Teenage Fanclub volta ao Rio 14 anos depois

Teenage Fanclub – Circo Voador, 03 de setembro de 2025
Foi no dia 12 de maio de 2011, uma quinta-feira, que o Teenage Fanclub fez, até então, o seu único show no Rio. Relatos desse dia dão conta de uma plateia enlouquecida com a presença da banda em solo carioca, gente que esperou a vida inteira para ver Norman Blake, Gerard Love, Raymond McGinley e Francis McDonald frente a frente. No repertório do show, clássicos de todos os tamanhos e estaturas deram as notas para uma noite inesquecível. E eu, bem, eu não fui. Foi um ano difícil, com problemas de saúde na família, foco em outras coisas e aquele sentimento de, “bem, perdi, fica pra próxima, se houver”. E não é que houve? Ontem, dia 03 de setembro de 2025, mais de quatorze anos depois, eu pude comparecer a mais uma apresentação do Teenage Fanclub no Rio. A segunda da história. E no mesmo lugar: o querido Circo Voador, certamente um dos palcos mais legais do país, o mais apropriado a este tipo de show. Porque o Teenage Fanclub vive um dos paradoxos mais doces do rock: é uma banda de alcance mundial, com uma carreira de ultrapassa os trinta anos e um público fiel, mas nunca foi uma banda “grande”. Não em termos e medições capitalistas de fama, fortuna e consequente loucura. A história lhe conferiu o status de banda querida, amiga, que é como seu público a enxerga. É uma relação profunda e sentimental, forjada somente com o tempo e com circunstâncias específicas. Ouvir e gostar das músicas dos caras só é possível dessa forma. Não tem “fã médio” ou “ouvinte casual” do Teenage. Ou você é, ou não é.
E nós somos, há muito, muito tempo. Aqui na Célula tem um monte de textos, resenhas e pensatas sobre a existência dos escoceses e sobre como se constituíram memória afetiva e sonora ao longo do tempo que os conheço e ouço. Remonta a algum ponto de 1993, quando caiu nas minhas mãos o segundo disco deles, “Bandwagonesque” (1991), quase ao mesmo tempo em que o terceiro, “Thirteen”, era lançado. Constatei algo muito peculiar: o TFC, misto de peso grunge da época com a atemporal referência de Beatles, Byrds e Big Star, respondia àquela equação impossível – dá pra gente falar de amor com sinceridade sem resvalar na baba total de baladas descartáveis. A resposta para isso, transmutada no nosso próprio trânsito afetivo real, foi um ticket sem volta para amar o grupo naquele início de anos 1990. E isso nunca diminuiu. Pelo contrário. À medida que ficamos mais velhos, sabidos e, talvez, experientes, esta lição de simplicidade + afeto se tornou mais e mais poderosa. Some-se a isso a habilidade master plus ultra de Blake e Love em transmutar tudo em canções feitas em laboratório, cheias de acordes, coros, melodias sublimes, perfeitas, inestimáveis e você tem essa sensação forte de permanência ao longo do tempo. E como o tempo só faz acelerar, qualquer oportunidade para descer do trem e ganhar fôlego é imperdível. Teenage Fanclub também é isso.
Mas há um porém nessa trajetória dourada. Em 2019, após um desentendimento sobre logística de turnês e outras questões, Gerard Love deixou o grupo após trinta anos. Em seu lugar veio o baixista Dave McGowan e, de quebra, o tecladista e vocalista galês Euros Childs, que liderou uma banda bacaníssima chamada Gorky’s Zygotic Mynci durante um bom tempo. Como a partida de Love não foi das mais tranquilas, ele deixou o grupo e levou consigo suas composições. Ou seja, o Teenage pós-2019 não toca mais canções de Gerard Love e aí, meus queridos e queridas, o bicho pega. E pega forte. Porque a maioria dos clássicos incontestáveis e inquestionáveis da banda são dele. Coisas como “Sparky’s Dream”, “Hang On”, “Gene Clark”, “Don’t Look Back”, “Discolite”, “Ain’t That Enough”, “I Need Direction”, “Save”, “Sometimes I Don’t Need To Believe In Anything”, que estão na minha lista pessoal de canções mais queridas da banda desde a morte dos dinossauros. Sendo assim, o que o Teenage Fanclub apresentou no dia 03 de setembro e o que apresentará no dia 04, quando o grupo toca em São Paulo, é um repertório que, sim, tem espaço para várias canções douradas, mas que não traz o maná, o creme, a nata de seu cardápio.
