Tiago Iorc – Reconstrução

Gênero: Pop, Folk
Duração: 52 min.
Faixas: 13
Produção: Tiago Iorc
Gravadora: Universal
3.5 out of 5 stars (3,5 / 5)

Rapaz, a vida não esteve fácil pra Tiago Iorc. O cantor paranaense alcançou fama insuspeita a partir da – justa – repercussão de seu disco “Troco Likes”, lançado em 2015. Com ele, Iorc fez a tal transição do meio independente, no qual transitava como um trovador folk urbano, para o mainstream, onde chegou como um “novo nome da MPB”, posto que lhe rendeu possibilidade de duetar com Milton Nascimento, aparições nos programas da grande mídia e a possibilidade de recomendar novos nomes para o cenário musical nacional, entre eles, o duo Anavitória. Tiago, sem mais aviso, sumiu das redes sociais em fevereiro de 2017. E voltou ontem, com um novo álbum, composto por 13 faixas, que servem de inspiração para 13 clipes. E ele lançou tudo isso sem o apoio de sua gravadora, a Universal Music, que disse, segundo O Globo, que não sabia nada sobre o processo de elaboração, composição e gravação do disco. Temos então, “Reconstrução”, este novo trabalho de Iorc, a essa altura, um “novo Belchior”, conforme consta em alguns lamentáveis círculos, porque o cara, a suposto exemplo do atormentado, endividado e depressivo Belchior, teria “sumido de cena” por dois anos, nos quais esteve em … Los Angeles. Repito: a vida não parece estar fácil para Iorc.

O conteúdo musical entregue por ele é muito próximo de “Troco Likes”. É um pop folk redondíssimo, ganchudo, bem arranjado e muito bem pensado. Sua voz é ótima, suas composições são boas, ou seja, o cara é, de fato, um nome acima da média que temos hoje no país, em termos de mainstream. Parece que, ao chegar no nível da divulgação em massa e na anuência com isso, os artistas são depurados de qualquer talento e imperfeição, o tal processo de “pasteurização” do qual falava a crítica musical lá nos anos 1980. Mesmo assim, Tiago não soa pasteurizado, seu trabalho modificou-se naturalmente para este parâmetro fluente em folk pop. É algo próximo de um, vejamos, Jack Johnson, sem a moldura musical bicho-grilo/surfista/havaiano/ecológico. Com Iorc a coisa é mais startupper/urbano/paulista/intelectual/descolado e isso funciona muito bem.

“Reconstrução” é um disco talvez um pouco longo demais. São 52 minutos para treze faixas, que se valem desse pop folk urbano bem feito. Os clipes ilustram o tema que une o disco em conceito: relacionamento e suas derivações. Amor, paixão, tesão, desilusão, solidão, depressão, tudo vai passando pelas imagens e pelas letras, com bons e maus momentos ao longo do caminho. Canções como “Tangerina”, por exemplo, caminham para abraçar um erotismo light e subentendido, que, se não for muito bem administrado, pode colocar a canção num plano caricato involuntário. Este é o caso de “Faz”, que tem ritmo eletrônico sutil e letra no mesmo nível, com vocais sussurrados, outro artifício de uso complexo, com versos questionáveis como “não precisa cena erótica, gosto de você neurótica e não fugaz, quero mais” ou “não precisa parlez français pra me deixar excitez”. Fala sério, né, Iorc?  Para enveredar por este caminho, é necessário um domínio que Iorc talvez ainda não tenha.

Tiago se sai bem naqueles momentos mais “fofos”. É o caso de “Nessa Paz Eu Vou”, na qual ele consegue resultados semelhantes às canções de “Troco Likes”. Faz mais sentido em versos como “posso te contar tudo o que sonhei um dia, tudo pra chegar até aqui”. Talvez ele seja um cantor do amor mais idealizado do que da neura urbana aplicada aos relacionamentos amorosos atuais. Este também é o caso de “Tua Caramassa” e de “Me Tira Pra Dançar”, que provam que Iorc não precisa ser ingênuo demais para soar mais adequado em sua métrica/poética sobre o amor.

Arrisco dizer que, mesmo sem o burburinho pelo sumiço e pelo lançamento sem aviso, “Reconstrução” seria saudado como um álbum interessante a ser ouvido. Tiago Iorc, de fato, ascendeu a uma nova posição no cenário musical nacional. Suas canções, como dissemos, têm ótimos achados melódicos e suas letras são interessantes, ainda que soem necessitadas de mais foco. De resto, nada de braçada no terreno do inexistente pop nacional mainstream de qualidade.

Ouça primeiro: “Me Tira Pra Dançar”.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

2 comentários em “Tiago Iorc – Reconstrução

  • 12 de junho de 2019 em 10:29
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    Se o Iorc é intelectual, não explica porque ele não é vegano igual o Jack Johnson. Você fez a comparação mas não tem nada a ver. Por exemplo, pessoa sofisticada e urbanizada como você descreveu o Iorc, perceberia a importância do veganismo e seu efeito no meio ambiente, nos animais e nas questões de direitos humanos. Ele quer se desligar da mídia social porque esgotou de falar sobre si e não tem nenhuma mensagem maior sobre assuntos além dele mesmo. Porque ele não deletou a conta no IG? O cúmulo do narcisismo é colocar uma única imagem de si mesmo e não interagir com o público. Ninguém percebeu ainda que o Iorc está sem site e o domínio dele está a venda por US$4mil. Pelo jeito ele esqueceu de renovar or registro. A música Deitada nesta cama é uma cópia do estilo de Fábio Goés e Nessa paz eu vou do Joãomar. As canções não soam para mim como sinceras e autênticas e sim como comerciais.

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    • 13 de junho de 2019 em 11:00
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      Correção: Jack Johnson é vegetariano e também é um ativista ambiental.

      Acontece que artistas como por exemplo, Ana Cañas, que é vegetariana, usa sua influência na mídia social para o seu ativismo nas áreas como: política, feminismo, direitos dos animais, etc.

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