Heavy Hawaii – Boy Don’t Drown

 

 

Gênero: Rock alternativo, lo-fi

 

Duração: 28 min.
Faixas: 9
Produção: Matt Bahamas
Gravadora: Dream

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

Se você é fã dos Beach Boys, anote o nome do Heavy Hawaii, uma dupla de San Diego, Califórnia. Os caras – Matt Bahamas e Jojo Keylargo, nomes sensacionais, típicos de policiais da TV – têm em mente um objetivo simples: recriar as atmosferas mais surrais que os trabalhos dos Beach Boys evocaram no fim dos anos 1960 e ao longo dos 1970. Talvez nem seja uma vontade consciente da dupla, o fato é que seus três discos lançados até agora arranham essa característica experimental que só os fãs dedicados dos Garotos da Praia dão valor. A maioria esmagadora exalta as músicas mais doces e conhecidas – obras primas, todas – mas deixam de lado a doideira de álbuns como “Love You”, de 1977, que um Brian Wilson totalmente enlouquecido teria gravado praticamente sozinho. “Boy Don’t Drawn”, o mais recente álbum do HH é uma livre apropriação de detalhes tão pequenos das canções experimentais dos Beach Boys sob o prisma do lo-fi. E o resultado é pra lá de instigante.

 

Ao contrário de bandas como Animal Collective e Panda Bear, que pegam emprestadas as mesmas influências experimentais/praianas, o Heavy Hawaii tem um pouco mais de desenvoltura no quesito “canção pop”. É verdade que esta habilidade só se tornou visível de fato neste novo álbum, pois os anteriores, “Goosebumps” (2015) e “HH” (2010), apesar de mostrar as credenciais estéticas, derrapavam na formatação. Agora, com as ideias bem alinhadas, a dupla lançou nove faixas que, juntas, nem chegam a trinta minutos de duração, totalmente abarrotadas de ecos muito nítidos de uma Califórnia mental totalmente colorida e amplificada, que passeia na beira da praia como um evento fora do tempo. A sensação é ótima.

 

Matt e Jojo colocaram teclados, guitarras, órgãos, tiques eletrônicos, instrumentos vintage e se aplicaram nos vocais de apoio, gerando uma paisagem sonora de turbilhonamento total de passagens beachboyanas de primeira categoria. Em meio a isso, colocaram à prova suas habilidades de compositores pop e, via de regra, acertam em cheio no alvo da belezura litorânea. Dá pra notar dois tipos de composições ao longo do disco, as mais experimentais e as que evocam características pop mais assumidas. No time esquisito, “Dodging You” é um dos destaque, com suas levadas de teclado e melodia doce que é interrompida de tempos em tempos. Parece uma demo dos tempos de “Smile”, 1967, recuperada em 1975. “Back In The Sand” também é dessa leva, apesar de já ser mais polida, com instrumental que evoca um passeio na praia sob a luz de uma lua de Marte.

 

A lindeza absoluta repousa em momentos dourados. “Break Up In Time For Love”, a faixa de abertura, é uma pequena aula de como erguer uma melodia sublime e arranjá-la bem, com tudo o que estiver à mão. A faixa-título é um oásis de pouco mais de três minutos, envolta por bateria eletrônica e teclados massivos, que criam uma atmosfera de sonho e beleza irresistível, quase intoxicante. “Want You In My Room” é o mais próximo que podemos chegar por aqui de uma canção de amor mais convencional, lembrando muito os melhores momentos mais duvidosos dos Beach Boys esquecidos no início dos anos 1970. “Way Back When” é outra pequena gema de fluidez sob um céu que nos protege.

 

“Boy Don’t Drown” é uma pequena maravilha que não pode passar batida pelos fãs de Beach Boys e pelos cultores desta nova/velha psicodelia, que muitos acham sem estofo, mas que tem produzido belos discos e bandas consistentes. Ouça e passe adiante.

Ouça primeiro: “Boy Don’t Drown”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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