Angel Olsen – Whole New Mess

 

Gênero: Folk alternativo

Duração: 42 min.
Faixas: 11
Produção: Phil Elverum e Nicholas Wilbur
Gravadora: Jagjaguwar

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

Ano passado Angel Olsen lançou um disco chamado “All Mirrors”, gravado numa igreja com vários instrumentos de orquestra. O resultado foi impressionante e a cantora/compositora do Missouri se viu alçada a uma fama internacional que ainda não havia alcançado. A origem de Angel é o folk com ares lo-fi, fato que justifica a explica a chegada desse “Whole New Mess”, uma versão desplugada, despida, stripped down de nove das onze canções do disco de 2019, contando apenas com a cantora e seu violão, além de alguns efeitos aqui e ali. O neófito pode pensar em algo meio picareta, uma vez que seria “mais fácil” entregar um “disco de demos”, mas a parada aqui é outra: Angel, de fato, regravou as canções e lhes deu um significado diferente dos originais. Mais ainda: entregou duas novas faixas, que já chegam dentro deste novo contexto.

 

Se você ainda não conhece a obra de Angel Olsen, recomendo uma pequena desintoxicação do mundo que te cerca. A voz da cantora parece um elemento frágil da natureza, mas apenas parece. Sua força é fina, como gelo, corta, vara distâncias, misturando palavras ao dedilhado do violão, numa experiência diferente. Não é música pra se ouvir a qualquer hora, como coadjuvante. Ela pede, exige atenção. O violão que Angel usa para acompanhar-se tem um som estranho, meio esparso, quase desafinado, mas, se levarmos em conta a estranheza acústica em meio ao caos tecnológico do cotidiano, quase dá pra relativizar sem maiores esforços. O som que sai da caixinha de som/fone de ouvido não tem lugar, não tem época, é algo que parece ter sempre existido, ainda que você não soubesse. Ainda.

 

A faixa-título abre os trabalhos e é uma das inéditas. A melodia e a voz de Olsen se unem como se fossem partes de um mantra. O violão está lá, estranho, agudo. O registro vocal é finíssimo, mas, de alguma forma, me lembra Grant-Lee Phillips, só que mais, muito mais fino. A letra fala de redescoberta, retorno, entrar no escuro para encontrar a luz. “Too Easy (Bigger Than Us)” tem acenos pra um country-folk setentista, mas também dá um beijo na mão de Kate Bush. O que era agudo antes, agora é grave, estranhamente grave em “(New Love) Cassette”. Outra vez há ecos de Phillips e de um disco abandonado do Grant Lee Buffalo, gravado de madrugada, mas deve ser uma comparação malfeita. “(We Are All Mirrors)” tem a mesma força de uma PJ Harvey, mas de um outro jeito completamente distinto. É algo que vai subindo, se instalando na paisagem sonora onde você está. “Waving, Smiling” é outra lindeza, com um dedilhado de guitarra que sugere alguma revisita inesperada aos anos 1950, de um jeito que é complicado de explicar, melhor ouvir.

 

A força real – no sentido físico – de Angel Olsen dá as caras numa impressionante “Lark Song”, que começa soturna, murmurada, balbuciada, mas que vai crescendo, fugindo do controle, até que a moça vem e solta esses versos, sobre o dilema mais antigo do mundo, conhecido como amor:

Hiding out inside my head

It’s me again, it’s no surprise

I’m on my own now

Every time I turn to you

I see the past, it’s all that lasts

And all I know how

Learn to look me in the eyes

Yet I still don’t feel it’s me you’re facing

Say your heart is always mine

What about old times? You can’t erase them

 

E essa força se transforma em lirismo sob a luz das estrelas em “Chance (Forever Love)”, que é mais uma dessas canções que assumem forma de conhecimento antigo, de domínio público, mas que, de um jeito estranho e meio desconcertante, a gente só passa a saber da existência agora. Lembra Roy Orbison, caso dele fosse uma mulher de 30 anos. Sim, é por aí.

Angel Olsen não é para todas as horas. Ouça este disco à noite, quieto/a/x, pensando na vida, imaginando planos, revendo amigos. O efeito será devastador, no melhor dos sentidos.

 

Ouça: “Chance (Forever Love)”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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