Mesmo assim, é uma experiência inesquecível. Norman Blake, baixinho e gordinho, parece um professor de escola do nível médio. McGinley, outrora cabeludo, está completamente careca, assim como McGowan, que usa um boné enterrado. McDonald, um senhor circunspecto, é baterista mamútico, daqueles que não têm muita variação mas que segura o andamento como se fosse um relógio. E Euros Childs, escondido atrás do teclado, parece filho deles. Esta engrenagem constitui aquele tipo de músico que não precisa de roteiro. Os caras tocam tudo no amor e na telepatia. Não há qualquer dissonância ou desconcerto, tudo é bem azeitado e capaz de emocionar. A felicidade dos caras é palpável e, diante da restrição imposta pela saída de Love, eles vão tocando lindezas de todos os tempos. Há canções bem recentes, vindas dos dois bons discos “Endless Arcade” (2021) e “Nothing Lasts Forever” (2023) (ambos resenhados aqui e aqui), que são inegavelmente pertencentes à lógica sonora do grupo. Sem aviso ou ordem pré-estabelecida, vão entrando canções antigas como “Alcoholiday” (1991) e “I Don’t Want Control Of You” (1997). Uma delas, “Metal Baby”, outra de 1991, é o primeiro momento de amor total e incondicional entre plateia e banda, algo que irá se repetir com outra canção da época, “What You Do To Me” e com “Neil Jung”, uma lindeza pinçada de “Grand Prix”, o magistral álbum de 1995.
Outras duas canções noventistas marcam momentos importantes: “The Concept”, mais uma de “Bandwagonesque”, de 1991, anuncia o momento que, segundo Norman: “a gente mente, fingindo que o show está acabando. Daí a gente vai embora e volta para mais algumas canções”. E essass últimas músicas se encerram com “Everything Flows” seu primeiro single, presente no primeiríssimo álbum, “Catholic Education”, quando o Teenage Fanclub era, por assim dizer, um primo grunge amoroso das bandas de Seattle. Pois é, teve isso. No fim, público – que poderia ser maior – e banda se despedem e partem para mais tempo separados. Há lugares do mundo em que apresentações do grupo são bem frequentes, por exemplo, na semana passada, estavam excursionando por cidades no interior da Inglaterra. O que quero dizer com isso é que essa saudade gerada pela distância e pela logística é mais um elemento que tempera essa relação além da música, além do som que temos com o Teenage Fanclub. À medida que o tempo passa, tudo fica mais forte.
PS: Sobre Gerard Love, ele tem um disco lindo, lançado em 2012, chamado “Electric Cables”, com o nome de “Lightships”. O cara segue na ativa, tocando canções deste álbuns e seus clássicos do TFC. Vale acompanhá-lo porque, segundo consta, vem disco novo por aí e a gente vai te contar, claro.
Fotos: Patti Burlamaqui e Jonas Conceição
Setlist – Teenage Fanclub – Circo Voador, 03 de setembro de 2025
Tired of Being Alone (2023)
About You (1995)
Endless Arcade (2021)
The Cabbage (1993)
Alcoholiday (1991)
I Don’t Want Control of You(1997)
Everything Is Falling Apart (2021)
120 Mins (1993)
It’s All in My Mind (2005)
Metal Baby (1991)
It’s a Bad World (1997)
What You Do to Me (1991)
Come With Me (2021)
Neil Jung (1995)
Middle of My Mind (2023)
I’m in Love (2016)
The World’ll Be OK (2003)
The Concept (1991)
Mellow Doubt(1995)
Back in the Day (2021)
Falling into the Sun (2023)
Everything Flows (1996)

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Imagina eu que sem querer vi um show deles quando só tinha o Catholic Education . Quem é velho?
Hoje vou de novo em SP.