Kursk – A Última Missão

 

Existe um clichê nos filmes ocidentais sobre a União Soviética: mostrar o país como um grande terreno baldio, cheio de burocratas, que sacrificou tudo e todos para disputar uma corrida armamentista com os Estados Unidos. Esta grande ousadia não é perdoada. Sendo assim, de tempos em tempos, surgem produções para o cinema e para a TV, mostrando a antiga URSS em estado precário e quase incompatível com o mundo. Quando não é desse jeito, a Rússia, herdeira territorial e política mais importante do velho grupo de repúblicas socialistas soviéticas, é mostrada como vilã ou como um elefante desajeitado, mas armado com mísseis nucleares. O ótimo “Kursk” não escapa deste estigma, mas vai muito além em termos de predicados e qualidades.

 

Dirigido por Thomas Vinterberg, um dos participantes do Dogma 95, “Kursk” é baseado no livro de Robert Moore, um jornalista americano que cobriu a queda da URSS e as guerras da Chechênia e do Kosovo, ou seja, é um filme que se dispõe a contar a tragédia ocorrida com o submarino russo com um viés absolutamente comprometido com um propósito. Sendo assim, é recomendável deixar de lado o inerente tom depreciativo – e constante – adotado em relação à marinha russa – e se ater aos méritos cinematográficos do longa, uma vez que eles existem em bom número.

 

O primeiro deles é a atuação de Lea Seydoux, como Tanya, esposa do oficial Mikhail Averin, um dos tripulantes do submarino. Sofrida, indignada e com força para descobrir o mistério sobre o que teria, de fato, acontecido com o Kursk. Outro ponto positivo: a tentativa de retratar o clima de camaradagem entre os oficiais do submarino, algo que vai além da confusão anabolizada de sempre. Os sujeitos são amigos, suas famílias vivem na mesma cidade litorânea e a existência da base militar é um prolongamento de suas vidas. Avôs, pais, filhos e netos são criados naquele lugar com o objetivo de perpetuar uma tradição familiar de servir ao país na marinha, num misto de patriotismo e falta de opção. Fechando a trinca, Colin Firth, como um comodoro britânico, surge como sua habitual sobriedade.

 

A própria direção de Vinterberg é boa para garantir boas sequências, especialmente as claustrofóbicas cenas dentro do submarino. Curioso notar que o diretor dinamarquês, conhecido por sua posição de vanguarda e oposição ao “cinemão hollywoodiano”, faz exatamente um longa dentro deste esquema. Só que é um erro rotular “Kursk” como mais um integrante da família de filmes sobre submarinos, como “Outubro Vermelho”, “Maré Vermelha” ou “K-19”, curiosamente, todos com russos envolvidos e causando problemas. “Kursk” tem no viés da veracidade do ocorrido um trunfo que poderia ser melhor utilizado.

 

A postura do governo russo não é poupada e as ofertas de resgate de países da OTAN, especialmente Noruega e Inglaterra, são colocadas como inequívocos gestos de boa vontade e solidariedade. Fico me perguntando se estes governos seriam tão abertos se os russos se oferecessem para ajudar no resgate de uma tripulação afundada num submarino nuclear de última geração, caso do “Kursk”, que era famoso por sua capacidade de navegação furtiva e seu absoluto silêncio no mar. Fica a dúvida.

 

Como entretenimento, “Kursk” é ótimo. Como tradutor dos fatos ocorridos, talvez ele necessite de uma contrapartida russa sobre o que realmente aconteceu. O que é triste, em ambos os casos, é a tragédia, a qual não pode ser apagada dos livros de História.

Kursk
Bélgica, Luxemburgo, França
De: Thomas Vinterberg
Com: Matthias Schoenaerts, Léa Seydoux, Colin Firth

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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