, a mergulhar no som e a sentir que, sim, a estrada de Plant ainda tem muitos quilômetros pela frente.

 

Este é um disco que tem valor histórico e artístico, provando que é possível ser lendário e, ao mesmo tempo, se reinventar com senso de humor e um baita senso crítico sobre a própria trajetória.

 

Ouça primeiro: o disco todo

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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