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O lugar de Richard Ashcroft é no palco

 

 

 

 

Richard Ashcroft – Live Vol.1
82′, 13 faixas
(Virgin)

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

 

 

 

A importância do The Verve e, por tabela, de Richard Ashcroft para a música produzida na década de 1990 não reside apenas no sucesso comercial de “Urban Hymns” (1997), mas na introdução de uma carga de espiritualidade e introspecção que o britpop, muitas vezes mergulhado em ironia e referências estéticas superficiais, ignorava. À frente do The Verve, Ashcroft personificou a figura do compositor que buscava o transcendente em meio ao cotidiano, estabelecendo uma conexão emocional que poucos de seus contemporâneos conseguiram manter. “Live vol.1” chega como um documento dessa trajetória. Diferente de registros ao vivo que servem apenas como compilações de sucessos, este álbum se apresenta como uma análise da durabilidade dessas composições. O texto sonoro aqui é limpo e objetivo, revelando um artista que, passadas três décadas, não depende de artifícios de estúdio para sustentar a gravidade de sua entrega.

 

O ponto central de qualquer discussão sobre o legado de Ashcroft invariavelmente recai sobre “Bittersweet Symphony”. A canção, que por décadas esteve envolta em uma das disputas de direitos autorais mais célebres da indústria fonográfica, hoje existe sob uma nova ótica. Após a devolução dos créditos de autoria por parte de Mick Jagger e Keith Richards em 2019, a música deixou de ser um símbolo de perda financeira para se tornar a prova definitiva da resiliência criativa de Ashcroft. Neste disco, a versão de “Bittersweet Symphony” estende-se por mais de nove minutos. Não se trata de uma jam session indulgente ou de um prolongamento gratuito para entretenimento de arena. Essa duração expandida funciona como uma reivindicação de território. Ao permitir que a canção respire, cresça e se desdobre em um tempo muito superior ao formato radiofônico, Ashcroft reafirma a soberania da obra. É um exercício de autoridade sobre o próprio catálogo.

 

A transição para a carreira solo, representada no álbum por faixas como “A Song For The Lovers” e “Break The Night With Colour”, demonstra como Ashcroft refinou sua identidade para além da massa sonora do The Verve. Nessas execuções ao vivo, percebe-se um compositor que trocou o psicodelismo expansivo pela precisão melódica. Sua produção individual não é só um apêndice dos anos 1990, mas uma construção de um cancioneiro próprio que privilegia o soul e a estrutura clássica da canção, mantendo o vigor sem precisar recorrer ao mimetismo de sua antiga banda.

 

A inclusão de composições mais recentes, como “Out Of My Body” e a extensa versão de “Music Is Power”, reforça que seu processo criativo permanece em evolução. Essas faixas mostram um Ashcroft que dialoga com texturas modernas e ritmos mais assertivos, provando que sua relevância não é estática. Em Live vol.1, o material solo e os clássicos do Verve coexistem sem hierarquia; o que se ouve é a voz de um artista que compreende a música como um exercício de permanência, mantendo-se fiel à estética que o definiu sem se tornar refém dela. O álbum percorre outros momentos fundamentais, como “The Lucky Ones” e “Sonnet”, mas o faz com um distanciamento elegante, típico de quem já não precisa provar relevância, apenas exercê-la. A voz de Ashcroft, agora com texturas mais profundas, confere às letras uma sobriedade que o tempo se encarregou de consolidar. Como admirador do The Verve antes do sucesso mundial, sinto pessoalmente a falta de minhas gravações preferidas, “On Your Own” e “History”, ambas do álbum “A Northern Soul”. Se elas estivessem presentes aqui, a nota do álbum subiria.

 

“Live vol.1” é, portanto, um registro técnico e passional de um artista que compreende a música como um exercício de permanência, mantendo-se fiel à estética que o definiu sem se tornar refém dela.

 

 

Ouça primeiro: “Sonnet”, “Bittersweet Symphony”, “A Song For The Lovers”, “The Drugs Don’t Work”

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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