Lô Borges – Rio da Lua

Gênero: Rock, Pop, Folk
Duração: 35 min
Faixas: 10
Produção: Lô Borges
Gravadora: Deck

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

Vejam os números de Lô Borges: 18 discos lançados em impressionantes 47 anos de carreira, que se iniciou quando ele tinha … 17 anos. Hoje, do alto de seus 67 anos de vida, Lô é um dos compositores mais influentes da música nacional e encontra-se extremamente produtivo neste nosso século. Dez de seus álbuns – mais da metade – foram lançados de 2002 pra cá, sendo que “Rio da Lua” é o quinto a conter canções inéditas. Ou seja, Lô está por aí, em sua Belo Horizonte natal, observando o tempo, as pessoas, refletindo e escrevendo canções. Ainda parece que o sujeito vive numa brecha temporal em que as pessoas estão esperando o mundo se curar da ressaca pós-hippie, quando se notou que o sistema havia ganho e não tínhamos conseguido modificar nada. Pode ser.

Apesar disso, deste lapso de tempo existir, pelo menos em suas canções. Lô está bem longe de ser um compositor/cantor banal. Seu registro vocal é vigoroso, melodioso, suas melodias e arranjos são herdeiros diretos daquele folk rock nacional do Clube da Esquina – que ele ajudou a moldar – e seu canto por uma existência em que as pessoas contemplam mais a lua, as estrelas, olham para o passado com carinho e reconhecem o valor de uma canção, de uma amizade, são valores de uma existência ideal que ainda cabe nos sonhos das pessoas. Sendo assim, por que não esperar que essas composições anunciem a chegada de tempos mais gentis? Não custa nada querer, pelo contrário.

“Rio da Lua” é marcado especialmente pela presença da parceria de Lô com Nelson Ângelo, outro participante do Clube da Esquina, mas que se tornou conhecido por sua associação com a cantora Joyce. Nelson escreveu a maioria das letras do disco e as enviou para Lô trabalhar as melodias, num processo que se iniciou por acaso, mas que acabou originando o próprio conceito e a realização do álbum. “O processo de composição do “Rio da Lua” foi uma novidade em dois aspectos. Inicialmente, foi a primeira vez em que compus com Nelson Angelo e também foi a primeira vez que musiquei letras. Em geral trabalho previamente a composição para depois o parceiro trabalhar na letra. Desta vez, foi o inverso. Outro aspecto inovador é que tudo foi feito através de troca dinâmica de mensagens digitais com o Nelson”, conta Lô.

A faixa-título, que abre o disco, é, na opinião de Lô, “sem precedentes na minha trajetória de compositor. Usei acordes que nunca havia usado ao longo da minha carreira; acordes inusitados que surpreenderam os músicos que gravaram o disco”. Por mais que isso seja verdade, o clima da canção – e do restante do repertório – é de resgate dessa vida contemplativa e gentil, na qual há tempo, vontade e espaço para a cordialidade e o afeto entre as pessoas. O primeiro single, “Em Outras Canções”, fala disso, sobre como resgatar essa forma de ver a vida como uma maneira de enfrentar os tempos difíceis nos quais estamos metidos. “Partimos” e “Além do Tempo” são outras canções que merecem destaque, primas nem tão distantes daquela safra maravilhosa do Clube da Esquina e dos primeiros discos solo que Lô gravou nos anos 1970.

Lô vai se apresentar em alguns lugares divulgando o repertório de “Rio da Lua”, junto com seus clássicos. Suas apresentações recentes, revendo suas canções do “Disco do Tênis” e do primeiro “Clube da Esquina”, seus discos de estreia, ambos de 1972, mostram um cara com disposição de mostrar sua obra para o máximo de gente e ciente da importância que adquiriu ao longo do tempo. Merece ser visto, valorizado e reverenciado como um dos grandes do nosso tempo.

Ouça primeiro: “Além do Tempo”.

Foto: Fred Magno

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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