Gal Costa 75 – Fantasia

 

 

Quando este escriba tinha uns dez, onze anos de idade, lá na entrada da década de 1980, era hábito comum vasculhar os LPs que ocupavam um bom lugar na estante do aparelho de som da sala. Era uma vitrola Philco, mas daquelas automáticas, com caixas de som enormes, de madeira e com uma potência razoável, pelo menos para meus ouvidos ainda pouco informados sobre detalhes e dados técnicos. Minha mãe tinha discos dos baianos – Caetano, Bethânia, Gal Costa, quase nada de Gil – e de Chico Buarque. Também era fácil encontrar álbuns de Ney Matogrosso e Simone. Meu avô tinha uma coleção de discos de Roberto Carlos. Da minha parte, umas poucas coletâneas de sucessos, trilhas sonoras de novelas globais e o primeiro compacto que comprara: Goodnight Tonight, com Paul McCartney e Wings. Eram frequentes as incursões nos álbuns da minha mãe, que me possibilitaram adquirir familiaridade com aquele pessoal de quem ela tanto gostava. Gal Costa era uma presença marcante no seu lado da estante. Lembro de ver discos sensacionais da cantora baiana nos anos 1970, mais precisamente, Água Viva (1978), Tropical (1979) e Aquarela do Brasil (1980).

 

Era uma guinada na carreira da cantora, em busca de uma identidade nova, dentro da lógica da música brasileira daquela década. Gal, já trintona, procurava seduzir uma plateia mais ampla que a da Tropicália, sua origem, a qual fora devidamente desmantelada pela ação da ditadura militar, principalmente no exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Gal ficou aqui, gravou álbuns memoráveis, mas precisava encontrar seu lugar. Seus trabalhos a partir de 1978 refletem a cantora encontrando sua posição e procurando solidificá-la. Se abriu mão do Rock e da postura mais contestadora do início da carreira, Gal abraçou uma música popular esteticamente bela, de bom pedigree, muito bem produzida no estúdio e abastecida pela produção dos grandes compositores então em atividade. Ela continuaria a colaborar com Caetano e Gil – em 1976 gravara Doces Bárbaros, um álbum duplo, com ambos e Maria Bethânia – mas agora havia espaço para mais gente. Assim como Elis Regina, a outra grande cantora do Brasil em todos os tempos, ter uma música gravada por Gal Costa era uma grande vitrine e um carimbo de qualidade inestimável para qualquer canção.

 

Fantasia, lançado em 1981, era a continuidade deste processo. Contando com a produção de Mariozinho Rocha, presença de arranjadores como Lincoln Olivetti e Gilson Peranzetta, além de um polpudo orçamento da Philips, Gal deu sequência à carreira. O álbum vinha como consequência de uma turnê nacional com o mesmo nome, na qual Gal viajara o país inteiro com uma estrutura à la Broadway, com dançarinos, figurinos mil, músicos de várias procedências. Mesmo com o resultado não sendo o esperado, havia grande expectativa pelo lançamento do disco. Logo Meu Bem, Meu Mal, de Caetano, foi parar na trilha sonora da novela Brilhante e nos primeiros lugares das paradas de sucesso nacionais. O compositor baiano também assinava o frevo Massa Real, a bela balada Tapete Mágico e a brilhante adaptação do poema O Amor, do russo Vladimir Maiakovski. Outro frevo do disco chegou ao topo das listas de mais executadas no país: Festa Do Interior, de Moraes Moreira e Abel Silva. Gal também registrara uma versão em pé de igualdade com o original de Faltando Um Pedaço, uma das mais belas criações de Djavan, além de outra canção festiva, Roda Baiana (Ivan Lins e Vitor Martins) e a impressionante Estrela, Estrela, de um pós-adolescente Vitor Ramil, irmão mais novo de Kleiton e Kledir, que já faziam sucesso nacional na época.

 

Gal, que completa 75 anos hoje, dia 26 de setembro, ainda permaneceria na gravadora Phillips no álbum seguinte, Minha Voz (1982) e em Baby Gal (1983), para iniciar uma fase ainda mais Pop na RCA/BMG. Seus discos contavam com todas as ferramentas de excelência disponíveis na indústria musical brasileira da época e trouxeram gravações sensacionais em todos os momentos. Sua fase “adulta”, da qual Fantasia é um expoente de excelência, é pouco lembrada e merece uma reavaliação urgente. Ouvir um disco desses em pleno 2020 nos faz pensar em como era possível reunir tantas influências e indicativos de qualidade em trabalhos que surgiam com periodicidade quase sempre anual. Ele foi relançado em versão CD remasterizado no início dos anos 2000, como integrante da caixa Gal Total, que está fora de catálogo. E está disponível no seu serviço de streaming mais próximo. Corre pra ouvir.

 

 

Texto originalmente publicado no Monkeybuzz em 29 de setembro de 2014 – link aqui

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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