Disco de covers de Paulo Miklos poderia ser melhor

Paulo Miklos – Coisas da Vida
39′, 11 faixas
(Deck)
(3 / 5)
Paulo Miklos sempre foi o meu titã preferido. Na maioria das faixas que mais gosto no grupo paulistano, a voz dele é a principal. Além disso, sua postura no palco e fora dele sempre foram bastante interessantes, passando sempre a ideia de que, além de um ótimo artista, Paulo é gente boníssima. Sua carreira solo, iniciada no longínquo ano de 1994, quando lançou um belo e esquecido álbum homônimo, é econômica e discreta, porém com vários acertos. Foi com otimismo que recebemos a notícia de que Miklos lançaria um disco de covers, exercício que, pessoalmente, acho bacana na maioria das vezes. Em que pese o lançamento de um dos mais abomináveis trabalhos dessa natureza pelos próprios Titãs em 1999, o tenebroso “As Dez Mais”, a expectativa sobre “Coisas da Vida”, o trabalho que ficou disponível hoje, era imensa. Quando a bela versão de “O Sal da Terra” foi lançada há algumas semanas, tivemos a certeza de que Paulo acertaria no alvo e que a escolha de repertório, por mais excêntrica que pudesse ser, seria compensada pela técnica e desempenho do cantor. Bem, não exatamente.
“Coisas da Vida” marca uma efeméride importante – dez anos que Paulo deixou os Titãs. Ele retornou temporariamente ao grupo em 2023, quando empreenderam juntos a turnê de retorno, com ótimos resultados pelo país, mas logo retomou seu trabalho solo, lançando “Ao Vivo” em 2024, no qual misturava faixas do trabalho de inéditas anterior, o bom “Do Amor Não Vai Sobrar Mais Ninguém”, lançado em 2022, com versões energéticas de clássicos dos Titãs, como “Flores” e “Sonífera Ilha”. Mas “Coisas da Vida”, feito para confirmar seus talentos de intérprete, é outra história. Com a produção de Rafael Ramos e Otávio de Moraes, o álbum abraça uma proposta de ecletismo total na escolha do repertório, algo que é benéfico e teoricamente interessante, mas que exige alguns cuidados. Quando Miklos soltou o segundo single, “Evidências”, acendeu um sinal amarelo fortíssimo por aqui. A canção, bem longe de ser um clássico sertanejo, foi ressignificada como um hino Multishow-Porchat de esperteza “popular” nos karaokês da vida, perdendo, a nosso ver, qualquer originalidade prévia que pudesse ter. Independente do gosto pessoal, Miklos, se queria realmente adentrar este universo, bem popular em São Paulo, poderia ter feito escolha melhor.
Tal oscilação no repertório ainda incomoda em outras faixas. Não há explicação possível para a inclusão de “Xibom Bombom”, que ficou famosa na interpretação do grupo As Meninas, no fim dos anos 1990. Em que pese a letra com um fiapo de mensagem/análise de conjuntura daquele tempo, o arranjo que Miklos e Otávio de Moraes oferecem parece demais com os que foram feitos em “Volume Dois”, continuação do “Acústico MTV” dos Titãs. Se aquele disco continha a cover de “É Preciso Saber Viver”, de Roberto Carlos, seguramente o maior hit comercial dos Titãs, decretou uma pacificação estética que já se insinuava na banda paulistana àquela altura, impressão que eles demoraram anos para desfazer. O resultado de “Xibom Bombom” sob Miklos é uma vontade danada de ouvir o original, que, convenhamos, não é grande coisa. A faixa-título, de Rita Lee, safra 1976, apresenta mais virtudes, porém, acrescenta bem pouco à canção original, tornando-se meio sem sentido. Essa também é a impressão de “Mestre Jonas”, clássico estradeiro de Sá e Guarabira, não fedendo, nem cheirando. Esse é o mesmo destino de “O Tempo Não Para”, berro enfurecido de Cazuza, que teve sua ferocidade mais ou menos preservada na interpretação de Miklos. Não chega a decepcionar, mas pouco acrescenta.
Mas há um lado bom em “Coisas da Vida”. A já falada “O Sal da Terra”, clássico de Beto Guedes, é um acerto no alvo, seja em arranjo, seja na própria forma de cantar, derramada, emocionada, intensa, com um ótimo trabalho. “Cachorro Babucho”, de Walter Franco, “Quero Voltar Pra Bahia”, de Paulo Diniz e “Ninguém Vive Por Mim”, de Sergio Sampaio, entram no quesito “revelações que ficaram para trás”, servindo para apresentar esses artistas sensacionais às novas gerações que se aventurarem pela origem do repertório do disco. E tem a adorável “Saudosa Maloca”, clássico do samba paulistano de Adoniran Barbosa, que o próprio Paulo já interpretou no cinema. E tem a versão para “Não Existe Amor Em SP”, a canção que colocou Criolo na primeira prateleira do rap nacional, difícil de estragar, com potencial de fogo mantido pela segura versão do disco.
No fim das contas, “Coisas da Vida”, não faz exatamente feio, mas poderia, dada a qualidade do cantor e dos músicos que o acompanham (Alberto Continentino, Tomás Hares, entre outros), ser bem melhor. Ficamos a meio caminho então.
Ouça primeiro: “O Sal da Terra”, “Não Existe Amor em SP”, “Cachorro Babucho”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Salve Carlos, gostei de seus comentários, mas o título de sua resenha também podia ser melhor – é sempre um problema um disco de covers, seja pelas escolhas das músicas ou mesmo pelos arranjos utilizados, que fazem a música conhecida ficar bacana ou não (para o nosso gosto musical). Em tempo: Mestre Jonas é do trio Sá, Rodrix e Guarabyra, do segundo disco do trio. Guarabyra sempre com Y. Grande abraço e felicidades!