Richard Ashcroft: o poeta das cordas na busca por sentido

Richard Ashcroft – Lovin’ You
44′, 10 faixas
(Virgin)
(3,5 / 5)
Richard Ashcroft está de volta com “Lovin’ You”, e o primeiro impacto que temos é o de que o velho “Mad Richard”, decidiu, finalmente, abraçar de vez a modernidade – ou pelo menos o que ele entende por isso. Depois de discos solo que flertavam com o classic rock e a balada existencial pós-“Urban Hymns”, o líder (e principal força criativa) do The Verve arrisca uma guinada rítmica que, se não é completamente inédita em sua carreira, certamente soa mais intensa e, para o bem ou para o mal, mais deslocada no tempo. O que se ouve em boa parte de “Lovin’ You” é uma fusão de canções de estrutura clássica, quase hinos prontos para coroar o final de um festival britânico, com uma arquitetura sonora que pende para loops inventivos e batidas marcadas de hip-hop. É um movimento ousado, talvez até arriscado, que tenta costurar a alma psicodélica e orquestral dos anos 1990 com a precisão rítmica do século XXI.
O single que dá nome ao álbum é o grande chamariz dessa nova fase. A faixa tem o mérito de ser instantaneamente pegajosa, com o vocal inconfundível de Ashcroft navegando por cima de uma batida densa, quase propulsora, que curiosamente sampleia o riff de “Classical Gas”, de Mason Williams. A ideia é boa, a intenção de inovar é louvável, mas o resultado pende para o lado da competência bem-feita, ou seja, não conquista ou deixa a gente com a pulga atrás da orelha. Soa mais como um projeto solo de um Gallagher (sem o charme divertido dos irmãos) do que o voo de um poeta pós-punk que, na virada do milênio, parecia capaz de grandes feitos. A grande questão que fica é a coerência. Ashcroft sempre foi um grande cantor da agonia social e da redenção individual; suas letras, sejam as viagens lisérgicas dos dois primeiros – e ótimos – discos do Verve ou os épicos de seu auge, buscavam um sentido maior para o “cerumano” perdido na modernidade. E o novo disco não foge disso, com canções que falam de amor e de luta para
Em faixas como “The Last Song”, por exemplo, o rock mais orgânico e grandioso reaparece, resgatando a beleza melancólica que fez de “A Northern Soul” (1994) um clássico. É aqui que Ashcroft se reencontra com sua melhor forma, abandonando os floreios rítmicos desnecessários para entregar uma performance vocal visceral, que nos lembra por que ele é uma figura ímpar do rock britânico dos anos 1990. Já a faixa “Lover”, lançada antes do álbum, acerta o tom melancólico e emocional que os fãs esperam, mas sem a densidade épica de seus momentos mais brilhantes, ficando no campo do pop classudo e bem executado. O problema é quando o disco se perde no meio do caminho entre o peso da história e a leveza do loop eletrônico. Há momentos em que as canções soam esquecíveis, ou pior, forçadas, como se a busca pelo “novo” tivesse vindo a um custo alto demais para o que Richard Ashcroft tem de melhor a oferecer: a força da canção bem composta, a honestidade brutal de sua voz.
No fim das contas, Lovin’ You é um álbum que merece ser ouvido com a devida atenção e sem o silêncio conivente de quem só quer colorir as coisas. Ele prova que Ashcroft ainda quer inovar, que não se contenta em ser apenas a “jukebox” do passado. Mas essa inovação, no caso, é um misto de acertos certeiros e experimentalismos que parecem mais datados do que visionários. É um disco que mostra que o Poeta das Cordas, mesmo tentando dançar em novas batidas, ainda carrega consigo a história de luta e sobrevivência de sua jornada. Se não é a obra-prima que alguns esperavam, é, no mínimo, um material competente que reforça que, sim, ele ainda tem algo a dizer.
Ashcroft tenta dar um passo à frente, mas a cola do passado (e o peso da própria persona) é forte demais. Bom disco, mas distante de ser o que vai salvar sua vida ou dar a ela um novo sentido.
Ouça primeiro: “Lovin’ You”, “Lover”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
