Pedro Laureano – Esperas

 

 

Gênero: Alternativo

Duração: 33 min.
Faixas: 9
Produção: Pedro Sá
Gravadora: Independente/Tratore

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

A música pra mim sempre foi um terapia, sentir as histórias cantadas e envolvidas por sonoridades com a capacidade de nos transportar é uma das mágicas da existência. Pedro Sobrino Laureano, ou apenas Pedro Laureano, presenteia o público com essa coletânea de experiências, imaginações e intenções em Esperas, seu álbum cheio recentemente lançado. Cantor e compositor carioca, ele também é doutor em Psicologia Clínica, professor, pesquisador e faz de suas experimentações um livro musicado composto por 9 belas faixas produzidas por Pedro Sá.

 

Esperas não é a primeira gravação do artista, em 2018 ele lançou um EP com produção de Antonia Adnet, no qual cantava apenas uma faixa. Neste disco de estreia, Pedro traz suas histórias, imaginações e tudo que cerca nossa vida cotidiana. Neste álbum podemos esperar um grande passeio pelas reflexões sobre os temas atemporais como as relações sociais, otimismo, intimidade e um tom filosofal. É um disco para fazer a casa e se deixar aconchegar. E nessa convergência de temáticas, é possível encontrar uma mistura muito bem temperada de de MPB, samba, maxixe, rock e música erudita. Confia, o caldo é saboroso. “Moreno” abre o trabalho e me puxou para refletir sobre a partida de alguém que foi para o lado de lá, de onde ninguém mais volta. É lenta, melancólica e linda.

Moreno eu e vejo partir
Para onde eu não posso seguir
Um dia quem sabe
De tanta saudade
Moreno seu nome será também carne
Deixa eu enfeitar
Para te esperar
Moreno me chama
Pra dentro da cama
No mar.

 

Um choro meio maxixe dá sequência em “Desassossego”, uma faixa que transita entre Chico e Caetano com um tom sutil de crítica social em relação ao cenário político. Em três partes, a faixa nos convida a sair da coberta quente e cômoda, a desassossegar.

Que a vida hoje escapa pelas frestas
E segue crescendo
E se liberta
E algum pensamento nos conduz
Na noite ainda brilha alguma luz
E o tempo que correr
Enquanto se dorme
Não vai mais voltar

 

A música que me pegou de jeito vem na sequência:  “Barco de Papel” é delicada e profunda, como a água morna que chega à beira da lagoa. Zé Ibarra participa desta faixa que tem uma guitarra cintilante, elementos do progressivo e um baixo marcante e um clima que remete meio Lô Borges e o pessoal de Minas Gerais. Impossível não se envolver com os versos que falam sobre procura e repetição dos ciclos da vida.

Afinal
Dessa viagem será que ele chega?
Pra além de toda dor, toda incerteza
O que quer encontrar?
Como um barco de papel
Atravessa todo céu
Quando chegar, será que vai se encontrar?
Caminhos de anos-luz
A viagem me conduz
De volta ao lar
A mesma casa ele vê

 

Otimista e embalada, “Tudo Vai Passar” carrega um riff de guitarra mais pesado, é um samba rock bem feito que fala sobre a nossa postura frente ao tempo. Afinal, tudo acaba, tudo se acaba no agora que já foi na nossa eterna busca pelo futuro ou quando paramos no “se”. Mas não se precipite, é positiva e convida à vida e ao presente.

O que nunca chega
O que vem antes
O que não se vê
Mas já está
Tudo vai passar
O tédio do feriado
A conta que nunca quer fechar

 

 

Mas nem só de otimismo vivemos, não é mesmo? Quem ainda não se questionou sobre estar ou não em um filme de Lars Von Trier ou um livro de Albert Camus não viveu 2020. Distorções e elementos do rock envolvem “Será que eu Sigo?” Com Airto Lindsay, a quinta faixa questiona nossa época. É a letra que se aplica a tudo que estamos vivendo, sobrevivendo, enfrentando.

O retorno de tiranos
Anunciado nos jornais
Eu vi homens se queimando
Em plena praça da cidade
E a ilusao tomando
Conta da realidade
Ou será que eu me engano
Ou tudo era só miragem?

 

É o fim também segue um tom político e é tão atual como usar máscara. É sobre as fronteiras criadas para afastar o “outro”, o diferente, o que causa “medo” e oferece perigo. É a faixa mais pesada, que usa uma guitarra mais soturna para falar sobre o fascismo do nosso tempo a partir de alegorias muito bem elaboradas. É sobre esses covardes fanáticos e assassinos vestidos de heróis ou messias.

Um dia entram em tua casa
Te levam a vida e a palavra
E de repente
Chegam como uma serpente
Enroscada em seu pescoço
E não tem rosto
[..]
A boca cheia de mentiras
Os olhos tortos de temor e ira
O punho arregalado pra matar
São perigosos, imbecis
Quando dormem sonham com fuzis
Odeiam o que sabe se afirmar.

 

Pedro Laureano vai equilibrando o trabalho, um pouco de pessimismo fundado na realidade e um pouco de otimismo, baseado na nossa alma que insiste em ser esperançosa. “Onda Nova” vem com essa vontade de alegria na sua mais original interpretação. É procurar resistir a partir da arte, da demonstração de felicidade, de uma postura construtiva frente a vida. Um samba que serve um chá de afeição , que se nega a inverter o riso largo e a esperança por dias com mais cores. É um alívio às nossas dores, é sobre colocar a roupa mais bonita e ir dançar mesmo sem seguir o ritmo da canção tocada.

 

Penúltima faixa é sobre ser pai. “João” é para o filho de Pedro e traz na letra a construção da paternidade. Uma balada sobre a transformação, dúvidas e a certeza que cercam o nascimento de um ser. Título que dá nome ao disco Esperas conta com a participação de Jonas Sá e traz consigo um brilho setentista. A letra mais poética do álbum, a faixa fala sobre o tempo, a chegada e a espera, o que vem depois do sonho, da viagem, do expiar? Tempo, tempo, o dono de toda nossa rotina.

 

“Esperas” é um disco para voar, mergulhar, deixar secar e respirar. Mistura elementos líricos com a realidade e o imaginário necessário à nossa vida. Com diferentes sonoridades, Pedro Laureano se mostra um músico fiel às suas influências e vivências. Vale cada palavra e arranjo do início ao fim.

 

Foto: Uirá Fornaciari

 

Ouça primeiro: “Barco de Papel” e “É o Fim”.

 

 

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Ariana de Oliveira

Ariana de Oliveira é canhota de esquerda, Cientista Social, estudante de Jornalismo e comunicadora da Rádio Univates FM. Sobre preferências: vai dos clássicos aos alternativos.

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