“Jagged Little Pill”, 25 anos.

 

 

Não seria exagero olhar para a década de 1990 e pensar em Alanis Morissette como uma das mais importantes artistas surgidas nela. A canadense praticamente debutou diante do mundo em 1995, expondo sua intimidade em meio a um momento em que a sinceridade podia significar riscos altos. Aparentemente sem defesa, ela soltou sua – pouca – voz num disco que reunia atributos para agradar várias audiências. Tinha letras fortes, boas canções, uma vocalista carismática, um bom produtor e bom tino para produzir clipes, dominando a linguagem reinante da MTV. O resultado veio na forma de mais de 30 milhões de cópias vendidas até meados dos anos 2010, resultando num dos trabalhos mais eficientes daqueles tempos das gravadoras e do fim do século passado. “Jagged Little Pill” é um álbum que tem identidade própria e serviu como uma bem-vinda iniciação das mulheres em temas como empoderamento, afirmação e um monte de outras instâncias que, tristemente, ainda estão em processo de conquista e entendimento por parte delas e dos homens.

 

Alanis Morissette já tinha lançado dois álbuns quando “Jagged Little Pill” viu a luz do mundo. Começou cedo, no seu Canadá local, como uma artista meio teen, meio paquita, meio Debbie Gibson, algo que não funcionou fora de um nicho bem específico de público. E nem durou tanto tempo, o que forçou a moça a repaginar completamente seus temas. Com a cara e a coragem e apenas 21 anos, Alanis deixou Ottawa e foi atrás do produtor Glen Ballard, que já tinha trabalhado com Michael Jackson e Paula Abdul, entre outros. O sujeito enxergou talento e determinação necessárias na moça a ponto de recebê-la em seu estúdio. Mais ainda: Ballard topou produzir e compor as canções com Alanis. Entre 1994 e 1995, o álbum foi tomando forma e conteúdo, até surgir em 13 de junho, puxado pelo single “You Oughta Know”, que trazia a presença de Flea e Dave Navarro, então no Red Hot Chili Peppers. Na banda escalada para acompanhar Alanis em estúdio e ao vivo, estava Taylor Hawkins, futuro baterista do Foo Fighters.

 

A julgar por estas informações, fica claro que “Jagged Little Pill” tinha uma roupagem que servia em fãs mais casuais do rock alternativo da época, bem como poderia bater uma bola de qualidade entre os admiradores do pop, uma vez que trazia vários momentos em que programações de bateria e detalhes de eletrônica leve/levíssima são ouvidos. A pouca voz de Alanis foi usada a seu favor, transformada em esforço, em sofreguidão para falar o que ela precisava. E as letras disparavam contra machos idiotas que haviam ficado no caminho da menina. Sobrou pra ex-namorados, pais superprotetores, donos de gravadora machistas, chefes abusivos, um monte de “homem fazendo homice”, como diz uma amiga querida. Não por acaso, “Jagged Little Pill” seria lançado pela Maverick Records, selo pertencente a uma certa Madonna.

 

As canções presentes aqui são eficientes. “You Oughta Know” é uma das mais raivosas manifestações contra um ex-namorado, enumerando várias situações em que o sujeito trai a confiança, joga no lixo um monte de situações que deveriam ter valor. “You Learn” é um pequeno rosário de experiências que a própria Alanis diz ter aprendido ao longo dos últimos tempos, algo como se ela estivesse falando no espelho. “Ironic” brinca com a lei de Murphy, “Head Over Feet” é sobre contradições e as várias nuances de personalidade e estados de espírito, mas talvez o melhor momento do álbum seja “Hand In My Pocket”, em que Alanis enumera uma série de contradições de estados de espírito, mostrando quão complexa uma mulher de 21 anos pode ser. Tudo funciona.

 

“Jagged Little Pill” arremessou Alanis Morissette numa turnê que durou quase dois anos – passando pelo Brasil na época – e a transformou numa voz a ser ouvida. Seu álbum seguinte, “Suposed Former Infatuation Junkie” (1998) e o “MTV Unplugged” (1999) consolidaram sua posição junto aos fãs, mas ela foi perdendo fôlego aos poucos, se tornando uma artista mediana ao longo dos anos 2000/10. Mesmo assim, Alanis tem uma marca profunda no pop noventista, certamente uma artista a ser lembrada e alguém em quem seguimos de olho, esperando por trabalhos com a mesma qualidade/sinceridade de então.

 

 

Foto por Marcos Bragatto, 23/10/96.
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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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