Jesus quer vacina no país dos maricas

 

Vamos logo falando o que deve ser dito. A barra está pesando para cima do senador flávio bolsonaro. Em um país sério, ele já deveria ter sido afastado do cargo, julgado e preso por crime de corrupção e demais variações do referido delito por conta da rachadinha entre funcionários de seu gabinete quando era deputado federal. Tais roubos se transformaram em imóveis e todos os tipos de propina. Além disso, da obviedade de sua culpa e necessidade constitucional de sua punição, o país, sentimos e sabemos todos, não vai bem. Isolado, achincalhado internacionalmente, conspurcado por esta hoste de gente inacreditável, que enxerga com olhos sequelados o poder e sua gerência. À frente deles todos, jair bolsonaro, o burrista.

 

Com auxílio luxuoso – e caro – de gente como steve bannon e outros profissionais da dissimulação midiática, as pessoas que gerem a presença desta gente no governo brasileiro já sabem há tempos que, para desviar os olhos do que realmente importa, o melhor é fazer declarações bombásticas na imprensa. Numa era de cliques e likes, pouco importa o grau do absurdo que é dito, basta apenas que alguém assine, compre, dê aval para o veículo e tudo bem. Além disso, é bom falar sobre o que não importa realmente, no caso, sobre a declaração que o ocupante da presidência fez ontem, dizendo que o Brasil é um país de maricas, frase mencionada por conta do desejo pela chegada da vacina contra o coronavírus. Mais cedo, o mesmo indivíduo já havia comemorado a decisão da Anvisa de barrar o uso da Coronavac no país, fato celebrado com uma declaração em forma de bravata contra o governador de São Paulo, joão dória.

 

E mais tarde, veio a declaração sobre a fala do presidente americano eleito, Joe Biden, sobre as sanções que imporia ao governo brasileiro por conta do descaso e inoperância diante das queimadas na Amazônia e no Pantanal. “Se a saliva acabar, tem a pólvora”, numa alusão ao uso da força militar para defender a região. Lembro de uma brincadeira que eu fazia na sétima ou oitava série com meus amigos nerds no colégio, mna qual a gente – fã de aviões de combate – simulava uma guerra entre Brasil e Estados Unidos e sempre terminava em escárnio e gargalhadas homéricas. Um porta-aviões de médio porte da Marinha dos Estados Unidos é suficiente para acabar com todo o efetivo de caças da FAB.

 

Não é mais fácil falar destes fatos, por mais absurdos que sejam, do que ter que responder sobre a inflação, os problemas judiciais do filho ou o péssimo desempenho do país em meio à pandemia? Claro que é. Desemprego recorde, desvalorização histórica do real, queda nas exportações, aumentos astronômicos de bens alimentícios, enfim, um cenário caótico que só espanta quem foi engrupido por uma candidatura que fez camapanha em 2018 sem apresentar uma única promessa sobre qualquer coisa. Nada. Era um tal de “prender os corruptos”, “metralhar os petistas” e por aí foi. Deu no que deu.

 

 

Mas há um subtexto na declaração/obsessão do burrista pela sensibilidade. Chamar de “maricas” quem tem medo de ficar doente – e morrer – é típico daquele tipo de gente que não enxerga outra maneira de lidar com as coisas que não seja na base da truculência, da violência. Nada de cuidado, de carinho, o certo é sofrer sempre que necessário, claro, desde que não sejam ele ou um dos seus excessivos filhos. Quantas vezes a gente já não ouviu que “homem não chora” e outras besteiras? Vem daí, desta mentalidade.

 

Enquanto isso, estamos no final da fila para a vacinação contra a pandemia. Quem vai querer ter sua imagem associada à do Brasil?

 

 

E por que essa gente continua no poder?

 

Porque, apesar de todo o escárnio diário, eles estão cumprindo a missão que lhes foi passada pelo sistema financeiro internacional, que é neutralizar possibilidade de ascensão do Brasil a um patamar de player no cenário mundial. A ideia é que sejamos este imenso terreno baldio, sem luz, sem água, sem esgoto, no qual o povo ainda acha sensacional tudo que vem de fora. Enquanto isso for a regra, estaremos prisioneiros desta gente e de quem realmente manda por aqui. Mesmo que isso custe as nossas vidas.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

2 thoughts on “Jesus quer vacina no país dos maricas

  • 11 de novembro de 2020 em 12:18
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    Eu confesso que estou bem pessimista, meu caro. Vamos tocando. Obrigado pelo comentário.

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  • 11 de novembro de 2020 em 12:15
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    É, meu caro Cel, tudo bem dito como sempre o faz. E, agora? Para além da reflexão o que sobrará disso tudo aqui? Entre altos e baixos, perdas e dores deste ano terrível, excelente reflexão.
    Não quero ser pessimista, nem excessivamente esperançoso, mas, como desejo que isso tudo passe logo.
    Ainda bem que existe a arte!
    Sigamos!

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    Resposta

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