Loulu, filha caçula de João Gilberto, estreia em disco

Loulu Gilberto – Loulu Gilberto
39′, 13 faixas
(Sony)
(4 / 5)
Loulu, ou melhor, Luísa Carolina Gilberto, tem 21 anos e é a filha caçula de João Gilberto com a jornalista Claudia Faissol. Consta que o próprio João a levou para aprender violão com o produtor Cézar Mendes aos onze anos. Lá chegando, tímida pela corujice explícita do pai, que a apresentou como “melhor cantora do Brasil”, a menina travou e nem chegou a empunhar o instrumento. Esta situação permaneceu pelos cinco anos seguintes, inclusive, durante o período de luto pelo falecimento de João, em 2019. Em seguida, no entanto, Luísa tornou a procurar Cézar e iniciou aulas de harmonia e canto. Daí veio o aprimoramento técnico e musical da moça, que, sem dúvida, canta bem e tem a classe típica do DNA familiar presente em seu registro delicado e doce. Ainda que Loulu seja uma principiante, é notável que ela tem a manha para transitar no mesmo universo estético que o pai ajudou a criar. O jazz “velho e tradicional”, misturado com a noção de um ou outro samba antigo/clássico aqui e ali, tudo muito limpo e filtrado pelo olhar e parâmetros de uma visão Zona Sul de música e postura, alimenta e dá o tom dessa estreia homônima. Se a gente comparar com os primeiros passos de Bebel Gilberto, irmã mais velha, entre os anos 1980 e 1990, Loulu tem inegável potencial.
A opção que ela fez aqui foi, digamos, conservadora, e não há nada errado nisso. Pelo que parece, Loulu ainda está tateando sua carreira, procurando seu espaço, seu tom e sua intenção dentro do que significa cantar e gravar. Em alguns momentos ela parece apenas reproduzir canções queridas entoadas na intimidade familiar, inclusive, tendo a seu favor esse tom confessional, íntimo, que dá ao fã do estilo e de seu pai, a chance de vivenciar essa fofura afetuosa. Não está errada, porém, essa abordagem não confere um único centímetro de inovação ou inquietação ao álbum. Talvez o momento mais aventureiro seja a versão de “João”, bela faixa composta por Arnaldo Antunes e o prório Cézar Mendes e gravada por Arnaldo em homenagem a João Gilberto, no álbum “O Real Resiste”, de 2020. Loulu contou em entrevista que a escolha do repertório veio, justamente, dessa vivência afetiva com o pai, crescendo numa família musical. A partir de pesquisa com Cézar Mendes, que produz o álbum, ela foi escolhendo canções que eram mais queridas e familiares, priorizando esse cancioneiro dos anos 1940/50, no qual a própria bossa nova surgiu.
Essa ingenuidade que permeia a própria Loulu e este início de carreira, é um ponto a seu favor. Ela é esperta em não reproduzir nenhum standard universalmente famoso na voz do pai, evitando qualquer termo de comparação. Tampouco soa como Bebel, preferindo manter tudo no terreno da intimidade. Há, no entanto, duas exceções a essa regra: a versão fofa de “Jou-Jou e Balangandãs”, de Lamartine Babo, em dueto com Maria Carvalhosa, que era cantada por João ocasionalmente, tendo um registro antológico dele ao lado de Rita Lee. A outra é “Avarandado”, de Caetano Veloso, gravada por ele em 1967 e revisitada por João em 1973. Loulu chamou Tom Veloso, filho do compositor da canção, para duetar com ela e o resultado é bacana. O resto do álbum é composto por essas canções que orbitam esse universo, soando com beleza e uniformidade, comportando desde “Duas Contas”, samba composto por Garoto até “Mr. Sandman”, clássico do jazz-pop americano dos anos 1950. Loulu tem o mérito de conferir contexto e uniformidade às interpretações. Outro standard dessa lavra é “Tea For Two”, na qual ela conta com Daniel Jobim a acompanhando no piano.
Loulu prioriza, no entanto, o repertório brasileiro. Tem “O Amor Nos Encontrou”, canção inédita de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli numa versão bonita, em ritmo de valsa, com inegável charme. Em “Qui Nem Giló”, de Luiz Gonzaga, ela investe no drama da letra e torna tudo mais singelo e bem próximo do que seria uma gravação bossanovista de fins dos anos 1950. E há um fecho muito bonito no álbum, a junção de duas canções de ninar, “Cavalo Marinho/Bicho Curutú”, gravadas em uma só, a partir de recordações de Loulu com João cantando ambas para ela dormir quando criança. A audição de “Loulu Gilberto” revela um trabalho consistente e promissor, mas que parece direcionado completamente para uma carreira internacional. Certamente é com o público de fora do país que a bossa nova tem maior reconhecimento, até porque, foi a partir do reconhecimento externo que o estilo tornou-se viável comercialmente aqui dentro, o que é meio vergonhoso de admitir. De qualquer forma, Loulu está a par disso e já prepara o conceito de seus shows de estreia para o segundo semestre deste ano.
“Loulu Gilberto”, o disco, mostra bom gosto e bom senso. A delicadeza e vulnerabilidade de Luísa neste início de caminhada podem se transformar em seus maiores trunfos artísticos. Tomara que dê certo. Ficamos na torcida.
Ouça primeiro: “Jou-Jou e Balangandãs”, “João”, “O Amor nos Encontrou”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
