Lô Borges – Dínamo

 

 

Gênero: Rock, MPB

Duração: 32 min.
Faixas: 10
Produção: Lô Borges e Henrique Matheus
Gravadora: Deck

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

Sempre me surpreendo positivamente com Lô Borges. Além de compositor fluente e eternamente jovem, Lô é um artista que vive uma fase sensacional. Sua carreira, ainda que tenha iniciado no distante ano de 1972, quando lançou, em colaboração com Milton Nascimento, o seminal álbum “Clube da Esquina”, é mais intensa no século 21. Este novíssimo “Dínamo” já é o décimo-primeiro disco que ele lança desde 2001, sexto de material absolutamente original. Se levarmos em conta toda sua carreira, este é seu seu 15º álbum de inéditas. Nem bem terminou a divulgação de “Rio da Lua” — ótimo álbum composto em parceria com Nelson Angelo e lançado em abril de 2019 — Lô iniciou a gravação do novo registro. Seu parceiro nesta novíssima empreitada foi o poeta, compositor e violeiro piauiense Makely Ka, radicado há muitos anos em Belo Horizonte.

 

Lô conta que recebeu a primeira letra do novo parceiro via Whatsapp quando ainda estava fazendo show de divulgação do trabalho anterior. Como sempre foi um melodista fluido e eloquente, não demorou para que ele escrevesse a música e enviasse de volta. A partir daí teve início a parceria – inédita – entre os dois, que resultou em dez canções inéditas. Este troca-troca via aplicativo de conversa foi exatamente o meio utilizado por Lô e Nelson Ângelo na elaboração de “Rio da Lua”, e configura um propósito nobre para o Whatsapp em tempos de fake news. “Fiz 10 músicas em três meses. Toda semana chegavam letras, e aquelas que eu gostava mais eu passava para o meu caderno, com minha caligrafia. Então, eu pegava o violão, começava a inventar acordes e melodias e em 40 minutos já estava tudo pronto. Foi muito intuitivo”, declarou Lô.

 

O interessante nas canções do álbum é, justamente, a capacidade que Makely Ka tem de recuperar a verve lírica dos mineiros setentistas clássicos. Favorecido pelas melodias do parceiro, ele desenvolve várias letras que poderiam ser de um integrante sessentão do “Clube”, revisitando tempos idos e/ou refletindo gentilmente sobre a chegada da velhice. A abertura com “O Mundo Gira Sobre Si” já mostra o que o disco vai apresentar: a melodia familiar, típica de Lô, arranjos de piano, guitarra e percussão e uma letra que vem com belos versos: “eu vou descer o rio até a foz, pra mergulhar no mar, me consumir, o amor às vezes é o maior algoz, um animal feroz tentando nos ferir”. O single “Dínamo” traz a participação especial de Samuel Rosa, em meio a uma levada mais dinâmica e gentil, próxima do que seria um folk rock nacional, com pedigree, lembrando sempre as visões de fenômenos naturais no cotidiano – “céu azul”, “sol nasceu de madrugada”, uma “cidade abandonada”, uma das grandes virtudes da poesia mineira dos anos 1970.

 

Em “Apontando o Norte” há timbres e tonalidades que a colocam no mesmo hall de clássicos como “Vento de Maio” ou “Nuvem Cigana”. Na letra, o verso “eu conto com a sorte e só respondo por mim, um raio apontando o norte, entre o não e o sim”. “Quantos Janeiros” enfatiza o uso da percussão no álbum e exibe uma não-melancolia sobre o passar do tempo e a importância da memória, cutucando velhos clássicos em “eu já nem sei mais o seu nome, ou a cor do seu cabelo”. “Lava do Vesúvio” evoca os arranjos de piano, violão e voz, enquanto “Desvario”, apesar de se valer da mesma configuração, traz um clima de balada empoeirada que toca em programa de rádio FM do interior e faz a gente sorrir quando menos espera.

 

Este é o clima do novo disco de Lô. Por mais que ele seja um homem do seu tempo, escolha parceiros novos e velhos, sua poesia melódica vai sempre evocar as paisagens de um tempo mais gentil, mais amoroso, melhor, que a gente viveu ou não. É como se ele oferecesse, feliz, uma possibilidade de sorriso no meio do caos. E por isso ele merece toda a nossa atenção. Sempre.

 

Ouça primeiro: “Desvario”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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