What’s Going On, 50.

 

 

 

O aniversário é só em 21 de maio, mas a Motown disponibilizou hoje, quatro meses antes, a edição comemorativa do cinquentenário de “What’s Going On”, álbum atemporal de Marvin Gaye. Estão nos serviços de streaming as versões estéreo e mono das faixas do disco, além do “Detroit Mix”, uma mixagem alternativa das faixas, que já fora disponibilizada em versões de aniversário anteriores. Também de outras datas comemoradas anteriormente vem a versão da faixa-título com BJ, The Chicago Kid, relaticamente dispensável. E a grande cereja no bolo: “Funky Nation: The Detroit Instrumentals”, que chega ao streaming composto por 14 faixas gravadas por Gaye no final do verão e outono de 1971, após o lançamento de What’s Going On.

 

Optando por não fazer uma turnê após o sucesso do álbum, Gaye gravou essas faixas com uma banda arregimentada especialmente para a ocasião, liderada pelo então baterista da Motown em turnê, Hamilton Bohannon. A formação também contou com Ray Parker Jr., então com 17 anos, Melvin Ragin, também conhecido como “Wah Wah Watson” (ele próprio apenas 20), Leroy Emmanuel, dos Fabulous Counts, relativamente experiente aos 25, nas guitarras, e Michael Henderson , 20 anos, no baixo. Gaye tocava teclado e percussão.

 

Certas faixas do Funky Nation estavam disponíveis em lançamentos especiais anteriores, a maioria delas recém-lançadas na edição Super Deluxe de What’s Going On 40th Anniversary em 2011. Eles agora recebem seu próprio lançamento digital individual pela primeira vez.

 

Em 1971, a situação das tropas americanas na Guerra do Vietnã se agravara e a derrota era iminente. Muitos jovens protestavam nas ruas contra a presença no Sudeste Asiático desde o início da guerra mas os presidentes Kennedy, Johnson e Nixon não se mostraram partidários de uma solução pacífica ou mesmo da retirada dos contingentes militares da região. Artistas de diferentes orientações se engajaram contra a guerra e Marvin Gaye, até então um talentoso hitmaker da gravadora Motown, concebeu um álbum inteiro sobre a situação política daquele momento. Motivado pela volta de seu irmão mais novo, Frankie, que servira no Vietnã como funcionário da rádio do exército americano, Marvin se aproximou de outros compositores da Motown, como Obie Benson e Al Cleveland e, juntos criaram “What’s Going On”.

 

O engajamento de Marvin surpreendeu a todos, inclusive o presidente da gravadora, Berry Gordy, que não se mostrou favorável ao lançamento da canção e do disco homônimo, que ampliava a análise de conjuntura para problemas como a degradação do meio ambiente (em “Mercy Mercy Me”), a pobreza urbana (em “Inner City Blues”), as crianças desamparadas (em “Save The Children”) e questões religiosas, em “God Is Love”.

 

“What’s Going On”, o disco, é um marco na história da música do século 20, mesmo não sendo a mais contundente crítica feita por um artista negro naquela época, certamente se tornou a mais popular e a mais bem composta obra musical, equilibrando letras importantes e musicalidade marcante. É um clássico atemporal.

 

 

Em tempo: Se você estiver interessado/a em procurar outros discos engajados do período, aqui vão três recomendações:

“Ship Ahoy”, dos O’Jays

“Talking Book”, de Stevie Wonder

“Pieces of a Man”, de Gil Scott-Heron

 

 

Em tempo 2 – quando defendi minha dissertação de mestrado, em 2017, sobre os bailes black do Rio de Janeiro, coloquei um verso de “What’s Going On” em epígrafe: “who are they to judge us just because our hair is long?”.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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